Crítica

Julia Lezhneva, uma estrela em ascensão

A agilidade vocal e facilidade no domínio da ornamentação de Julia Lezhneva voltou a estar em evidência

Julia Lezhneva
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Julia Lezhneva

Orquestra Barroca de Helsínquia Julia Lezhneva (soprano) Aapo Häkkinen (direcção) Lisboa, Grande Auditório Gulbenkian 22 de Abril, às 21h Sala a dois terços 4 estrelas

Com apenas 24 anos, a soprano russa Julia Lezhneva tem causado sensação no circuito musical internacional, especialmente no repertório barroco, mas também em Mozart e Rossini. Não é para menos, pois possui um talento musical fora do comum, um timbre cintilante, proficiência técnica e elegância expressiva. Na terça-feira apresentou-se pela primeira vez na Gulbenkian, com a Orquestra Barroca de Helsínquia, dirigida por Aapo Häkkinen. O programa era dedicado ao período italiano de Händel e, apesar do título ( La Resurrezione, correspondente à oratória estreada em Roma em 1708 no palácio do Príncipe Ruspoli), compreendia obras de natureza sacra e profana. Uma considerável quantidade de música instrumental (Ouvertures, Sonatas, um Concerto Grosso e outras peças) preencheu o alinhamento deixando a Lezhneva apenas cinco intervenções, que souberam a pouco.

O concerto iniciou-se com a Sonata da oratória La Resurrezione, que dá lugar à ária di bravura, com trompete, Disserratevi, o porte d’Averno!. A ousadia de iniciar um programa com uma peça tão virtuosística acabaria por se reflectir numa interpretação que pecou pela falta de clareza em termos de dicção e articulação, não obstante a inegável agilidade da cantora e a profusão de coloraturas que dificultam a compreensão do texto.

Após o Concerto Grosso em Si bemol Maior HWV 313, no qual a orquestra foi apurando gradualmente o seu desempenho, culminando na graciosidade rítmica do Minueto e da Gavotte, Julia Lezhneva deixou a audiência rendida com uma tocante interpretação da Salve Regina, de Händel. Aqui pudemos admirar qualidades como a pureza da linha vocal, a capacidade de produzir subtis nuances de colorido tímbrico ou a técnica apurada na messa di voce (crescendo gradual numa nota longa sustentada com a mesma respiração), bem como o contraste acentuado entre o canto interiorizado das passagens mais contemplativas e a exaltante secção Eia ergo advocata mostra. Do ponto de vista do colorido e das nuances interpretativas, a orquestra poderia ter estado mais em sintonia com a cantora nesta obra, mas em geral a prestação do agrupamento dirigido por Aapo Häkkiben foi ganhando vigor e coesão ao longo da noite, mostrando o seu melhor nas peças instrumentais da segunda parte (incluindo a Ouverture Clori, Tirsi e Fileno e a Ouverture HWV 341) e nas últimas árias. Contou também com alguns solos apreciáveis como no caso do oboé e do violoncelo.

A agilidade vocal e facilidade no domínio da ornamentação de Julia Lezhneva voltou a estar em evidência nas brilhantes árias da oratória Il trionfo del Tempo e del Disinganno, nomeadamente em Un pensiero nemico di pace e Come nembo che fugge col vento, mas foi na ária da ópera Agrippina, que a soprano mostrou uma outra vertente do seus dotes dramáticos através da intensidade emocional e poder retórico do texto (“Pensieri, voi mi tormentate”), assim como um eloquente domínio do recitativo. Apesar do virtuosismo e do entusiasmo que revela quando canta, Lezhneva não é o tipo de cantora temperamental que exagera nos efeitos e no dramatismo, mantendo sempre uma notável nobreza expressiva. Se alguns detalhes podem ainda ser amadurecidos, a grandeza da sua arte ficou bem patente na interpretação magnífica que fez da ária Lascia la spina (também de Il trionfo del Tempo e del Disinganno) apresentada como encore após os numerosos aplausos. Uma estrela em ascensão a não perder de vista nos próximos anos. 

 

 

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