Gerry Adams detido para interrogatório no processo da morte de Jean McConville

Presidente do partido republicano Sinn Féin apresentou-se numa esquadra da polícia da Irlanda do Norte, para prestar declarações aos detectives que investigam o caso da viúva Jean McConville, raptada e morta por paramilitares do IRA em Dezembro de 1972.

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Presidente do Sinn Feín apresentou-se numa esquadra da Irlanda do Norte REUTERS/Paul McErlane

O líder do partido republicano irlandês Sinn Féin, Gerry Adams, está detido e a prestar declarações à divisão de crimes graves da polícia da Irlanda do Norte, no âmbito da investigação ao rapto, morte e ocultação do cadáver de Jean McConville, uma viúva e mãe de dez filhos que foi sequestrada à porta de casa, na zona oeste de Belfast, em Dezembro de 1972.

De acordo com a BBC, o presidente do Sinn Feín apresentou-se esta quarta-feira na esquadra de Antrim, onde permanece sob detenção para interrogatório. Antes de se entregar, Gerry Adams declarou a sua total inocência e garantiu não ter tido “qualquer participação” no crime — um dos casos mais notórios e controversos da época de violência sectária na província da Irlanda do Norte, que ficou para a História como The Troubles.

“Considero que a morte de Jean McConville e o sepultamento em segredo do seu corpo constituem um crime grave e uma terrível injustiça para a sua família”, declarou o presidente do Sinn Féin. Em comunicado, o partido esclareceu que “no mês passado, Gerry Adams manifestou a sua disponibilidade para reunir com os elementos da polícia da Irlanda do Norte responsáveis pela investigação do caso de Jean McConville. É esse encontro que está a decorrer esta noite”.

Apesar de liderar o movimento político nacionalista irlandês, e de nunca ter negado a sua associação ao Exército Republicano Irlandês (IRA), Gerry Adams desmentiu sempre qualquer ligação às actividades criminosas dos seus guerrilheiros, nomeadamente a campanha de bombardeamentos levada a cabo na década de 80. O político do Sinn Feín negou ainda qualquer conhecimento dos factos relativos à morte de McConville, que foi reivindicada pelos militantes nacionalistas.

Jean MConville, de 37 anos, foi raptada em frente aos filhos por paramilitares do IRA, alguns dias antes do Natal de 1972. Foi mantida sob sequestro em pelo menos duas casas diferentes, até ser executada a tiro e enterrada em segredo. O seu corpo só foi recuperado em 2003, numa praia de County Louth, na República da Irlanda — quatro anos depois de antigos operacionais do IRA terem formalmente admitido que pelo menos nove dos seus “desaparecidos” tinham sido mortos e enterrados em locais secretos.

Três décadas de violência sectária

Segundo informaram, McConville foi raptada por supostamente estar a fornecer informações sobre as movimentações do IRA, uma acusação que carecia de qualquer fundamento, como ficou provado após um inquérito realizado pela provedoria da polícia da Irlanda do Norte.

No mês passado, as autoridades da Irlanda do Norte prenderam um antigo comandante do IRA, Ivor Bell, de 77 anos, que foi acusado de cumplicidade na morte de Jean McConville. A acusação baseia-se em gravações feitas por alguns dos antigos membros da IRA a investigadores de uma universidade norte-americana: o Boston College tinha assumido o compromisso de apenas divulgar o conteúdo das gravações depois da morte de cada um dos entrevistados, mas algumas transcrições acabaram por chegar ao conhecimento público na sequência de casos judiciais nos Estados Unidos.

A Irlanda do Norte viveu três décadas de violência sectária entre a população católica e republicana, que lutava pela união com a Irlanda, e os protestantes que defendem a manutenção da província como parte do território do Reino Unido. O conflito terminou em 1998, com a assinatura de um acordo de paz, mas uma série de inquéritos e investigações recentes aos crimes do passado vieram reacender as tensões sectárias.

Tanto Gerry Adams como o Sinn Feín sugeriram que a sua detenção para interrogatório pode ter motivações políticas: o partido republicano é a segunda maior força política na Irlanda do Norte e está envolvido numa intensa campanha para as eleições europeias.