A euforia e nostalgia da semana dos estudantes volta ao Porto

Os momentos altos da Queima das Fitas do Porto são a Monumental Serenata que enche os Aliados na noite de sábado e a Bênção das Pastas na manhã de domingo e ainda o Cortejo Académico que desfila pela cidade dia 6.

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Os momentos altos da Queima das Fitas do Porto são a Monumental Serenata, a Bênção das Pastas e o Cortejo Académico Fernando Veludo

Está de volta a semana mais longa do ano. O início de Maio é marcado pela diversão, euforia e nostalgia da Queima das Fitas. Como dita a tradição, a festa dos estudantes tem início com a Monumental Serenata, na Avenida dos Aliados, que começa com o primeiro acorde da guitarra portuguesa, ditando a despedida dos que abanam as pastas, ouvindo o fado com saudade.

A primeira semana de Maio serve, para os estudantes da academia do Porto, esquecer os estudos durante uns dias e festejar mais um ano que passou. A organização fica a cabo da Federação Académica do Porto (FAP) e o presidente, Rúben Alves explica ao PÚBLICO que o objectivo é “proporcionar aos estudantes o melhor momento possível”: aos finalistas que, saudosos, gastam os últimos cartuchos, aos do primeiro ano que entraram num novo mundo e tiveram de aprender a lidar com ele e a todos os outros que passaram por muitos sacrifícios durante mais um ano.

Assim, a semana académica inicia-se com a Monumental Serenata. A Avenida dos Aliados foi o espaço escolhido por ser “central e emblemático” para receber os milhares de estudantes vestidos de preto. Para além da serenata, Rúben Alves destaca a Missa da Bênção das Pastas, na manhã de domingo, como um dos pontos altos da semana, bem como o dia do Cortejo Académico, na terça-feira, “que envolve toda a cidade do Porto” num desfile marcado pela alegria dos estudantes que vestem a cor da faculdade ou curso a que pertencem.

Mas são as noites da Queima das Fitas, realizadas em todos os dias da semana de 4 a 11 de Maio em Matosinhos, que acabam por ser os grandes atractivos. O Queimódromo é assim palco para a euforia e a diversão, recebendo concertos de diversos artistas e as típicas barracas organizadas pelos estudantes.

A primeira das Noites da Queima marca o aniversário da morte de Marlon Correia, estudante que foi baleado no recinto do evento em 2013. É algo que, segundo Ruben Alves, "não vai cair em esquecimento", com um minuto de silêncio planeado para as 1h00, embora a FAP "esteja a pensar numa outra forma" de marcar o acontecimento, ainda em preparação

Quanto ao reforço de segurança no Queimódromo, Rúben Alves diz que é “uma grande aposta da edição deste ano” e que tem havido uma “estreita relação de todas as partes envolvidas (PSP, Segurança Privada e equipas de vigilância) para que toda corra pelo melhor”.

O presidente da FAP explica que, apesar de “nunca se poder agradar a gregos e a troianos”, este ano a organização teve a preocupação de chamar géneros musicais que se encontravam afastados da Queima das Fitas há alguns anos, como o hip-hop e o reggae. A música electrónica, por ser uma tendência actua,l estará presente e a música portuguesa vai também animar o ambiente dos próximos dias. Quem não poderia faltar seria o Quim Barreiros, na noite do cortejo, e os Xutos e Pontapés, na quinta-feira.

Ainda assim, a semana académica leva a alguns exageros no consumo de bebidas alcoólicas e substâncias psicoactivas. Por esse motivo, a Divisão de Intervenção para os Comportamentos Aditivos e Dependências (DICAD) da Administração Regional da Saúde (ARS) do Norte estabeleceu uma parceria com a UNICER e vai levar a cabo um projecto de intervenção com o objectivo de prever riscos e diminuir os danos associados a estes exageros. Desta forma no Queimódromo haverá um espaço que permita um maior contacto com os jovens que queiram esclarecimentos sobre o consumo do álcool ou substância psicoactivas ilícitas com objectivo de diminuir os riscos.

O Metro do Porto vai reforçar o dispositivo de segurança durante toda a semana e alargar o serviço a toda a noite da Serenata (de 3 para 4 de Maio) e do Cortejo (de 6 para 7 de Maio). Também a SCTP, como é frequente, vai disponibilizar vaivéns gratuitos entre o centro da cidade e a zona da Asprela/Hospital S.João e o Queimódromo.

A polémica dos bilhetes
Este ano, a FAP decidiu alterar o modelo de venda dos bilhetes, não havendo diferenciação entre o preço para estudante e para o restante público e diminuindo os postos de venda. Ainda que esta questão tenha levantado bastante polémica no meio estudantil, Rúben Alves explica que o objectivo foi alargar a festa à cidade.

“A FAP tinha um enorme desafio em mãos com as mais de duas dezenas de postos de venda existentes anteriormente. Com este novo modelo de centralização de postos de venda e venda online, continuamos a garantir a proximidade com os estudantes e evitamos que se ande com tanto dinheiro nas mãos”, explica o presidente. Quanto a não haver diferenciação no preço dos bilhetes, o presidente da FAP explica que são essencialmente os estudantes que frequentas as noitesmas que houve “a necessidade de alargar o evento à cidade onde se insere para que possa ser encarado como uma festa da cidade”.

José Miranda, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (AEFLUP) diz que a proposta é interessante “por não excluir as pessoas que não são estudantes”. Já Magali Gomes, vice-presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Economia do Porto (AEFEP) aponta que “retirar os postos de venda não é nenhuma mais-valia e faz com que não haja proximidade com os estudantes. Já Carlos Coelho, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (AEFCUP) indica que a insatisfação é uma questão muito simbólica, uma vez que “os estudantes dão muito valor à diferenciação dos bilhetes”. A questão da diminuição dos postos de venda é encarada por Carlos Coelho como “a melhor opção em termos de segurança”.

O último domingo da Queima das Fitas é marcado pela tradicional Garraiada na Praça de Touros da Póvoa de Varzim, que tem levantado algumas questões junto do meio estudantil. Rúben Alves explica que a questão teve, este ano, especial destaque na Assembleia Geral realizada com as associações de estudantes e que ainda há um “conjunto de sensibilidades muito diferentes que precisam de ser analisadas”.

A AEFLUP é desde 2011 contra a actividade e faz parte das quatro associações que se manifestou. “É um questão de princípio, uma vez que há um animal em sofrimento. Não vale a pena apoiar uma tradição que não existe”, frisa José Miranda, acrescentando que é errado utilizar o dinheiro dos estudantes para favorecer esta indústria. A AEFCUP também subscreveu a moção contra a Garraiada e Carlos Coelho aponta que “esta prática em nada dignifica o estudante e é contra o direito dos animais”.

Texto editado por Ana Fernandes