Entrevista a Jorge Ramos do Ó

“É como se estivéssemos numa espécie de loucura consentida, a aprender o que há de pior para ser um cidadão”

Os rituais dos alunos que tanto dão que falar são o espelho de algo muito maior, acredita o historiador Jorge Ramos do Ó, que não foi praxado por colegas quando era estudante. Mas foi “praxado por professores, a vida toda”. Como? “No sentido em que tive de ouvir coisas muito disparatadas e responder a perguntas muito imbecis. Para haver mentalidade praxista, não é preciso haver praxes.”

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Jorge Ramos do Ó Joana Bourgard

Jorge Ramos do Ó é professor no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e especialista em História da Educação e Análise do Discurso. Nesta entrevista, defende que o que está enraizado há séculos no sistema educativo é isto: “A ideia de que não existe uma simetria de inteligências. A ideia de que o saber se ouve, não se constrói. A ideia de que não se experimenta, decora-se. A ideia de que não se pensa, reproduz-se.” O sistema educativo é assim. A chamada praxe académica é assim. Os jovens acham que o que os espera quando forem adultos não é diferente. Se querem ser respeitados, terão de sobreviver ao jogo, acreditam.

O professor, autor de livros como A Universidade de Lisboa, da Revolução Liberal à Actualidade (Tinta da China) e O Ensino Liceal (Ministério da Educação), foi uma das três personalidades a quem pedimos para ler e analisar alguns dos muitos testemunhos que recebemos sobre praxe. Diz que se comoveu. “Estamos todos a operar na miséria relacional — as vítimas, os agressores, os que se sentiram excluídos, os que ficam traumatizados, os que se sentem muito felizes com a praxe...”

Os rituais de recepção aos caloiros estão descritos há séculos como tendo uma função disciplinadora positiva [as trupes em Coimbra tinham supostamente a missão de garantir que os estudantes mais novos não saíam à rua à noite e ficavam em casa a estudar]. Também vê estes rituais dessa forma?
 São rituais de disciplina, mas, do meu ponto de vista, são mais rituais que mostram o modo como os jovens adultos, os estudantes universitários mais velhos, procuram mimetizar uma ideia que têm da universidade. E, ao mesmo tempo, uma ideia que eles têm do próprio sistema educativo. Os alunos são aquelas pessoas que estão a ouvir o professor. Podem ouvir professores que dizem disparates, mas estão ali a ouvir. São vistos como alguém que não conhece e que, portanto, alguém que precisa de se dispor a ser submetido por uma coisa qualquer que é o saber, ou a ordem, ou a disciplina.

A minha posição aqui não é a de ser a favor ou contra [a praxe]. É a de constatar esta dinâmica que procura reproduzir a instituição escolar no que ela tem de impossibilitador de uma vida comunitária baseada no acolhimento, na ideia de que duas inteligências se encontram, pensam e experimentam juntas — que é muito a ideia de instituição universitária nos países de tradição alemã ou anglo-saxónica, onde estas praxes têm muito menos significado do que nossa cultura.

E em Portugal?
Nós vimos de uma tradição neurótica, se quiser, que consiste em termos um professor que pode dizer tudo, incluindo os maiores disparates, e haverá sempre alguém que imagina que se se adequar a esses disparates, e sobrevivendo a eles, pode um dia ser um adulto respeitado.

Teve oportunidade de ler excertos de algumas dezenas de textos que recebemos sobre a praxe nos últimos dias...
A primeira coisa que me impressionou, mais do que os relatos, que demonstram formas de humilhação, mais do que aquelas vozes que dizem “tenho muitas saudades [da praxe]”, “gostei muito”, “foi onde fiz os meus melhores amigos”, é que há aqui depoimentos que mostram que as pessoas percebem que para se ser adulto “tem de se fazer sacrifícios”, “que isto é uma preparação para as hierarquias, para a responsabilidade, para o trabalho em equipa”. Não há nada que estes jovens adultos, os estudantes, duxes e etc. façam com os mais novos que não tenham visto — e sentido na pele. E é como se estivéssemos aqui todos numa espécie de loucura consentida a aprender o que há de pior para vir a ser um cidadão. E que é imaginar que tem de se obedecer à autoridade mais ilegítima, mais brutal, mais humilhante.

Mas a hierarquia marcada, a ideia do aluno passivo, é algo que sempre esteve presente no sistema educativo...
Do ponto de vista histórico, tem razão quando diz que sempre existiu. A questão é que agora se absolutizou, atinge a vida juvenil no seu conjunto. Enquanto há 150 anos estávamos a falar de uma parcela da juventude — na universidade estavam pessoas que normalmente eram da classe média —, hoje toda a gente está na universidade. E é tudo mais visível. Para além de que a tolerância para com a vida juvenil também é menor — os alunos aparecem nos jornais, nos media, quase só na medida em que produzem comportamentos idiotas, violentos... não há esforço para mostrar uma imagem menos negativa. Estes fenómenos têm uma existência hoje, uma circulação, que não tinham anos atrás. Toda a gente sabia o que era as praxes, mas, como aquilo estava relativamente circunscrito e fazia parte de uma elite, era visto pelos adultos como alguma coisa que eles próprios já tinham protagonizado, sendo eles parte dessa mesma elite, que assim se via reproduzida. Hoje é mais fácil distanciarem-se disto. E sobretudo, nós, universitários – imagino que alguns, talvez mesmo muitos –, reagimos às praxes como se elas não tivessem nada que ver connosco, como se elas fossem uma coisa da barbárie cultural, própria daqueles que são os recém-chegados, que vemos como estando em ascensão social e nada têm que ver com o nosso mundo e as nossas referências culturais e existenciais. Nós, que estamos ali no mesmo edifício, alguns de nós que abrimos as salas para os alunos mais velhos fazerem as praxes aos alunos mais novos, imaginamos que o que eles façam de horror não tem nada que ver com o que nós fazemos.

É um bocadinho esquizofrénico, isso de abrir as portas das salas se é uma barbaridade…
Quem faz as praxes — mesmo os nomes: o doutor, o engenheiro, a besta, toda essa nomenclatura — quem produz as praxes está, de alguma maneira, a reproduzir designações que são as do próprio mundo universitário.

O que é que na forma de relacionamento numa universidade pode haver de semelhante com a praxe?
A ideia de que alguém tem tudo a ensinar e alguém tem tudo a aprender. A ideia de que não existe uma simetria de inteligências. A ideia de que o saber se ouve, não se constrói. A ideia de que não se experimenta, decora-se. A ideia que não se pensa, reproduz-se. Isto está enraizado no nosso sistema de ensino há séculos. E na actualidade. É esta encenação que os jovens fazem nas praxes. E que é a expressão da forma de poder mais violenta e mais omnipotente, que é você dizer assim: “Eu vou produzir um escravo feliz, vou escravizar, vou humilhar, vou pôr em causa valores da intimidade mas no fim, se a pessoa sobrevive àquilo, ela vai considerar-se uma vencedora.” É como se reduzisse a vida comunitária a esta ideia de que você pode ser escravo e senhor, não pode ser outra coisa. E esta é a grande fantasia do poder na sociedade moderna.

Qual?
Produzir escravos felizes, produzir o máximo de disciplina consentida, o máximo de obediência, responder a ordens contraditórias — “Fala! Está calado! [in relato de uma das alunas que enviaram o seu testemunho ao PÚBLICO]” O que há de mais repugnante é isto estar dentro da nossa vida. Não é um cogumelo que nasceu ali no meio do nada.

Para mim, o pior é que não há alternativa: a não ser a miséria de querer reproduzir os partidos políticos, ou de pertencer à Maçonaria, não há, do ponto de vista daquilo que é a missão da universidade — que é produzir conhecimento, a fantasia do conhecimento, a fantasia da ciência, de que tudo pode ser pensado —, não há formas de vida comunitária alternativas às da praxe. Se quer pensar, em grupo, novas formas de conhecimento e de vida, associando-os, fazendo com que se alimentem um à outra, o que é que você tem? Nada. Era bom que olhássemos para isto das praxes como uma exigência a nós próprios para inventarmos formas totalmente novas de estarmos juntos.

A tragédia é imaginarmos que podemos estar dentro de uma instituição que foi criada para ser autónoma de todos os poderes — e desde a Idade Média, desde o seu aparecimento, se construiu como espaço de autonomia, para pensar sobre tudo e pôr tudo em causa, imaginar que não há nenhuma pergunta que não possa ser feita — e, depois, produzimos uma vida lá dentro que reduz esse princípio a algo que é o contrário, que é: “Você não pensa, você é burro, é idiota.” Este praxante encarna ele mesmo essa figura, é alguém que teve muitas matrículas, que não conseguiu ter sucesso na parte académica mas por isso mesmo pode administrar, como se conhecesse, dentro de si próprio, e de uma ponta à outra, a linguagem do poder... Submete como foi submetido.

As pessoas que nos escreveram falam muito sobre a divergência de percepções sobre o que num determinado ritual é ou não violento. Para o reitor, uma praxe violenta é uma coisa; para o aluno, é outra; para um professor A ou B, é outra; para o secretário de Estado, é outra...
Se para as pessoas é uma questão de grau — alguém ter uma orelhas de burro não é violento, mas se o despirem com as orelhas de burro já é violento —, para mim, o princípio é sempre o mesmo princípio e é o princípio que eu condeno: a ideia de que alguém tem tudo a dizer e alguém tem tudo a aprender. Eu acho que tudo o que sejam formas de relação que não suponham um bom encontro, uma afectação positiva, marcada pelo desejo de pensar sobre o amanhã do conhecimento e sobretudo que não inscrevam o desejo do saber no centro da vida universitária, são no mínimo inúteis, para não dizer mesmo desprezíveis.

Compreendo que alguém tenha prazer em humilhar, em ter alguém à mercê e de a submeter e depois de a libertar — é uma coisa um bocado erótica. Agora, o que eu digo é que, provavelmente, essa prática é mais tolerada na instituição escolar do que em qualquer outra.

Como assim?
Num hospital, numa prisão, estes comportamentos seriam, provavelmente, mais facilmente denunciados e se não são denunciados — e é preciso que morram pessoas para se debater isto — é porque, provavelmente, uma vez mais, as universidades não querem constatar que os mais jovens estão a copiar comportamentos dos adultos. Porque aí a conversa não é sobre os mais jovens, é sobre nós todos. Por que é que nós somos tão permeáveis à vertigem totalitária?
Desta conversa pode ficar a ideia de que não compreendo estas pessoas que entram neste jogo. Eu queria dizer que compreendo. Não tenho nenhuma espécie de identificação com as praxes, mas compreendo e vejo isto como uma caricatura da vida adulta. E para mim, o trágico, é que os adultos apresentem deles uma imagem que só pode ser reproduzida nesta relação pobre. É como se estivessem num devir adulto, a tentar sistematizar, a tentar representar de forma metafórica, simbólica, aquilo que é o movimento para ser adulto.

Há algum depoimento que o tenha tocado mais?
“Acordamos para a vida que nos espera lá fora”, “isto faz-nos crescer enquanto cidadãos”, “não tem um adulto que fazer sacrifícios?”, “estão a preparar-nos para trabalhar em equipa” — é o que dizem estas pessoas. Também dizem que representaram “o papel de bestas ignorantes que não sabem as respostas”, que lhes raparam o cabelo, que estiveram em “posições absurdas”, que há “um tribunal da praxe”... Isto é um facto social total, ocorre em todas as universidades, mais numas, menos noutras, mas é um facto da vida universitária contemporânea que as pessoas que chegam ao vértice do sistema de ensino, seja enquanto alunos universitários, seja enquanto professores, vivem nas suas instituições práticas de aniquilamento, de integração que supõem esta obediência consentida. E se isto acontece é porque se sabe que há um ganho qualquer. Que se está a jogar uma fantasia de poder que é o poder hierárquico.

Onde é que se licenciou?
Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas [da Universidade Nova de Lisboa], na década de 80. Havia praxes, poucas. Participei numa coisa dessas, como praxante: um dia demos uma aula com uma bibliografia em alemão ou chinês...

Era um falso professor.
Éramos falsos professores. Senti-me ridículo ao fim de meia hora. E nunca mais fiz nada.

E praxado, foi?
Não pelos meus colegas, mas fui muito praxado por professores, a vida toda. No sentido em que tive de ouvir coisas muito disparatadas e responder a perguntas muito imbecis. Para haver mentalidade praxista, não é preciso haver praxes.
Devo dizer que li isto [os testemunhos dos leitores do PÚBLICO] com uma certa emoção, se quer que lhe diga. Se eu tivesse que me identificar aqui com alguém, e se eu tivesse de ser solidário, seria com as pessoas que foram vítimas mas também com as pessoas que dizem que isto foi como voltar a ser criança... para mim, é tudo a mesma coisa.

São todos vítimas?
Estamos todos a operar na miséria relacional — as vítimas, os agressores, os que se sentiram excluídos, os que ficam traumatizados, os que se sentem muito felizes com a praxe...