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Rússia responde com manobras militares ao avanço ucraniano contra separatistas no Leste

Situação incerta no Leste da Ucrânia: forças ucranianas avançaram mas separatistas pró-russos mantêm controlo. Rússia iniciou manobras militares junto à fronteira, Kiev quer explicações no prazo de 48 horas

Tropas ucranianas avançam em Slaviansk
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Tropas ucranianas avançam em Slaviansk Gleb Garanich/Reuters

Os movimentos no xadrez geopolítico sucedem-se. Forças ucranianas avançaram sobre posições de grupos pró-russos no Leste do país e terão morto “até cinco” separatistas, perto da cidade de Slaviansk. A Rússia reagiu, iniciando manobras militares junto à fronteira, depois de o Presidente Vladimir Putin ter dito que a acção do governo de Kiev terá “consequências” .

Ao fim da tarde desta quinta-feira, a Ucrânia pediu à Rússia para, no âmbito dos acordos da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa  (OSCE), explicar –  no prazo  de  48 horas – as movimentações militares fronteiriças. Uma primeira resposta fora dada ainda antes da pergunta.  “Fomos forçados a reagir”, justificou o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, citado pela agência Interfax, ao anunciar exercícios nas regiões sul e ocidente da Rússia.

As manobras foram apresentadas como resposta ao avanço das forças ucranianas no Leste e a movimentações de tropas da NATO, a Aliança Atlântica . “Se esta máquina militar não parar vai provocar um grande número de mortos e feridos. Os exercícios das forças da NATO na Polónia e no Báltico não contribuem para a normalização da situação na Ucrânia”, disse o ministro.

Pouco antes do anúncio dos exercícios militares russos, Putin tinha afirmado que o uso do exército ucraniano “contra a população” é uma “operação de repressão” que terá “consequências para os que tomam as decisões, e particularmente para as relações intergovernamentais”. Pouco depois, numa declaração ao país, o Presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov, disse que o seu país não recuará perante a “ameaça terrorista” no Leste e apelou à Rússia para acabar com as interferências, “ameaças permanentes e chantagem”.

Na quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Moscovo, Serguei Lavrov, admitiu uma intervenção militar na Ucrânia se “os interesses dos russos forem directamente atacados”. “Um ataque contra os cidadãos russos é um ataque contra a Rússia”, disse à estação Russia Today.

Nos arredores a Slaviansk, cidade que, nas últimas semanas, se tornou um bastião separatista, travaram-se – segundo o ministério do Interior – combates que provocaram a morte de “até cinco” pessoas. O governo de Kiev tinha anunciado o recomeço de uma acção militar contra os pró-russos que ocupam edifícios governamentais e controlam cidades do Leste. E na manhã de ontem as suas forças avançaram.

O ministério do Interior informou que foi também  ferido um soldado ucraniano e destruídas três barricadas nos acessos nordeste à cidade. Uma porta-voz dos separatistas, Stella Khorosheva, anunciou no Facebook a morte de dois dos combatentes pró-russos na mesma área, próximo da estrada de Siatogorsk – cidade de que o governo de Kiev disse ter recuperado o controlo ainda na quarta-feira.

Jornalistas da Reuters assistiram à tomada, por cinco veículos armados, de uma posição abandonada por separatistas. Os pró-russos incendiaram pneus que criaram uma cortina de fumo e abandonaram o local, sem que fosse disparado um único tiro. Mas, um par de horas depois, sem motivos aparentes, os soldados retiraram e os pró-russos regressaram e reforçaram a barricada com sacos de areia.

Em Kiev, foi anunciada a desocupação o edifício da câmara da cidade portuária de Mariupol. De acordo com a BBC, a operação militar para expulsar os separatistas fez três feridos. O governo ucraniano anunciou igualmente ter repelido na noite de quarta-feira uma acção alegadamente liderada por militares russos contra uma base em Artemivsk, na qual terá sido ferido um soldado. Moscovo tem desmentido as acusações de envolvimento na Ucrânia. Ao contrário acusa – como voltou a fazer esta quinta-feira –  EUA e a Europa de usarem o governo de Kiev como “peão no jogo geopolítico” contra a Rússia.

Moscovo questiona  presidenciais

Apesar das notícias do avanço em direcção a Slaviansk não havia – até ao fim da tarde desta quinta-feira –  informações sobre uma eventual progressão de tropas ucranianas para o centro de uma cidade de 130 mil habitantes, onde foi libertado um jornalista norte-americano que dois dias antes tinha sido detido.  “Se assaltarem a cidade estamos preparados para eles”, disse o presidente de câmara designado pelos separatistas, Viatcheslav Ponomarev. Numa fase anterior da operação “antiterrorista”, o governo de Kiev manifestou preocupação pelo risco de baixas entre civis.

Tendo em conta o dispositivo militar ucraniano que observou em redor da cidade, a Reuters admite que o objectivo das forças ucranianas seja criar um cordão à volta Slaviansk para dificultar os contactos entre separatistas locais e do resto da região e, ao mesmo tempo, promover negociações para a rendição de grupos pró-russos.

Como previsto, e foi invocado pelo ministro russo da Defesa, um contingente de 600 soldados norte-americanos começou a chegar à Polónia, no âmbito de  decisões anunciadas pela NATO, de reforçar a segurança dos seus membros devido à crise na Ucrânia.

Para a Rússia, os mais recentes acontecimentos no Leste do Ucrânia levantam questões sobre a legitimidade das presidenciais marcadas pelo poder interino de Kiev para 25 de Maio. “Não há dúvida de que o desenvolvimento de acções criminais por Kiev… põe em causa legitimidade das eleições marcadas para Maio”, disse aos jornalistas Dmitri Peskov, porta-voz da presidência.

A União Europeia reconheceu o direito da Ucrânia a “defender a sua soberania” e apelou a uma redução da escala de tensão e ao cumprimento do acordo sobre a Ucrânia alcançado na semana passada em Genebra – de que é um dos subscritores, a par da Rússia, EUA e Ucrânia – e que previa o desarmamento de grupos armados ilegais e a desocupação de edifícios.

As movimentações ucranianas no Leste aconteceram numa altura em que o Presidente dos EUA estava no Japão e foi em Tóquio que acusou a Rússia de não se ter empenhado no compromisso da semana passada. “Até agora não os vimos respeitar nem o espírito nem o acordo de Genebra”, disse Barack Obama, que voltou a advertir para a possibilidade de agravamento das sanções económicas impostas à Rússia após a anexação da Crimeia.

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