Nacho Doce/Reuters
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Megafone

“És preta? Porquê?”

Uma crónica a propósito do racismo e sobre a importância de educar as crianças para a diferença. Porque a mudança de fralda psicológica é a que cheira pior. Mas é a que mais precisa de ser mudada

Estava eu a trabalhar, quando uma menina me perguntou: — “És preta? Porquê?”. Ora, a minha reacção inicial foi rir. Ri e respondi que era preta porque a minha mãe também o era. Não ia entrar num debate racial com uma criança. O pai, ao ouvir o inquérito da petiz, só fez uma exclamação de espanto e continuou a arrumar as suas compras. Mais tarde, em jeito de desculpa, disse-me que era normal o questionário. Eu entendo que a curiosidade faça parte da infância. Agora, isto levanta um problema mais sério, que é o que pode advir dessas perguntas.

Depois veio-me à ideia de que, um dia, uma dessas crianças pode ser o meu sobrinho. Um dia ele pode perguntar “mãe, porque é que eu sou branco e tu és preta?” ou, na escolinha, podem-lhe fazer a mesma pergunta. E isso vai implicar que, em casa, lhe seja dada uma explicação de como as coisas funcionam.

Nem todas as pessoas são iguais e ainda bem. Há brancos, pretos, mulatos, de olhos em bico ou narizes chatetas. Há homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres. É necessário que se explique aos meninos todas as diferenças que existem na sociedade.

Eu não tenho, nem me recordo ter tido alguma vez, problemas com a minha cor. Esta é a minha realidade e não me diminuo nada perante isto. Nunca tive outra cor, nem nunca quis ter.

Não vou dizer que nunca ouvi um comentário aqui e ali devido à cor da minha pele. Não vou dizer que nunca me disseram “tu nem és preta nem és branca”. Mas isso nunca me incomodou. O que me incomoda é a falta de educação dos mais jovens, que não lhes seja incutida a aceitação da diferença nos outros e em si mesmos.

Eu não me acho diferente mas, claramente, na cabeça daquela menina eu sou. E isso acontece porque nunca lhe foi explicado que existem vários tons de cor de pele. Eu não quero nem permitirei que, um dia, o meu sobrinho faça escárnio de um menino com dois pais ou duas mães. Porque a minha realidade é que existem pessoas que amam o mesmo sexo e isso é normal. Nunca vou permitir que o meu sobrinho se ache diferente porque tem pai branco e mãe mulata; porque tem uma avó preta e uma avó branca. Ou que aponte dedos a pessoas que não se encaixam nos seus padrões.

É aqui que a educação entra. O discurso em casa. Porque ter um filho é mais do que parir uma criança para o mundo! Ter um filho é educar. E essa mudança de fralda psicológica é a que cheira pior. Mas é a que mais precisa de ser mudada. E é também a que se deixa para encargo dos outros. Para as escolas, os professores, ou que se deixa a cargo dos outros coleguinhas. O problema começa quando esses colegas têm a mesma educação (ou a falta dela). E vão aprendendo uns com os outros que a diferença é feia, é má, é repudiável.

E o preconceito só revela uma coisa: falta de conhecimento, ignorância. Que é, como a palavra indica, um pré-conceito de algo. Eu sou a minha cor de pele, mas também sou mais que isso. Se não aceito que um adulto me julgue perante isso, também não posso aceitar que uma criança cresça a julgar-me por isso.