A futilidade cruel

Este aparente paradoxo basta para descrever a crueldade da experiência a que fomos sujeitos nós, como os outros países sob a troika. Foi-nos imposto — e impusemos a nós mesmos, através do governo eleito — um programa brutal de desvalorização interna. O desemprego aumentou e deixou nesse aumento uma calamidade social; os portugueses emigraram como não faziam desde os tempos da guerra colonial e da ditadura; a procura interna foi comprimida, levando à falência milhares de pequenas e médias empresas. E tudo isso, é honesto reconhecer, serviu para nada. Não diminuiu o endividamento. E acima de tudo, não foi isso que nos baixou os juros da dívida.

O que baixou os juros da dívida, então? Como disseram desde o início aqueles que diagnosticaram esta crise como sendo primordialmente uma crise do euro, os juros da dívida baixariam a partir do momento em que a União Europeia tivesse uma estratégia minimamente plausível para segurar a sua moeda. Não foi preciso muito, na verdade: bastou a garantia dada por Mario Draghi de que o Banco Central Europeu faria tudo na defesa do euro para que os mercados acalmassem e a fase aguda da crise passasse. Além disso, tivemos uma enormíssima injeção de liquidez nos bancos europeus — bastante maior do que o que foi emprestado em condições draconianas aos estados. E agora a promessa de que o Banco Central Europeu dará início a uma fase de “auxílio quantitativo” semelhante à que foi levada a cabo nos EUA. Entre outras coisas, foi isso que baixou os juros de Portugal, da Irlanda e até da Grécia. Os portugueses sofreram para manter uma história, nada mais.

Se há lição que devam tirar destes acontecimentos todos os progressistas, portugueses e europeus, é que conta quem está no poder. Quem está no poder impõe políticas, impõe sacrifícios e, no fim, impõe uma narrativa. Os juros podem ter baixado exatamente pela razão que a oposição sempre disse que os faria baixar. Mas quem se aproveitou da subida dos juros para forçar a austeridade, desmantelar o estado social e de forma geral “ir além da troika”, também vai aproveitar-se da descida dos juros para proclamar vitória. E assim sucessivamente, enquanto a esquerda (pelo menos a portuguesa) continuar a defender o estado, mas a entregá-lo de mão beijada à direita.

E essa lição vai ser mais importante ainda nos anos que aí vêm: anos de reconstrução. Mais uma vez, conta quem está no poder. Se for a direita neoliberal, o país será “reconstruído” à maneira dela, com privatizações na saúde e no ensino público, e uma segurança social espartilhada e descapitalizada. Se for um governo de bloco central, a direita imporá como preço da governabilidade as mudanças na Constituição por que há tantos anos anseia.

Só se a esquerda encontrasse maneira de convergir num programa de governação haveria maneira de salvar o que resta e reconstruir o que falta no nosso estado social. Antes que seja tarde, para não passarmos de um episódio de futilidade cruel para outro de uma crueldade fútil.

Historiador e eurodeputado, cabeça de lista do partido Livre às eleições europeias