Milhares de pessoas enchem Largo do Carmo 40 anos depois

Várias manifestações, autónomas, convergiram no largo onde Salgueiro Maia forçou o regime a render-se. Contra o Governo e a troika, pela Constituição, com cravos e cartazes, gaitas de foles e, até, à pendura no comboio

São 19h38 no relógio da estação do Rossio. Lá fora passam turistas e benfiquistas, de cachecol. Cá dentro, do lado de cá dos torniquetes, estão dezenas de jovens. Do lado de lá aproxima-se, devagar, o Comboio da Liberdade, o nome que hoje tem a ligação suburbana Sintra-Lisboa, composição de oito carruagens, com o número 3528. À saída ouvem-se aplausos.

Se fosse há quarenta anos, em Santa Apolónia, poderia ser o Sud-Express que trouxe Mário Soares, mas com menos gente à espera, ainda assim. Hoje saem cerca de 50 jovens, com cartazes.

Toda a gente está sorridente, até os seguranças da estação. Estes passageiros do Comboio da Liberdade viajam sem bilhete. Fazem questão. “A CP é do povo”, trazem escrito nos cartazes. E é uma das frases que cantam. Falta a parte, de há quarenta anos, “não é de Moscovo” para se saber quem “são” estes manifestantes. São – para acabar com a comparação que apenas a data redonda impõe – uma família política nova. Fazem coisas que se faziam, no tempo da revolução, como ocupar casas, mas distinguem-se noutras, como a determinação com que exercem o seu “direito à imagem” e desconfiam da imprensa.

Entre a liberdade do comboio e a da porta da estação há, todavia, como vimos, um torniquete que se abre, apenas, com a leitura de um bilhete válido. Esse é o impasse. Curto, ainda assim. Os manifestantes vão para uma das pontas do torniquete, cantam e dançam. Os seguranças falam em surdina nos comunicadores. E as portas abrem-se. Foi a CP? Pergunto a um segurança. “Nota-se, não é?”, devolve-me ele, sempre a sorrir. Cá fora pergunto a um manifestante. “Não, fomos nós que carregámos no botão de emergência.” Não se sabe, portanto, que virtude abriu as portas. Sensatez ou audácia?

A ideia era defender transportes públicos gratuitos. E funcionou. E assim nasceu um rio, a juntar aos mais de 25 que se anunciavam. Todos eles prometiam ir dar ao Largo do Carmo.

Às 20h48, na Rua d'O Século, um polícia dirige-se, também a rir, a um grupo de manifestantes que se encostam ao muro do palácio Ratton, a sede do Tribunal Constitucional. “Vão para onde?” “Para o Carmo.” “Sim, eu sei, mas vão subir ou descer a rua?” Encolher de ombros. “Não sabemos, não somos da organização.” “Todos os caminhos vão dar a Roma”, despede-se o agente.

Este é outro rio. O que junta às gaitas de foles, afinadas, aos tambores dos Gaiteiros de Lisboa, vanguarda de um cortejo que demorará a sair, onde se inclui o Que Se Lixe A Troika, grupo que organizou a manifestação de 15 de Setembro de 2012, a maior alguma vez realizada em democracia.

Desta vez, sem convocatória, o registo é mais modesto. Nem é bem uma manifestação, explicam-nos. “É uma acção”, onde estão, entre outros, o músico Carlos Mendes, autor de alguns dos maiores êxitos da década em que nasceu Bruno Cabral, o realizador de cinema que veio, pedalando uma bicicleta, percorrer este rio.

Henrique Gil segura o megafone onde são lidas, à vez, por duas vozes femininas, os artigos da Constituição que esta acção quer preservar. Do direito ao trabalho à fruição cultural. Os artigos são aplaudidos, um a um, à porta do Tribunal que – no passado recente – se viu enredado num debate político a que normalmente seria alheio.

Mas estes não são tempos normais. Por isso, às 21h48, este rio pára à porta do outrora discreto Ministério da Economia, na outrora secundária Rua da Horta Seca. “Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal, a nossa luta é internacional”, gritam os manifestantes para a janela do ministro António Pires de Lima.

Dez minutos depois, no Largo do Chiado, Tiago Mota Saraiva, arquitecto, empunha um “Direito a sonhar”, manuscrito em cartaz. O de Carlos Mendes diz “Direito à igualdade”.

Enquanto estes manifestantes se dirigem para a antiga sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso – agora um condomínio privado – o grupo que conhecemos na estação do Rossio sobe a Calçada do Sacramento. “Ocupar o Carmo”, gritam.

Há apitos, tambores, lemas ecologistas. Há bandeiras de pequenos partidos de esquerda, e até uma banca da revista Rubra. Alguém se lembrou de trazer um caixão, plantado à porta do quartel do Carmo onde, há quarenta anos, Salgueiro Maia negociou – com a força dissuasora da chaimite – a demissão de Marcello Caetano.

O caixão fala de traição à pátria. Desta vez não há um discurso como o de Francisco Sousa Tavares. Mas era esta a polifonia pretendida. Os rios chegaram. O Carmo encheu e, como o mar que pretendia, alegoricamente, ser, foi esvaziando.