Fios de memórias

Enric Vives-Rubio
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Enric Vives-Rubio

Uma outra voz é o romance de estreia de Gabriela Trindade Ruivo. A sua escrita ocupou durante quatro anos esta psicóloga que vive em Londres há mais de dez. Saga de uma família alentejana, venceu o Prémio Leya 2013

É uma sala de jantar ampla, onde cabem várias famílias que juntas são num sábado de uma Primavera de tempo enfarruscado, um retrato animado de uma família ainda maior, a dos Estremocenses. À velocidade possível, aterram nas mesas doses generosas de ensopado de borrego, de cabrito assado. Há uma atmosfera antecipada do domingo de Páscoa que se aproxima. A mesa da família de Gabriela Ruivo Trindade é das maiores e das mais animadas. Celebra-se o encontro de uma família que aqui se juntou para honrar a “menina” da terra, alentejana de “duas costelas” que ganhou um prémio literário importante e que vem vinda de Londres, onde vive há dez anos, “cheia de saudades do pão alentejano”, apresentar o livro à grande família de Estremoz.

O café Alentejano é o epicentro deste encontro que se deslocará para o teatro Bernardim Ribeiro, do outro lado deste Rossio de Estremoz, local onde decorrerá a apresentação do prémio Leya 2013. É o espaço tipicamente convivial que se pode encontrar na maior parte das cidades pequenas, não só do Alentejo, e aqui junta um café, um restaurante e um hotel na mesma casa solarenga. O café foi obra de um vulto da terra: o empresário João Francisco Carreço Simões que aqui, no andar de cima, viveu quase toda a vida e que com as empresas de moagem e de produção eléctrica, uma papelaria livraria e um outro café, o Águia de Ouro ali ao lado, transformou Estremoz no início do século XX numa vila mais desenvolvida. Um homem que conspirou com os subversivos republicanos, proclamou a triunfante República e se opôs a Salazar.

Gabriela, que já nasceu em Lisboa, lembra-se de escutar nas férias grandes, quando deixava Benfica e vinha visitar a avó, as histórias embrumadas desse parente ilustre. Tempos em que brincava na rua em dias que se eternizavam, e em que a escadaria de mármore – obviamente construída com a nobre matéria-prima da região – já então dava acesso ao hotel que fora a casa do tio-avô. Uma outra voz ainda estava longe de se ouvir: “Um pouco como acontece com todas as crianças e adolescentes fui juntando na minha cabeça tudo aquilo que me contavam”.



Um rio com muitas vozes

A ideia do livro só tomou forma quando os primos e tios se juntaram no blogue dos Falcatos (apelido materno) que durante uns anos foi o local onde se cruzavam as histórias de uma família numerosa: “Naquele blogue tinha a sensação de estar à mesa com os parentes, um pouco como hoje aqui neste almoço. Foi aí que ouvi pela primeira vez falar das fotos do diário africano do tio João. Foi aí também que descobri que cada história, feita de memórias, trazia incorporados alguns silêncios. A ideia de uma ficção nasceu aí. Do tio existem as fotos da misteriosa viagem a Angola na década de vinte do século passado, o diário desapareceu. Confesso que neste caso até deu jeito.”

O diário que a autora inventou para o tio – que no livro se chama João José Mariano Serrão –, espécie de abóbada de um livro polifónico, começa assim: “O tempo é um rio. Um rio com muitas vozes.” É a voz que arruma um mundo de sussurros e de vozes dispersas que constituem o corpo do romance. “Interessava-me esta justaposição de vozes. O meu tio morreu em 1954, muito antes de eu nascer. O que eu conhecia dele era de ouvir contar. Ao escrever o livro procurei ir atrás dessas memórias e transformá-las em ficção através de vozes que são pensamentos em voz alta. Nós quando pensamos, quando exteriorizamos um relato que se baseia em memórias, não o fazemos em linha recta. Procurei arranjar um estilo que fosse fiel a este exercício. A ficção nasce destes silêncios, desta especulação a partir de dados biográficos reais.”

As vozes que antecedem a do protagonista são de parentes, homens e mulheres que recordam momentos de alegria e de desespero, derrotas pessoais e triunfos públicos, revoluções e contrarrevoluções num espectro temporal que passa para cá do 25 de Abril: “Eu nasci em 1970, cresci em liberdade, mas sou devedora desta luta pela liberdade que outros travaram. Por isso senti a necessidade que o livro, através de um dos seus protagonistas, atravessasse Lisboa no dia 25 de Abril. É uma homenagem também às histórias que tomei emprestadas dos meus pais, e a um primo meu que em 1978 foi vítima de um acidente numa manifestação política que o deixou incapacitado.” Este alinhamento de vozes dispersas com fio condutor ténue mas inquebrável de memórias pode quase ser lido como um somatório de contos autónomos. O seu estilo aproxima-se das fronteiras do realismo que no entanto sabe resistir ao apelo dos truques mágicos. Anda perto dos apelos épicos do romance histórico, não se deixando por eles seduzir em nome de uma desejada escala humana na forma de contar uma história. As descrições dos sumptuosos bordéis de Estremoz, na primeira metade do século XX e que acompanham a voz da prostitua Ana com a sua indomável liberdade, lembram a Baía de Jorge Amado em Gabriela cravo e canela. O autor brasileiro é, a par com Isabel Allende, José Eduardo Agualusa e Mia Couto, uma das referências literárias de Gabriela Ruivo Trindade: “Acabamos por ser influenciados pelos autores que gostamos muito.”

Nas entrelinhas de um dos epílogos do livro a autora deixa o desejo que este livro seja lido como quem olha para um pano bordado e tenta descobrir nas “muitas voltas na agulha, voltas que passam por cima de outros pontos ou que apenas desenham sombras em recantos escondidos. No fim, o desenho ilumina-se, como se as diferentes partes encaixassem magicamente e brilhassem na ousadia das cores.”

Se a percepção que temos do português bom que esteve na base deste romance pode mudar a partir daqui sem que apesar de tudo deixemos de estar no domínio do passado – “Apesar da homenagem que foi feita ao meu tio, aquando do centenário da implantação da República em 2010, o seu nome ainda é desconhecido por muita gente em Estremoz” – há no entanto um vida que tem presente e futuro alterado a partir daqui: a da própria Gabriela Trindade Ruivo.

O prémio Leya (cem mil euros) é a maior distinção literária em língua portuguesa atribuída a um original. Surpreendeu a autora em Londres, onde vive há dez anos com o marido e os dois filhos. Psicóloga de profissão, emigrou para o Reino Unido à procura de oportunidades. Uma emigrante que só se distingue da vaga actual por ter ido mais cedo, uma emigrante quase contemporânea na saída, reparamos nós, do então primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso que chefiava um governo social-democrata em coligação, tal como o de hoje. “As coisas já não estavam fáceis e foi por isso que decidimos emigrar.” O telefonema de Manuel Alegre, presidente do júri do prémio, surpreendeu-a numa altura em que tentava vender artesanato através da internet – para quem goste de coincidências, peças em crochê. “A partir de agora acho que estão reunidas as condições para encarar a escrita como um trabalho embora não gostasse que fosse olhada apenas como alguém desempregado que é salvo por um prémio literário. Seria redutor”.

E injusto, acrescentamos nós!