Morreu o artista plástico Carlos Calvet, uma referência da arte contemporânea

Calvet integrou o grupo Os Surrealistas com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e Isabel Meyrelles.

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s/título, 1967, obra de Carlos Calvet na colecção do CAM
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Imagens do filme realizado por Carlos Calvet

Pintor, arquitecto e fotógrafo, Carlos Calvet morreu esta segunda-feira à tarde aos 86 anos, escreve a Lusa, citando uma fonte ligada à família. O artista plástico que tinha 86 anos é lembrado como uma referência na arte contemporânea portuguesa.

“Foi um extraordinário pintor”, diz sobre Carlos Calvet o galerista Carlos Cabral Nunes, director da Perve Galeria. “Foi um artista plástico e surrealista com uma obra muito sólida, muito interessante e muito rigorosa”, recorda Cabral Nunes, que ainda há “pouco tempo” recebeu o artista naquela que quer ser a casa do surrealismo português: a Casa da Liberdade – Mário Cesariny (associada à Perve Galeria).

Quando em Novembro esta casa foi inaugurada em Lisboa, Carlos Calvet era um dos artistas com obras ali expostas. E o artista plástico foi lembrado na mesma altura no congresso internacional que teve por mote Surrealismo(s) em Portugal.

Carlos Calvet, que se formou na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e do Porto, integrou ainda muito jovem Os Surrealistas, o grupo dissidente em relação ao movimento oficial onde pontificava António Pedro. Ao lado de nomes como Mário Cesariny, Artur do Cruzeiro Seixas e Isabel Meyrelles, Calvet desenvolveu “uma poética muito mais centrada no experimentalismo da palavra e da forma do que os pintores que se incluíam no grupo rival”, como destaca a crítica de arte do PÚBLICO Luísa Soares de Oliveira.

“Com os seus colegas, expôs em 49 e 50, desenvolvendo então uma pintura que se aproximava da arte metafísica italiana de um De Chirico, por exemplo”, explica Luísa Soares de Oliveira. Já Carlos Cabral Nunes destaca o “papel muitíssimo importante” que Calvet teve no surrealismo português, onde além da pintura, se distinguiu também por ser o “autor dos únicos filmes portugueses surrealistas”. “Há um filme que é fundamental, um documento único”, diz Cabral Nunes, referindo-se à curta-metragem de 1964, uma ficção surrealista com Cesariny e João Rodrigues, intitulada Momentos na Vida de Um Poeta.

Além do seu pequeno percurso no cinema, Cabral Nunes destaca ainda a dimensão poética de Calvet. “Ele não tem uma obra poética muito extensa mas é muito interessante”, diz o galerista.

Mas para Luísa Soares de Oliveira, a marca que hoje reconhecemos como sendo distintiva da obra de Carlos Calvet aparece alguns anos depois destes trabalhos. “São as estilizações bidimensionais muito à maneira da Pop inglesa, que motivaram também outros pintores seus contemporâneos, como António Areal (com quem também expôs alguns anos mais tarde) ou Palolo”, explica a crítica de arte, para quem “Calvet teve o enorme mérito de integrar a primeira geração que efectivamente conseguiu colocar a arte portuguesa a par e passo com a sua congénere internacional, um facto que era já evidente na década de 60”.

“O café A Brasileira, no Chiado, homenageou-o, adquirindo uma obra sua para integrar o conjunto de pinturas portuguesas modernas que a decoram desde o começo dos anos 70”, lembra ainda Luísa Soares de Oliveira, explicando que “a imagem que lá vemos hoje é uma reprodução, como todas as outras que decoram as paredes deste ícone da vida lisboeta, mas aproxima indubitavelmente a obra do pintor ao quotidiano de quem por lá passa”.

Mas Carlos Calvet foi também um nome importante da fotografia portuguesa. “A sua passagem pela fotografia foi breve mas a sua obra é uma referência”, diz ao PÚBLICO Emília Tavares, conservadora de fotografia e novos media do Museu do Chiado. Carlos Calvet está presente na colecção deste museu ao lado de nomes como Fernando Lemos, Gérard Castello-Lopes, Vítor Palla, Carlos Afonso Dias e Sena da Silva.

“Ele sempre preferiu a pintura mas deixa-nos uma obra brilhante e um legado muito importante”, continua Emilia Tavares, referindo-se às fotografias que Calvet fez nas décadas de 50 e 60. “Foi um período muito pujante e criativo.”

“Vai fazer muita falta, é uma pena que esta geração esteja a desaparecer toda sem que o país tenha feito o devido tributo a estas pessoas”, termina por dizer Carlos Cabral Nunes, garantindo que a obra de Calvet “continuará a ser mostrada e lembrada”.

O funeral deverá acontecer na quarta-feira, segundo a informação divulgada pela Lusa.