Torsten Blackwood/Reuters
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Megafone

Carta ao Henrique versando ciência

Da próxima vez que queiras aventurar-te pelos caminhos da ciência ou que queiras torcer um argumento lógico até ele se tornar uma diatribe pessoal, manda um toque, que estou ao teu dispor. Eu e os meus amigos cientistas

Querido Henrique: escrevo-te como amigo, daqueles com quem se aprecia discutir apesar das diferenças de opinião e à conta da inteligência argumentativa. A mesma que brilhantemente usaste no teu texto chamado O Ano Sem Verão.

Nele defendes que, antes do homem criar uma sociedade industrial, já havia períodos mais solarengos, pelo que não há razão para crer que o homem provoca o aquecimento global. Isto irritou alguns amigos cientistas, mas não a mim, a quem a experiência ensinou que quem nunca estudou ciência ou verificou um desvio-padrão, tende a usá-la de acordo com a sua ideologia, independentemente das evidências.

Dás como exemplo a erupção do Tambora, em 1815, que teria levado ao Ano Sem Verão. Mencionas a Pequena Idade do Gelo dos séculos XVII e XIX. Pena teres deixado de fora os dinossauros — não consta que tenham morrido graças a teares industriais e terias alargado o teu público às crianças de 4 anos. Talvez elas acreditassem no teu texto.

O Ano Sem Verão, crêem os cientistas, foi tão provocado pelo Tambora como por uma baixa histórica na radiação solar; a Pequena Idade do Gelo — cuja drástica diminuição de temperatura gera dúvidas — terá tido como causas o decréscimo da população mundial (sem indústria) e uma baixa na radiação solar.

O Sol, Henrique, pode ser maroto: o vento solar, um fluxo de partículas emitido pela estrela e do qual estamos protegidos pelo nosso campo magnético, quando em excesso abala o dito campo e perturba as telecomunicações. Poderás pensar que aprendi isto nos três anos que concluí de Engenharia Electrónica e Telecomunicações. Não: li-o no Disney Comix n.º 31 ("Férias: Leva Contigo o Teu Pluto"). Apenas me dei ao trabalho de confirmar a informação.

Não estarás habituado a lidar com premissas e inferências, pelo que vou explicar-te onde (além dos erros factuais que deste) jaz o teu erro lógico: concluíres que o actual aquecimento global não é imputável ao homem, porque antes deste se industrializar já havia escaldões.

Estás a confundir a época em que se dá uma situação, com a causa da situação. Sempre houve variações de temperatura na Terra; algumas tiveram ou têm — como demonstrei — causas naturais; outras não têm causas naturais: como toda a ciência independente indica, são fruto da actividade humana.

Isto quer dizer que um vulcão pode explodir sem termos de apontar o dedo a um dos teus capitalistas preferidos, mas que no caso do aquecimento global HÁ dedo humano. Segundo o Painel InterGovernamental para a Mudança Climática (IPCC), a comunidade científica tem mais de 90% de certeza que o acréscimo da temperatura se deve ao efeito de estufa provocado pela actividade humana. Este conjunto de malandros socialistas fumadores de charros composto por um sem número de prémios Nobel, indica como causa as emissões de dióxido de carbono derivadas do nosso uso de combustíveis. Com 90% de certeza empírica (por oposição à primeira tese que lhes deu na telha).

Henrique, sabes que, como leitor, admiro a mão indomável do cronista que pense por si. Mas, enquanto ser provido de neurónios organizados em rede, que têm a capacidade não só de olhar para o seu umbigo mas também para o exterior, e de recolher informação sobre este antes de fazer uma afirmação, pergunto-me se não será incorrecto propagares erros científicos clamorosos.

Da próxima vez que queiras aventurar-te pelos caminhos da ciência ou que queiras torcer um argumento lógico até ele se tornar uma diatribe pessoal, manda um toque, que estou ao teu dispor. Eu e os meus amigos cientistas.