“Somos todos macacos”. E somos todos espontâneos?

Afinal, há uma campanha publicitária por trás do gesto de Dani Alves comer a banana racista que lhe atiraram.

Neymar teve a ideia, Dani Alves colocou-a em prática
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Neymar teve a ideia, Dani Alves colocou-a em prática Albert Gea/Reuters

A atitude, tão inesperada quanto incisiva, colheu elogios vindos de todas as partes do mundo: Dani Alves pegou na banana que lhe tinha sido atirada como insulto racista e comeu-a, prosseguindo o jogo como se nada tivesse acontecido. E não demorou até que a campanha #somostodosmacacos, lançada por Neymar, incendiasse as redes sociais.

Milhares de pessoas associaram-se espontaneamente ao movimento mas, segundo revelou nesta terça-feira a revista brasileira Veja, houve uma campanha publicitária por trás do gesto de Dani Alves. Os autores defendem-se, sublinhando que o principal objectivo foi alcançado: demonstrar que o racismo é um sentimento absurdo.

Tudo começou no final de Março, quando o Barcelona foi jogar ao terreno do rival Espanyol. Um adepto do Espanyol terá atirado uma banana para insultar Neymar e Dani Alves. Os dois internacionais brasileiros não se aperceberam disso, mas alguns dias depois, em conversa, ironizavam sobre a situação: “[Neymar] brincou que se tivesse visto a banana, a teria comido”, contava Dani Alves.

A conversa entre os dois não passou disto. Mas Neymar procurou ajuda profissional junto da agência de publicidade Loducca. “Neymar e seu pai me procuraram para dizer que precisavam se posicionar em relação às manifestações racistas. Queriam resolver isso de uma forma que colocasse a mensagem do Neymar de maneira forte. E decidimos trabalhar a ideia de que a melhor maneira de acabar com o preconceito é tirar a força dele e fazer com que a pessoa não repita o acto. Foi aí que criamos #somostodosmacacos. A ideia era começar com o Neymar comendo a banana e isso se tornar um movimento”, admitiu Guga Ketzer, sócio da agência, à revista Veja.

“Aí, quando o Dani [Alves] comeu a banana, soltámos a campanha. Não foi combinado. O Neymar ia comer, mas como foi o Dani, maravilha também”, explicou o publicitário, sublinhando que o importante foi o envolvimento espontâneo das pessoas. “Eles abriram a discussão e colocaram as coisas de uma forma que fez as pessoas discutirem o assunto”, acrescentou.

O facto de a campanha ter começado com o impulso de uma agência publicitária não desvaloriza o movimento, disse ainda Guga Ketzer: “Tentar desmerecer o movimento pelo facto de ter uma agência por trás é tão preconceituoso quanto o adepto que lança a banana. Por que não podemos ajudar com uma ideia? Não é uma campanha para vender nada. Fizemos conforme a necessidade do Neymar de mostrar que o racismo é uma situação completamente absurda. E deu certo”, concluiu.

T-shirts da polémica
O objectivo da agência de publicidade Loducca não foi vender nada. Mas há quem esteja a tentar tirar partido do movimento gerado para fazer negócio. O apresentador de televisão brasileiro Luciano Huck lançou uma linha de t-shirts com o slogan “Somos todos macacos”, mas as reacções foram muito negativas. As acusações a Huck de estar a lucrar com todo o incidente sucedem-se. As camisolas custam 69 reais (22,5 euros).

Vários utilizadores citados pelo portal Terra contestavam também o facto de no site de Huck não aparecerem modelos negros a promover as t-shirts em causa: “Grande campanha de combate ao racismo de um site que não tem modelos negras ou negros”, apontou Henrique Kopittke. “No site só tem modelos brancos, está bem bonita essa diversidade mesmo”, ironizou André Braga.