Americanos e britânicos mobilizam-se para tentar salvar alunas raptadas na Nigéria

Polícia oferece recompensa. Novo ataque islamista terá feito 300 mortos. Presidente Goodluck Jonathan preocupado com a reeleição.

A mãe de uma das raparigas desaparecidas desde 15 de Abril
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A mãe de uma das raparigas desaparecidas desde 15 de Abril Pius Utomi Ekpei/AFP

Os Estados Unidos destacaram uma equipa de especialistas civis e militares para a Nigéria, onde vão tentar localizar as mais de 200 raparigas raptadas por guerrilheiros islamistas.

O anúncio sobre o envio da equipa foi feito pelo Presidente Barack Obama. Mas foi Kerry quem deu as explicações adicionais, por exemplo por que motivo esta intervenção só acontece agora, mais de 15 dias desde o rapto de 223 raparigas cristãs e muçulmanas de uma escola em Chibok, no nordeste do país, e depois de o grupo islamista Boko Haram ter raptado mais 11 adolescentes da mesma zona (da vila de Warabe), no domingo. Kerry disse que o Presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, tinha “a sua própria estratégia”, tendo sido “os novos desenvolvimentos” a “convencer toda a gente de que é preciso um esforço maior”.

Só no domingo à noite Johathan pediu a ajuda internacional — o Reino Unido também vai enviar uma equipa de conselheiros governamentais e a França ofereceu ajuda —, quando estava já em marcha uma campanha internacional pela sua libertação e em Abuja (a capital) e noutras cidades nigerianas se realizaram manifestações acusando o Presidente de inércia perante os raptos e a violência, crescente, dos islamistas.

Neste momento, não há quem saiba onde estão as adolescentes, entre os 12 e os 18 anos. Num vídeo, o líder dos Boko Haram, Abubakar Shekau, aparece a dizer que as vai vender porque o destino das mulheres é casar e não estudar. “Deus instruiu-me para as vender”. A polícia nigeriana ofereceu, entretanto, uma recompensa de 50 milhões de nairas (equivalente a 215 mil euros) a quem der informações concretas sobre o paradeiro das raparigas levadas pelos Boko Haram, que significa “A educação ocidental é proibida” em haoussa, a língua mais falada nesta zona que é, segundo os especialistas, a zona mais negligenciada da Nigéria. A província de Borno, junto à fronteira com o Chade, é o epicentro da inssurreição islamista e ali os ataques a vilas e aldeias, a liceus e a universidades, são frequentes, mas poucas vezes os meios de comunicação social os mencionam — fizeram-no agora porque foi um rapto inédito pela quantidade de raparigas levadas de uma só vez.

O rapto em massa na escola de Chibok não foi um acto isolado e surge na sequência de uma série de atentados e ataques, na província e fora dela. Noutro ataque no domingo, em Gamboru Ngala, os islamistas mataram “cerca de 300 pessoas”, disse à AFP Ahmed Zanna, senador por esta província. Testemunhas ouvidas pela agência francesa disseram ter contado mais de cem cadáveres, mas que o número iria certamente subir.

Na semana passada, nas vésperas do início em Abuja do Fórum Económico Mundial (a Nigéria, o país mais populoso de África, é um dos maiores produtores de petróleo), um atentado matou 19 pessoas; uns dias antes, no mesmo local, os Boko Haram mataram 75 pessoas.

"Uma infelicidade"

“O nordeste da Nigéria é um dos lugares mais negligenciado do mundo”, escreveu no The Telegraph Ruchard Dowden, director da Royal African Society. Dowden defende que este abandono começa na presidência e nota que, ao fazer os primeiros comentários sobre o rapto das 223 raparigas, o Presidente disse que era “uma infelicidade”, mais nada. Quando a mãe de uma das raptadas se manifestou em Abuja contra a inacção do Governo, que acusou de nada fazer para começar a procurar as raparigas, foi detida por ordem da mulher de Goodluck Jonathan, Patience, uma mulher sem cargos oficiais mas muito influente na política nacional e que faz agora campanha contra os raptos. Mas ainda no fim-de-semana os relativizava porque prejudicavam o marido: “Vocês estão a fazer joguinhos. Não voltem a usar mulheres e crianças em manifestações. Não tragam esse assunto para fora de Borno, o assunto tem que morrer ai”, disse a primeira-dama nigeriana aos professores que organizaram uma manifestação a favor das raptadas, citada pela própria agência noticiosa nigeriana, NAN.

“A forma lenta como as autoridades responderam prova que os governantes não querem investir na vida das pessoas como as alunas de Chibok, que são de uma parte do país historicamente marginalizada”, lê-se numa análise de The Washington Post. “Esta indiferença explica, em parte, o sucesso dos Boko Haram”, diz Dowden acrescentando que, localmente, os islamistas se tornaram um parceiro de negócios para os comerciantes de alimentos e para os traficantes de armas.

O grupo, que há cinco anos luta pela criação de um estado islâmico no nordeste, tem vindo a alargar o seu campo de acção, perante a inacção das autoridades centrais. Desde o início do ano, a guerra dos islamistas já matou 1500 pessoas, e a insegurança está a cobrar a sua factura ao Presidente, cuja taxa de popularidade está a baixar. No domingo, Jonathan negou que existisse insegurança no país e garantiu que estava em vantagem no combate ao terrorismo. “Estamos a ser bem sucedidos”, afirmou.

Os analistas dizem que o Presidente só foi obrigado a sair do alheamento em relação aos raptos por dois factores: a indignação internacional e a possibilidade de a contestação interna comprometer a sua reeleição, nas eleições de 2015.