Quartel do Carmo, Lisboa

A revolução vista do interior do quartel

Durante anos olhámos o momento-chave da revolução a partir da rua. Agora, entrámos no Quartel do Carmo. A história também está lá dentro.

Habituámo-nos a ver o fim do regime no meio de uma praça cheia de gente empoleirada em estátuas e candeeiros. As últimas horas do fascismo aconteceram aí, no pequeno — e nesse dia infinitamente pequeno — Largo do Carmo. 
Estivemos sempre — mesmo os que, como eu, não estiveram de facto lá em 1974 — no meio dessas pessoas que, ignorando as ordens para permanecer em casa, quiseram ir ver a revolução nas ruas, que saudavam os soldados, que distribuíam cravos, leite e cigarros, e que, mesmo quando foram disparados tiros, não arredaram pé enquanto não viram Marcello Caetano abandonar o quartel. Enquanto não viram, com os próprios olhos, o fim de 48 anos de ditadura. 

Estivemos entre eles porque foram sempre essas as imagens — e, em primeiro lugar, as extraordinárias fotografias de Alfredo Cunha, às quais podemos agora regressar no livro Os Rapazes dos Tanques, com textos de Adelino Gomes — que ano após ano, a cada aniversário do 25 de Abril, nos mostraram. Imagens que estão agora também nas ruas neste aniversário dos 40 anos da revolução em que o Largo do Carmo foi, mais uma vez, demasiado pequeno. 

Eu nunca tinha entrado dentro do Quartel do Carmo. Este ano entrei. A GNR abriu as portas, oferecendo aos visitantes uma exposição sobre a sua história, que passa por D. Nuno Álvares Pereira, o fundador do convento do Carmo (hoje dividido entre o quartel e o Museu Arqueológico) e os combates entre monárquicos e republicanos em Monsanto, uma arca de madeira para recolher dinheiro que pertenceu à Guarda Fiscal, um quarto de um guarda da GNR com uma mala solitária debaixo da cama, a única capela que resta do convento original, e a cisterna, hoje sem água, que ainda ajudou a combater o incêndio do Chiado — além da magnífica janela sobre Lisboa, da qual os frades do convento podiam assistir aos autos-de-fé lá em baixo, no Rossio. 
E, claro, o 25 de Abril. 

Aqui podemos ver como foi lá dentro o que só tínhamos visto de fora. Vemos essas últimas horas do regime, desde que Marcello Caetano, alertado às 4h da manhã pelo director da PIDE, Silva Pais, de que “a Revolução está na rua”, chegou ao Carmo. Eram 5h30, e já tinham sido montados alguns postos de defesa no interior. Marcello só sairia às 19h, tendo passado quase todo o tempo em duas salas que podemos visitar: a primeira com uma mesa comprida de madeira, cadeiras alinhadas à volta, forradas a veludo vermelho; a segunda, o gabinete do comandante-geral da GNR, então o general Adriano Augusto Pires, que só podemos ver de longe, sofás confortáveis, quadros na parede, um busto a um canto. 

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Imaginamos como Marcello Caetano, a sua comitiva, os ministros que o acompanharam, os militares do quartel, as famílias de alguns destes, viveram aquelas horas — o som que chegava da rua, a espera, a urgência de tomar uma decisão, a tensão. Ainda durante a manhã, e com as forças da Escola Prática de Cavalaria a aproximarem-se, houve várias tentativas para retirar o chefe do Governo do quartel, de helicóptero, através de túneis do antigo convento e através de prédios próximos — esta última opção terá sido recusada por Marcello, que a considerou pouco dignificante. 

Às 13h45, Salgueiro Maia fez o primeiro ultimato, dando 15 minutos para a rendição. Do interior do quartel não houve reacção. Às 15h25, um novo ultimato, de dez minutos, e às 15h35 os primeiros disparos contra o Carmo. De novo nenhuma reacção. Um pouco depois, o major Velasco (primo de Otelo, ao qual tinha passado informações sobre o quartel) vem ao exterior falar com Salgueiro Maia e dizer-lhe que há militares que vivem no quartel com as famílias e que no interior estão mulheres e crianças. E imaginamos os rostos ansiosos, atrás das janelas, espreitando para a rua, rezando para que tudo acabe bem. 

Ainda vai ser aberto fogo uma segunda vez. O relato nos painéis da exposição conta que a família do comandante-geral da GNR, que vivia na parte superior do edifício, alvo dos tiros, saiu em pânico para o corredor, e o comandante “numa resposta emotiva, chegou a dirigir-se a uma das janelas indicando que se reagisse ao fogo”. Foi provavelmente um desses longos segundos que podiam ter mudado o curso da história. Mas a ordem não foi repetida e não foi seguida. 
No exterior estava tudo preparado para se abrir fogo pela terceira vez. Salgueiro Maia chega a contar até dois, mas a ordem fica suspensa nesse instante que, se calhar, foi onde se decidiu toda a revolução. Chegam os dois negociadores, Salgueiro Maia entra no quartel, sobe à sala onde está Marcello Caetano e a comitiva, e começam as negociações que irão conduzir ao desfecho e à passagem do poder para o general Spínola.

A ditadura em Portugal acabou aqui. Nesta praça cheia de gente feliz, que conhecemos desde sempre, e naquela sala de cadeiras de veludo vermelho onde até hoje nunca tínhamos entrado.

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