Martin Schulz, o amigo alemão, não é um estrangeiro

No dia em que o candidato dos socialistas europeus fez campanha em Portugal, António José Seguro voltou a defender a mutualização das dívidas públicas na zona euro. E o nome de Cavaco Silva veio à baila, duas vezes…

Os resultados das eleições europeias foram decisivos para o avanço de Costa
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Os resultados das eleições europeias foram decisivos para o avanço de Costa Enric Vives-Rubio

É difícil acertar com uma prenda para Martin Schulz. À saída da Fundação Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa, num saco de papel, recebe a edição inglesa de As Pequenas Memórias. “Já li, em alemão. Kleine Erinnerungen. Eu também nasci numa aldeia com 500 habitantes…”. Desilusão. Segundo livro, tradução alemã, e reparem como a prenda nem sequer é óbvia: Manual de Pintura e Caligrafia. “Ah, já tenho. Mas gostava muito de ficar com outro exemplar, para oferecer, se não se importarem…”. António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, pega noutro saco, desta vez com uma edição portuguesa, acabada de sair: Os Rapazes dos Tanques, de Adelino Gomes e Alfredo Cunha.

O ainda Presidente do Parlamento Europeu já desempenhou muitos papéis na política: foi autarca, deputado, líder juvenil. Mas começou por ser livreiro. Sabe muito de livros. Pára para espreitar a montra da Ferin, na Rua Nova do Almada. Demora-se na Bertrand do Chiado, a mais antiga livraria em funcionamento do Mundo.

Schulz é o candidato dos socialistas europeus à Presidência da Comissão Europeia. Conta com o apoio do SPD alemão, que integra a grande coligação com a CDU de Angela Merkel, no poder em Berlim. E conta, também, como sublinhou António José Seguro, com o apoio do PS. E é por isso que passou esta terça-feira em Portugal, entre Alfragide, Setúbal, Lisboa e o Porto. Está numa inédita campanha eleitoral, a dos candidatos à sucessão de Durão Barroso.

Por isso aterrou em Lisboa, às nove da manhã, e seguiu directamente para a Siemens, multinacional alemã, em Alfragide. Foi lá que se encontrou com António José Seguro, secretário-geral do PS, e Francisco Assis, cabeça de lista dos socialistas portugueses ao Parlamento Europeu. Juntaram-se Maria João Rodrigues e Ana Gomes, que Schulz conhece bem, de Bruxelas.

Próxima paragem: Setúbal. A comitiva de carros atravessa o Bairro da Bela Vista, com os seus prédios novos e já decrépitos e passeios empoeirados. Param à porta da Caritas Diocesana de Setúbal. Martin Schulz, Seguro e Assis entram num corredor escuro.

A creche da Sala Amarela tem meninos e meninas contentes. O almoço vai ser carapaus fritos, com arroz de feijão. Na sala em frente, estão três idosos. Dois jogam dominó. O outro aborda o líder do PS. A conversa vai dar ao Vitória de Setúbal. “Aqui o meu amigo Martin Schulz lembrava-se do J.J. [a velha glória angolana, Jacinto João] e do Vítor Baptista.” O homem torce o nariz. “Quem estragou a vida do Vítor Baptista?”

Para essa pergunta, Seguro não ensaia resposta. Mas há muitas outras vidas que podem ter sido estragadas na Sala de Convívio Padre Camilo. Os confortáveis cadeirões, alinhados junto à parede, estão quase todos ocupados. Os idosos olham em frente. Muitos não têm família. Cantam um hino à Caritas. A letra é triste, a música alegre: “Oh Caritas generosa/dás pão e dás amor”.

Na sala seguinte, um grupo de dez mulheres, ciganas, aprendem o que são simetrias. Estão numa aula de alfabetização. Seguro louva-lhes “a coragem e a atitude de continuarem a aprender”. Elas riem-se, envergonhadas.

Cá fora, no jardim, estão outras alunas. Vêm, quase todas, da Holanda, e participam num curso internacional na Escola Superior de saúde do Politécnico de Setúbal. Schulz explica-lhes porque está ali. Acabam, todos, a concordar, num pleonasmo em inglês: “Esta é a realidade real.”

A ideia ficou na cabeça do candidato à Presidência da Comissão. Mais tarde, quando comentava a saída “limpa” de Portugal, Schulz diria: “É um passo em frente que os países saiam dos programas de ajustamento. Os bancos, agora, decidiram comprar dívida soberana. Se isto significa que a crise acabou, o meu conselho é: vão ver a Caritas.”

Passam dois minutos do meio-dia quando a comitiva chega ao Hotel do Sado. Dirigem-se à varanda, com vista sobre a Arrábida. Schulz olha para o mar: “Os problemas da Europa são os mesmos, em todo o lado. É um continente com um enorme potencial e uma repartição lamentável da riqueza”. Seguro, que está ao seu lado, garante: “O senhor Schulz não é um estrangeiro aqui.”

Nas declarações oficiais, Seguro repete a ideia: “O Martin não é uma pessoa estranha no nosso país. Que sejas o próximo Presidente da Comissão Europeia.” No seu discurso, Seguro defendeu que “a Europa precisa de ser transformada”. “Falta completar a zona euro”, com novas regras para “um Governo económico e político", em que o BCE “possa emprestar [dinheiro] directamente aos Estados” e onde “para problemas comuns existam soluções comuns”. Seguro voltou a defender mecanismos de mutualização das dívidas, numa Europa onde “15 dos 18 países da zona euro têm dívidas públicas acima de 60% do PIB”. Criticou ainda a “consolidação fraquinha”, conseguida pelo programa da troika, “feita à custa da destruição do aparelho produtivo e do aumento do desemprego”.

Schulz repetiu a ideia inicial de Seguro: “Não sou um estrangeiro em Portugal, sou um europeu, da Alemanha, e sinto-me orgulhoso de ser chamado de amigo". Defendeu que a sua “principal prioridade” é “lutar contra o desemprego”. Concordou com Seguro: “O papel do BCE não pode ser apenas o de garantir dinheiro barato para os bancos”. E frisou a “vida indecente” que muitos têm, hoje, na Europa. “Vimos a Caritas, a quem quero expressar a minha admiração.” Para o candidato alemão, a Europa tem um problema: “Os especuladores super-ricos fazem biliões de lucros e podem coloca-los num refúgio fiscal. Mas quando perdem biliões são os contribuintes que pagam…”

Telegraficamente, Seguro respondeu sobre a mensagem do Presidente da República no Facebook: “Penso que o conteúdo da declaração do Presidente da República não visava o PS. Confesso que fiquei surpreendido.” Defendeu que a carta de intenções do Governo português para o FMI seja conhecida de todos “de preferência antes de dia 17”. E garantiu que “não existem divergências” com Martin Schulz a propósito da criação de eurobonds.

A simpatia mútua era tanta que Seguro, que não previra acompanhar a campanha do alemão à tarde, em Lisboa, lá acabou por descer o Chiado a pé.

Primeira paragem, livraria Bertrand. Ana Gomes olha para as estantes e adianta, para o PÚBLICO: “A evasão e a fraude será o assunto número um do próximo mandato. Por duas razões: é importante fazer uma luta séria contra a corrupção e, também, recuperar o dinheiro que se perde, para depois não virem com essa conversa de que não há dinheiro para o Estado cumpri as suas obrigações.”

Já com António Costa, Seguro, Schulz e Assis descem a Rua Garrett. Francisco Assis, que vai para o Porto, a seguir, com Schulz, garante que “existem vários pontos de acordo” nas ideias dos dois sobre Economia. Sobretudo na “rejeição desta austeridade radical que conduz os países ao fatalismo de uma estratégia de desvalorização salarial”.

Na Start Up Lisboa – Incubadora de empresas, Seguro junta todos numa selfie tirada com o seu telemóvel. Schulz quis conhecer a Fundação Saramago. Mesmo sabendo que Pilar Del Rio é apoiante do Bloco de Esquerda. Aliás, Schulz tem vários amigos entre a desavinda esquerda portuguesa, de Rui Tavares a Vital Moreira – que pode ver, na Fundação, abraçado a Saramago, com um farto bigode e cabelos pré-grisalhos.

Um vídeo, na parede, mostra Sousa Lara. António Costa ri-se. E conta a história da censura a O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Schulz estranha: “E Barroso era ministro dos Negócios Estrangeiros desse Governo?” “Era, era um Governo de Cavaco Silva”, responde o autarca. “Curioso, ele apresenta-se como um admirador de Saramago …”

À saída, Schulz confessa que tem um desejo: “Isto é o que quero fazer depois da minha vida política. Escrever.”

Na rua, todos entram nos carros. A comitiva segue para o Porto. António Costa dá uma última indicação, interessante, mas rodoviária, porque o trânsito na Baixa não está fácil: “Sigam pela esquerda.”