Detido o capitão do ferry naufragado na Coreia do Sul

Vice-director do liceu dos 352 adolescentes que iam na embarcação suicidou-se. Justiça emitiu mandado de captura para o capitão e para mais dois membros da tripulação.

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Operações para encontrar sobreviventes continuam REUTERS/Kim Hong-Ji
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Para ajudar as buscas, equipas de socorristas instalaram insufláveis no local onde o ferry se afundou REUTERS/Yonhap
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Familiares desesperam por notícias e permanecem junto ao local das buscas REUTERS/Kim Hong-Ji
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A maioria dos familiares dos passageiros desaparecidos estão concentrados num ginásio em Jindo, perto do local onde as buscas continuam. REUTERS/Kim Kyung-Hoon
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Monge budista em oração pelos passageiros desaparecidos REUTERS/Issei Kato
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A procuradoria sul-coreana ordenou esta sexta-feira a detenção do capitão do ferry que naufragou na quarta-feira com 475 pessoas a bordo, acusado de negligência por ter abandonado os passageiros. O capitão já foi detido. Até agora só foram encontrados 28 corpos, mas ainda há 268 pessoas desaparecidas.

O capitão do ferry Sewol, Lee Joon-seok, e a maioria dos 28 membros da tripulação estavam no primeiro grupo de resgatados. Aliás, ainda nenhuma ordem de evacuação tinha sido dada aos passageiros e eles já não se encontravam a bordo – pelo contrário, a oficial que fazia os anúncios, e que está desaparecida, continuava a repetir que toda a gente devia ficar no seu lugar.

Alguns sobreviventes dizem que nunca chegaram a ouvir a ordem para abandonar o barco; as autoridades concluíram que foi dada, 30 minutos depois de o ferry se ter começado a virar, mas que nada foi dito sobre como é que os passageiros deviam sair. Oh Yong-seok, membro da tripulação ouvido pela Associated Press, admite que no meio do caos muitas pessoas podem não ter chegado a ouvir as ordens de evacuação

Quando Lee chegou a terra, o ferry ainda não tinha acabado de se virar: pouco depois, descreve o diário Chosun Ilbo na sua versão em inglês, o capitão estava no hospital a secar o dinheiro que levava consigo quando deixou a embarcação. Cinco minutos depois da chamada de emergência feita pela tripulação do Sewol, um navio dos serviços de tráfego marítimo aconselhava os tripulantes a começarem a preparar-se para a evacuação, escreve a AP, que leu a transcrição da conversa.

Entre os passageiros estavam 352 estudantes de um liceu dos subúrbios de Seul, todos adolescentes de 16 e 17 anos a caminho de uma visita de estudo na ilha de Jeju. Quando mais de 200 alunos continuam desaparecidos, o vice-director da escola, que tinha organizado a excursão de 15 turmas, foi encontrado enforcado na ilha de Jindo, perto do local do acidente, onde estão instalados os sobreviventes e familiares dos desaparecidos.

Os investigadores continuam a admitir vários cenários, mas dizem que o ferry virou bruscamente antes do acidente – pode ter sido a curva a provocar o desastre, levando a carga a mover-se, mas também é possível que esta tenha sido consequência de algo que aconteceu antes. Para além do capitão, os procuradores pediram a detenção de dois membros da tripulação, acusados de não terem reduzido a velocidade numa zona com muitas ilhas próximas umas das outras e durante uma curva apertada, e por não terem posto em marcha as medidas necessárias para salvar vidas.

Lee não estava ao leme no momento do acidente – é habitual que não esteja durante todo o tempo nesta viagem de 13 horas –, mas o capitão nem sequer se encontrava na ponte e é obrigado a isso nesta zona em particular, precisamente para ajudar os seus oficiais a fazerem a curva.

Um país de luto

Este acidente – já um dos maiores da história recente sul-corena – está a chocar um país que se vê como moderno e eficiente. “Temos os melhores estaleiros navais do mundo no século XXI. Mas a nossa maneira de pensar é do século XIX”, escreve em editorial o grande jornal Dong-A Ilbo. “Qual é o interesse de termos a Internet mais rápida do mundo, os smartphones mais cool e os melhores estaleiros navais quando não somos capazes de salvar as nossas crianças?”, questionou-se um sul-coreano no popular portal Naver.com.

Das televisões desapareceram entretanto todos os programas com música ou dança, ao mesmo tempo que dezenas de músicos pop cancelaram concertos e adiaram o lançamento de álbuns. As empresas, tanto públicas como privadas, anularam qualquer tipo de festas ou jantares de trabalho, e as autoridades locais cancelaram festivais. Os dois principais partidos políticos suspenderam a campanha para as eleições locais de Junho.

A principal ordem budista do país lançou uma oração nacional pelos desaparecidos nos seus 2500 templos e há vigílias previstas em dezenas de cidades.

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