Os anos 1980 já tão distantes

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Os novos trabalhos de Ana Vidigal na Galeria Baginski revelam a faceta séria de uma obra às vezes equivocamente cómica

É claro que ainda encontramos aqui o humor, os jogos de palavras e os duplos sentidos que têm caracterizado, desde sempre, a obra de Ana Vidigal. Há por exemplo uma peça chamada Nenúfares, onde a artista colou círculos verdes sobre um cartaz do filme 2001: Odisseia no Espaço — o piscar de olhos à série icónica de Renoir que traz aquele nome é evidente, tanto mais que a obra do mestre francês (como todo o impressionismo) enfatiza a visualidade do espectador. Como aqui acontece. Mas este trabalho faz figura de excepção na exposição Em primeiro lugar o Fim (Rigorosamente pessoal). A série que Ana Vidigal agora apresenta na Galeria Baginski, em Lisboa, é ponderada e íntima, convocando referências que se situam muito mais no plano da História da Arte do que, como é usual na sua obra, do contexto sociológico e político das décadas de 1960 e 1970, aquelas em que cresceu.

Ana Vidigal habituou-nos a comentários mordazes e certeiros sobre os estereótipos femininos desses tempos. Contudo, o que vemos aqui é outra coisa: composições que citam a pintura dessas mesmas épocas. Uma peça de grandes dimensões revela a um olhar mais atento páginas de anúncios de revistas Artforum (de 1986), coladas e repintadas, como um who’s who da cena artística desse ano. Neste mesmo trabalho, caixas de arquivo coladas introduzem ritmo visual na bidimensionalidade da tela, que evoca as apropriações das abstracções da época. A artista explica: “Houve pessoas fundamentais na decisão que tomei de desenvolver este processo de trabalho. Uma delas foi a Susana Pomba, curadora do projecto Old School e minha amiga pessoal. Um dia comentei com ela que já achava graça pegar nas Artforum dos anos 1980 tal como trabalhava anteriormente objectos dos anos 1970. Ou seja, os anos 1980 já foram há tanto tempo que eu consigo trabalhar com essas revistas com a distância necessária! Disse-lhe que haveria de chegar o dia em que só apresentaria coisas referentes a essa década. E ela, com aquele ar pachorrento, respondeu-me: ‘Ó minha amiga, isso só depende de ti!’. Foi assim que eu deixei de recear fugir à minha linha habitual.”

Uma história pessoal

Este foi o ponto de partida de um processo de pensamento que acabou por inflectir a linha de trabalho de Ana Vidigal. Dobragens, jogos com os motivos decorativos dos papéis de embrulho ou de encadernação, colagens diversas recordam as abstracções da década de 1970. Não sem que estas, pontualmente, não se imbriquem com a imagem figurada, como acontece com as peças quadrangulares verdes que exibem a fotografia de Marisol, uma actriz espanhola de filmes infantis antigos. Ana Vidigal explica que estas fotografias foram encontradas no Cinema Ideal, na altura em que este foi comprado pela Midas Filmes. Fazem parte de um espólio maior, constituído por centenas de revistas Flama que a cineasta Joana Cunha Ferreira disponibilizou através do Facebook. Mas o trabalho de colagem é bem mais complexo noutras obras de Em primeiro lugar o Fim (Rigorosamente pessoal), sobretudo numa que ostenta dezenas de postais de que apenas vemos o verso — é a porta de entrada para um mundo muito mais íntimo, e foi trabalhada a partir de duas colecções, uma de postais de publicidade a medicamentos que eram enviados ao avô e ao tio-avô da artista, ambos médicos, e outra de postais expedidos pela família de Ana Vidigal. “A certa altura, o meu pai achou que em Portugal não podíamos saber o que era democracia (isto foi antes do 25 de Abril), e então, como havia pouco dinheiro, arranjou umas carrinhas Volkswagen e corremos a Europa toda nelas. Eu vi a Europa toda de carrinha Volkswagen! E mandávamos postais aos meus tios e aos meus avós, que eles guardaram como uma colecção.”

Quando a artista entrou na posse deste material, perguntou-se se iria utilizar a frente ou o verso: “Não me sentia capaz de mostrar apenas o verso, já que as imagens do Louvre ou de Versalhes são fantásticas. Mas, a pouco e pouco, percebi que se quisesse usar a frente podia ir à Feira da Ladra e comprar uma qualquer colecção de postais. Aqui é mais íntimo; há postais escritos por mim, pelo meu irmão, nós reconhecemos as letras…”.

Num certo sentido, esta obra aparenta-se com outras, mais antigas, em que Ana Vidigal abdicou do lado mais lúdico do seu trabalho para se concentrar na sua própria história pessoal. Recordamos em particular Penélope, uma colcha feita com os aerogramas enviados pelos pais durante a Guerra Colonial, onde o pai de Ana Vidigal combateu. De resto, como o título que escolheu para a exposição o indica, esta é uma obra pessoal. “A [actriz] Ana Bola é quem dá muitas vezes os títulos às exposições. Na outra que fiz aqui há um ano, pedi-lhe ajuda e ela perguntou-me ‘mas que estilo é?’, e eu disse-lhe ‘sei lá, é como eu!’. ‘Então pões Estilo Queen Anne!’. Desta vez, fui vê-la ao teatro e no fim pedi-lhe ajuda. Outra vez a mesma história: ‘Mas é estilo quê?’. ‘Eu não sei, é um bocado diferente do costume; é uma espécie de sortido!’. ‘Nem mais: Sortido Fino’. Acabou por não ficar Sortido Fino porque era demasiado humorístico para o trabalho que eu estava a fazer. O título foi-me dado pelas Selecções do Reader’s Digest: na peça grande que tem as caixas de arquivo, há uma que se abre e que tem colada lá dentro uma folhinha das selecções em que o texto está todo riscado excepto a frase que decidi usar.”

Sortido Fino acabou por ficar para nome de uma das obras da exposição. A escolha de Em primeiro lugar o Fim (Rigorosamente pessoal) tem o seu lado de manifesto: “Às vezes as pessoas identificam uma certa comicidade na minha obra que não existe. Não me importo com isso. Mas desta vez não queria mesmo que houvesse essa leitura.”