O sindicato que fabricou o presidente Lula

No final da década de 1970, um sindicato de metalúrgicos tornou-se um pesadelo da ditadura militar no Brasil. Lula da Silva iniciava aí o seu caminho para Presidente. O seu legado dá ainda hoje aos metalúrgicos do ABC um poder raro.

Lá fora, uma chuva violenta do Verão bate nos plásticos e nos andaimes que cobrem a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, no coração industrial do Brasil; lá dentro, homens e mulheres recuperam o fôlego após a fuga à tempestade ou procuram os diferentes serviços do sindicato espalhados pelos vários pisos do edifício que fica a um quilómetro da gigantesca fábrica da Volkswagen, quase na periferia de São Bernardo do Campo; no primeiro andar, uma foto gigante com Lula a discursar antecipa um gabinete que parece esquecido no tempo. Rafael Marques, o actual presidente do sindicato, abre as portas e entra-se no lugar onde Luís Inácio Lula da Silva começou a construir a sua lenda, fazendo o sindicato entrar na História como uma das principais forças que levaram à abertura democrática no Brasil dos anos de 1980.

Não há memória de sindicalistas provenientes de indústrias como a metalúrgica a acabarem eleitos para a Presidência da República e se há registo de graves conflitos e grandes mudanças desencadeados pelas lutas sindicais um pouco por todo o mundo, poucos atingiram a dimensão e profundidade das que o sindicato com sede em São Bernardo do Campo, a uns 70 quilómetros de São Paulo, organizou entre 1977 e 1984. Foi ali que se juntou uma geração de operários temperados pela clandestinidade e pela coragem em enfrentar uma ditadura feroz.

Devanir Ribeiro, hoje deputado federal do Partido dos Trabalhadores (PT), estreou-se nesse combate há mais de 50 anos, quando integrava os movimentos de católicos progressistas e se aproximou da área de influência da Juventude Comunista. “[Com o golpe militar de 1964], perdi o emprego e entrei numa lista negra”, recorda Devanir. Entre 1964 e 1969 teve de vaguear por empregos clandestinos em várias cidades do ABC, o triângulo formado por Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. Acabaria por parar em São Bernardo, onde chegou “meio clandestino e com medo” em Janeiro de 1969.

Por essa altura, já Luís Inácio Lula da Silva estava inscrito no sindicato. Lula fazia parte de uma vaga de migrantes que tinham largado o Nordeste pobre em procura de oportunidades na grande cidade. Chegara a um bairro popular de Guarujá, no sul do Estado de São Paulo, em Dezembro de 1952, após uma viagem de 13 dias na caixa aberta de um camião. A industrialização da década de 1950 abriu novas saídas para jovens como Lula, que em 1966 se empregou nas Indústrias Villares, da família do aviador Santos Dumont. Dois anos depois inscreve-se no Sindicato dos Metalúrgicos de Diadema e São Bernardo (era assim que se chamava na época) por influência do seu irmão, Frei Chico, que na época militava clandestinamente no Partido Comunista do Brasil.

Devanir Ribeiro recorda esses tempos em que ele e Lula foram ganhando ascendência no sindicato com um sorriso que denuncia nostalgia e orgulho. “Éramos muito rebeldes”, lembra. Como metalúrgicos de empresas multinacionais, que trabalhavam em empresas de ponta, integravam uma espécie de aristocracia da classe operária. Em São Bernardo, a “Detroit do Brasil”, sede das “montadoras” de automóveis, podia-se fazer “um sindicalismo à parte”, diz Devanir. “A indústria automobilística tinha a sua história na Alemanha ou na Suécia, onde os sindicatos eram respeitados. O nosso poder aquisitivo era melhor. E tínhamos mais capacidade de ler jornais e revistas, de discutir política”, recorda o deputado federal.

Lula deixa a fábrica onde era torneiro-mecânico em 1972 e vai para o sindicato gerir o departamento de “infortunística” que, como o nome sugere, tratava de acidentes e outros imprevistos laborais. Em 1975 é eleito presidente com 92% dos votos e a 19 de Abril de 1975 apresenta-se na tomada de posse de fato, gravata e colete - uma infâmia para a classe operária. “Ele convidou o Laudo Natel, que era governador do Estado pela Arena [o partido oficial do poder militar], e o próprio presidente da Arena. Era muito aberto. Eu era contra tudo. No sindicato éramos todos radicais mesmo. Aliança nem no dedo. Ele dizia que tínhamos de conversar com todo o mundo. Não tinha preconceito”, lembra Devanir Ribeiro.

Quando no final da década de 1970 se começam a tornar mais nítidos os sinais de estertor da ditadura, Lula revela-se ao Brasil. Em 1977, um estudo da economista portuguesa famosa nos círculos da esquerda brasileira, Maria da Conceição Tavares, confirma dados de uma central estatística ligada aos sindicatos que apontam para uma perda de 34% de poder de compra dos salários desde 1973. “Foi aí que começámos com um movimento que perguntava: ‘Cadê os nossos 34’? Começámos a fazer debates. Os patrões diziam que não tinham dinheiro dos trabalhadores no bolso. Nós respondíamos: ‘porque essa sua calça é nova, não é doutor’?”, recorda, rindo, Devanir Ribeiro.  

O ensaio de 1977 prenunciava algo de mais vigoroso e intenso no ano seguinte. Lula endurece o discurso e lança o surto grevista que despontou no ABC em Maio de 1978. A memória da época situa o início dessa vaga na fábrica da Scania, mas Devanir Ribeiro, que esteve na linha da frente da organização diz que não. “A greve começou na Mercedes Benz, no sector dos transportes. Nós pensámos assim: os transportes param e pára a fábrica. Mas era uma fábrica muito grande, eles conseguiram isolar o sector dos transportes e a greve morreu aí. Então fomos para a Scania já mais preparados. E aí a greve foi na linha de produção”, recorda. Nesse dia, mais de 3000 trabalhadores entram nas instalações da empresa sueca mas não ligam as máquinas. Estavam a fazer a primeira greve desde que, em 1968, a ditadura publicara o Acto Institucional 5, que criminalizava as greves.

Desde essa data até aos alvores da redemocratização, Lula e o sindicato de São Bernardo tornam-se os símbolos da luta. Os sindicalistas tinham-se tornado um dos mais activos opositores do regime, um dos símbolos maiores do movimento a favor da democratização. O seu raio de acção ia muito para lá das linhas de produção das fábricas ou das ruas. Entravam no coração da política brasileira. A abertura das eleições para o Senado a candidatos independentes tinha levado Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso a procurar e a obter apoio de Lula logo em 1978.

No ano seguinte, o líder sindical que a direita apelidava com desprezo de “sapo barbudo” é capaz de articular uma greve de 170 mil metalúrgicos em 1979. No ano seguinte uma nova greve paralisa o ABC durante 41 dias. Lula, que aparece na imprensa nacional a discursar perante estádios de futebol cheios de operários, tornara-se um engulho para o regime. É preso em São Paulo ao abrigo da Lei de Segurança Nacional. A oposição protesta, as ruas agitam-se e, incapazes de gerir a pressão, os militares libertam Lula ao fim de 31 dias. Mas o seu mandato é cassado.   

Por essa altura, Luís Marinho era pintor na linha de montagem da Volkswagen. Como Lula, era um migrante à procura de oportunidades no “el dorado” da indústria paulista. Nascera no interior do Estado de São Paulo, a 400 quilómetros da capital. “Fui trabalhador rural, puxei a enxada, o meu pai era pequeno proprietário que tinha de sustentar uma família de 14 pessoas, 10 homens e quatro mulheres”, recorda Marinho no último piso da torre municipal de São Bernardo do Campo, o seu gabinete de prefeito da cidade. Quando ocupa um cargo de dirigente no sindicato, em 1984, já Lula estava no PT, partido que funda em 1980, no auge das greves. “Demos conta que o movimento sindical por si só não bastava para resolver os nossos problemas”, recorda Devanir Ribeiro.

O partido que haveria de dominar a política brasileira no século XXI recorreu à sua base sindical para atrair, às suas causas intelectuais, oposicionistas ligados ao catolicismo progressista, diferentes tendências comunistas e representantes de vários movimentos sociais de esquerda. Devanir recorda as suas expectativas: “A nossa ideia é que iria demorar uns 30 anos até que o PT se afirmasse como partido e ganhasse um Estado. Ganhar a presidência da República era uma coisa remota que ninguém imaginava”. Luis Marinho, ex-ministro do Trabalho de um governo Lula e prefeito de São Bernardo confirma: “Nós queríamos mudar o Brasil, mas não tínhamos consciência do tamanho da mudança que faríamos. Não tinha a ideia de que seria ministro, ou prefeito de São Bernardo. É um sonho que estávamos buscando juntos construir e fomos construindo”, lembra Luís Marinho.

Com o sindicato agora nas mãos de um herdeiro de Lula, Jair Meneguelli, Lula dedica-se de corpo e alma à política. Nas eleições de 1982 para a câmara dos deputados, o PT apresenta-se com um bloco de candidatos que, na sua maioria, tinham menos de 35 anos. E uns 15% não tinham ido além da escolaridade básica. Lula exacerbava esse basismo fazendo gala da sua condição de trabalhador. Na disputa para o governo do Estado, Lula anunciou-se como “ex-engraxate, ex-tintureiro, ex-torneiro mecânico, ex-sindicalista. Um brasileiro igualzinho a você”. Nas eleições em que candidatos da oposição com o quilate de Franco Montoro ou Leonel Brizola conquistaram estados da importância do Rio ou de São Paulo, Lula obteve 1,1 milhões de votos. Ficou em quarto lugar.

Sob a égide do PT, o mundo do trabalho reforça a sua organização. Em 1993 é criada a Central Única dos Trabalhadores, CUT, que estaria na frente de uma nova vaga de greves que paralisaram uns três milhões de trabalhadores em 1983. Lula, o PT e as estruturas sindicais que controla por interpostos militantes estão agora empenhados na campanha pelas “Directas Já”. Um dia, Tancredo Neves chama-o à sua propriedade em Minas Gerais. Lula leva Devanir, que registou até hoje uma profecia saída desse encontro. Tancredo, um velho democrata, anunciava a Lula que se iria candidatar à presidência da República em 1984 ainda segundo o método eleitoral indirecto que tinha sido imposto pela ditadura. Mas pedia a Lula para continuar a luta e deixava-lhe um aviso: “Um dia serás presidente da República”, disse Tancredo a Lula, de acordo com o registo de memória de Devanir Ribeiro. Tancredo ganhou as eleições de 1985, mas não chegou a tomar posse. Uma doença que o corroía vitimou-o antes.

Com a Constituição de 1988, os brasileiros puderam voltar a eleger directamente o seu presidente. Em 1989 optaram por Collor de Melo, em 1994 e em 1998 foram as vezes de Fernando Henrique Cardoso. Mas à quarta tentativa, em 2002, a profecia de Tancredo cumpriu-se e o PT elege um presidente que surpreenderia o mundo. Nunca o sindicato dos metalúrgicos, fundado em 1933, tinha sido tão poderoso e importante como nesse momento em que Lula sobe ao poder no Palácio da Alvorada.

O legado de Lula
Passados todos estes anos, Rafael Marques entra na sala que Lula ocupou com o peso de uma herança densa, rica e pesada. “Todo o mundo que assume a presidência deste sindicato sabe que por detrás tem uma história acumulada muito forte, que há um legado a defender. Um legado que Lula iniciou”, diz Rafael, um homem de meia-idade de discurso fluente e de ideais moderados. “Ter um sindicalista que virou presidente da República e outros sindicalistas que tiveram posições importantes no Brasil, deputados federais, senadores, governadores ou prefeitos prestigiou os sindicatos e atrai os trabalhadores”, acrescenta.

Hoje, como nos anos 50 ou 70, ser metalúrgico continua a ser um privilégio em relação a outras categorias profissionais. Para muitos, esse estatuto é indissociável da luta sindical. É por isso que as taxas de sindicalização no ABC paulista são altíssimas. Dos 102 mil metalúrgicos da área de intervenção do sindicato de Rafael Marques, 72 mil são sindicalizados. Uma taxa muito acima da média brasileira (19%) ou da portuguesa (24%).  

Mas se muito se deve à herança de Lula, há uma parte desse legado que começou a dar problemas quando o sindicalista chegou ao poder. Há quem critique o sindicato de São Bernardo e a própria CUT de terem ficado “engessados” pela estratégia do PT. “O PT deixou há muito tempo de ser o partido dos trabalhadores. Preferiu ser o partido dos banqueiros, dos empresários, dos latifundiários. É um partido que aplica à risca o programa neoliberal”, critica António Ferreira, Macapá (alcunha que denuncia a sua origem, no estado do Norte do Amapá, cuja capital é Macapá), presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, a cidade no vale da Paraíba onde poderosas indústrias, como a Embraer ou a General Motors, têm a sua base.

Para António Ferreira, Lula, o PT e a CUT são uma desilusão. “Quando se esperava que ele aumentasse a renda dos trabalhadores ou diminuísse a jornada de trabalho e investisse mais na saúde, na educação e na moradia, houve uma política que atendeu um sector, o dos banqueiros e agiotas internacionais”, lamenta o sindicalista proveniente da GM. “Nós somos de oposição ao PT. Temos uma estratégia socialista e durante 30 anos os metalúrgicos foram inspirados a fazer greves por salários, por melhores condições de trabalho. Aqui mantém-se a tradição de classe, de sindicalismo de combate, revolucionário. A linha de pensamento que orienta esta organização é o trotskismo. Talvez seja uma das maiores organizações operárias do mundo dirigida por trotskistas”, diz Ferreira. Dos 43 mil metalúrgicos que trabalham nas cinco cidades do Paraíba onde actua o sindicato, 22 mil são seus membros.

Rafael Marques não recusa a aura socialista que Lula projectou nem as referências históricas que a liderança operária incrustou na natureza do sindicato nos anos de confronto com a ditadura. Mas o discurso radical de São José dos Campos já não faz sentido em São Bernardo do Campo. “Essa é uma visão equivocada e arcaica. Somos um sindicato proactivo, não estamos à espera de um desastre para fazer uma greve para mostrar a nossa combatividade. Tentamos antecipar-nos aos factos, não estamos presos a uma única forma de acção que a greve”, diz. O mundo do trabalho “já não é como nos anos 80 e 90, em que havia muitas greves. A melhoria das relações de trabalho tem sido muito importante. As empresas prepararam-se para dialogar com os sindicatos e apostaram no modelo de negociação e não no modelo do conflito. Mas a greve não acabou. Nas duas últimas campanhas do sindicato houve greves”, explica.

Talvez o discurso de António Ferreira seja hoje mais parecido com o de Lula dos anos 70 que o discurso oficial do sindicato que o ex-presidente ajudou a firmar. Hoje, “Macapá” continua a dizer que “vivemos numa sociedade de classes” onde “de um lado está o patrão, que quer pagar menos” e do outro “o trabalhador que quer uma remuneração melhor” e a sublinhar que entre as duas classes “não há conciliação”. Para ele, o papel dos sindicatos é “a tomada do poder, é a revolução socialista, para expropriar a burguesia no nosso país”.

Mais moderado, Rafael Marques segue a via reformista. “Claro que aqui toda a gente se declara socialista e nós achamos que está a haver um modelo de socialismo no Brasil, mas não nos moldes do socialismo real que aconteceu na URSS ou na China. Estamos a construir um modelo social baseado na promoção da igualdade, da repactuação das dívidas históricas que o Brasil contraiu com o povo, seja com os negros, com as mulheres ou com os trabalhadores. Estamos a contribuir para a transformação do Brasil e em grande medida com um foco socialista”. Da mesma forma que Lula se foi moldando aos novos tempos, também o seu velho sindicato teve de se ajustar.