Essa eterna Tropicália

No documentário, não vemos os rostos actuais dos protagonistas até ao último terço. Vemo-los há quatro décadas e meia, agindo há quatro décadas e meia – “isso tem um efeito dramático também, nos permite partilhar a sua juventude”
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No documentário, não vemos os rostos actuais dos protagonistas até ao último terço. Vemo-los há quatro décadas e meia, agindo há quatro décadas e meia – “isso tem um efeito dramático também, nos permite partilhar a sua juventude”

O Tropicalismo foi revolução musical (e não só) em tempos conturbados. Foi Caetano, Gil, Tom Zé ou os Mutantes e está agora perante nós num documentário. Estreou em sala e em DVD. O realizador Marcelo Machado fala ao Ípsilon.

O início é o fim. Caetano Veloso e Gilberto Gil a cantar Alfomega em programa televisivo. A emissão é a preto-e-branco mas não parece. O colorido como que irradia dos acordes de Gil, dos rostos e das roupas de ambos. O colorido liberta-se na libertação da língua: “O analfomegabetismo/ Somatopsicopneumático”. Caetano e Gil de passagem pela RTP, entrevistados por Carlos Cruz e Raul Solnado no famoso Zip Zip. Ainda existe o Tropicalismo?, perguntam a Caetano. “O nome do movimento só existe quando existe esse movimento, e o tropicalismo não existe mais enquanto movimento”, responde. O fim. O fim?

Tropicália, o documentário de Marcelo Machado estreado em 2012 (passou no IndieLisboa), chegou ontem ao circuito comercial português e aos videoclubes televisivos. Dia 28 de Abril será editado em DVD. É um documento importante, revelador, sobre um tempo que, ao contrário do enunciado por Caetano Veloso logo a início, não tem um fim. É essa a força da Tropicália, sobressalto criativo que com arrojo, humor e uma curiosidade transbordante, transformou o cenário artístico brasileiro nos anos de chumbo da ditadura militar e parece ser desde então fonte de inspiração inesgotável.

Não devemos ser tão pouco ambiciosos e ficar pelo olhar nostálgico do tão bom que era e já não volta, ou ficar tão iludidos que comecemos a criar uma bolha tropicalista à anos 1960 no século XXI. A inspiração é de outro teor. “Um documentário não deve passar uma mensagem, deve ser um retrato e contar o melhor possível a história de um momento ou de uma personagem”, diz ao Ípsilon desde o Brasil Marcelo Machado. “Mas se há mensagem [em Tropicália] é de que é preciso viver o nosso tempo”, acrescenta.

Toda a riqueza

É precisamente no tempo, naquele tempo, que mergulhamos. 1967, 1968, 1969. Três anos de turbilhão político, social e cultural, iniciados três anos depois da instauração da ditadura militar no Brasil. A bossa-nova fora revolução maravilhosa, claro que sim, mas isto era já outra coisa. Os baianos chegavam ao Rio de Janeiro. “Vi o Terra em Transe [filme de Glauber Rocha, outro tropicalista] e percebi que tinha que largar o conforto do bairro protegido e as pessoas da segunda vaga da bossa nova”. É Caetano que o recorda. Pouco depois, ouvimos citado o escritor e dramaturgo modernista Oswald de Andrade: “Pela unificação de todas as revoltas numa direcção só. Pela contribuição milionária de todos os erros”.

Marcelo Machado tinha dez anos quando a Tropicália explodiu. Assistiu a tudo pela televisão. “Na adolescência, quando o Tropicalismo já tinha passado, olhava já meio saudoso para esse período, imaginando quase uma ilha, uma utopia, um momento de lucidez no meio do desatino que era o período da ditadura militar”. É difícil resistir-lhe: “Vejo ali um ideal de país moderno que não é um reflexo do que é a Europa ou os Estados Unidos. Um país diferente, diverso, complexo e contraditório”.

“A doce música brasileira com turbines a jato-propulsão, nada mais”, definiu um dia Caetano Veloso. A música do sertão, a bossa-nova e o samba a flirtar com os Beatles e os Stones, a sintonizar o psicadelismo inglês e americano, a deliciar-se com a Jovem Guarda de Roberto Carlos, com a Nouvelle Vague e com as fotos de Brigitte Bardot nas capas das revistas. Olhar de novo para ver realmente. Marcelo Machado aponta que em Tropicália, a instalação de Hélio Oiticica que viria a baptizar o movimento, “a favela surge não apenas como o lugar da moradia pobre, miserável, mas também como lugar de criação, do samba, da invenção e da alegria”.

O Tropicalismo deita mão a toda a riqueza, venha de onde vier, sublima todos os erros para a criação de algo novo. Realizadores e músicos, artistas plásticos e dramaturgos, unidos no “apogeu do sonho de um Brasil moderno”, define Marcelo Machado. “Esse sonho começou a ser acalentado na semana da Arte Moderna, em 1922, desenvolve-se na Universidade Federal da Bahia nos anos 1950, com Tom Zé, Glauber e Caetano estudando juntos, e vai até ao golpe militar”. Que nos diziam eles, os actores desse colectivo desalinhado que abominava e se opunha à violência conservadora da ditadura mas que também desdenhava a “ditadura do bom gosto” da oposição de classe média? (“universotários”, chamava-lhes o artista gráfico e músico Rogério Duarte.) “Que o Brasil era um país cheio de conflitos e contradições, que continuava carregando toda a herança da escravidão, da injustiça, das diferenças sociais, dos preconceitos raciais”, aponta Marcelo Machado. E que os tropicalistas celebrariam “um país que vai ter que viver com tudo e não esconder as sujeiras debaixo do tapete”. Irá fazê-lo numa explosão de criatividade tão séria nas suas convicções e estéticas quanto vibrante de juventude.

É isso o que nos mostra Tropicália. A inventividade e militância do cinema experimental; as turbulentas aparições televisivas, essenciais para que o Tropicalismo chegasse a todo o país, e o público fervoroso, dividido entre as vaias e os aplausos; o sentido de colectivo exposto nas fotos, nas filmagens oficiais ou caseiras que reúnem todo o grupo. Estão aqui: Gal Costa a cantar “não temos tempo de temer a morte” em horário nobre; Caetano tão vivo e tão jovem, tão vital com o seu Alegria, alegria; Tom Zé e a sua São São Paulo, carta de amor e ódio; Gilberto Gil e o Domingo no Parque tocado com os Mutantes; ou esses mesmos Mutantes de Rita Lee, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, tão paulistas, tão sintonizados com o mundo, explicando, como diz o apresentador televisivo, “que o jovem quer ser adulto, não quer é ser o adulto que tem perante si”. Cantam Panis et Circensis, que tudo resume em dois versos: “Porque as pessoas na sala de jantar / Estão ocupadas em nascer e morrer”. Todos ali: ontem nesse presente que foi aquele final da década de 1960.

No documentário não se ouvem jornalistas ou documentaristas e os depoimentos dos músicos e demais artistas foram registados em breves encontros de “duas, três horas”. O Tropicalismo, conta Marcelo Machado, era tema pisado e repisado, até um pouco aborrecido. “Mas essa história de novo?”, respondeu-lhe Gilberto Gil. “Tem muito pouco material. O que já tinha para se dizer já se disse”, disse-lhe Caetano. O realizador decidiu então que, para mostrar sob uma nova luz o Tropicalismo, tinha que escolher outro caminho. “A minha estratégia foi afastar-me dos artistas e concentrar-me só na pesquisa de arquivos, vendo tudo o que já tinha sido feito, levantando imagens, vendo programas de televisão, cinema, fotografia”.

No processo percebeu que o universo de ideias que abarcava o Tropicalismo era demasiado vasto para um documentário cinematográfico – “talvez uma série de televisão pudesse dar conta”. Concentrou-se assim nos três anos em que o movimento se apresentou publicamente, se celebrizou e contaminou o espaço público e a cultura e, por fim, nas palavras de Caetano, morreu. “Se você tem que agarrar o mundo e não consegue, precisa então de pegar um pedaço significativo dele e deixar bastante claro o que aconteceu ali”.

O Tropicalismo em efervescência, a criatividade a explodir, o país em turbulência, o momento em que a ditadura aperta por fim o cerco: Caetano e Gil presos primeiro e enviados depois para o exílio em Londres. Vemo-los em comuna hippie na capital inglesa, ou, numa das imagens inéditas revelados pelo documentário, no palco do festival Isle Of Wight.

Terminada a pesquisa dos arquivos, Marcelo Machado pegou em 15 minutos de material escolhido especialmente para cada uma das pessoas que queria entrevistar e atraiu-as para aquilo que designa como “a caverna da memória”. “Apostei muito nesse material, confiando que o contacto com ele pudesse ser um elemento de emoção e chave para a memória”. No documentário, não vemos os rostos actuais dos protagonistas até ao último terço. Vemo-los há quatro décadas e meia, agindo há quatro décadas e meia – “acho que isso tem um efeito dramático também, nos permite partilhar a sua juventude”. Até que cai o pano sobre a ilusão. Caetano Veloso a descobrir a silhueta da mãe entre as filmagens caseiras do Carnaval da Bahia. Gilberto Gil vendo-se a si mesmo, regressado ao Brasil, a cantar muito festivo Back in Bahia, e o olhar a traí-lo (não é aborrecimento, não). Ali, naquele momento, Gil e Caetano não são mitos de uma época gloriosa. São reais, humanos. Observam-se enquanto actores de um tempo que transformaram. “Tiveram ousadia mas tinham raízes fortes, profundas, e um grande interesse pelo que acontecia no mundo. O importante é que foram ousados como ousados foram os seus contemporâneos. A cada tempo, seus artistas e ideias”. Estas, as da Tropicália, permanecem incrivelmente inspiradoras.

“A lição principal que retiramos”, repete Marcelo Machado, “é a coragem de viver o seu tempo de forma criativa”. Tropicália! Sempre?