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Megafone

Vais tentar ter menos medo e ser maior do que a tua altura?

Vais alinhar na cena do empreendedorismo, plantar girassóis no Alentejo, ou ser como o Malhão e comer e beber e passear na rua?

Pára, dá-te uns minutos. Não necessariamente para me leres, mas aceita o pretexto que te dou para parares por uns minutos e meteres uma valsa a tocar enquanto acompanhas com esta meia dúzia de linhas. Porquê valsa? Porque, pedantices à parte, vais descobrir numa qualquer peça de Strauss uma banda sonora da tua vida.

Acabei de fazer uma batelada de exames ao coração, que começa a ficar cansado para a idade. Vivo sempre com pressa de ser muito com prazos para ontem, com um compasso adequado a uma festa de "trance". Meto-lhe Strauss para cima, porque se é para ser um poema com pernas, que seja de bom gosto. Saí do hospital com uma receita: “mudança de estilo de vida” .

Desde que me conheço que sempre vivi como se fosse morrer amanhã, tudo tem sempre demasiada intensidade. Sinto um Variações em mim, e não é pelo jeito para fazer tranças.

Confesso-vos, andei a maturar a ideia de escrever sobre a questão do sentido da vida há um mês. Achei que seria bom mandar cá para fora uma série de desabafos existencialistas, na esperança de perceber que isto é uma coisa normal e que, por conseguinte, ninguém falece por questionar demais.

Habituámo-nos a ver carradas de vídeos aspiracionais e histórias de doentes terminais, nas nossas horas e meia de almoço, que nos falam de sorrisos e das coisas importantes da vida, porque já descobriram que o "milagre divino" é mais do que isto. Emocionamo-nos. Uma emoção cujas causas muitas vezes ficam por determinar. O vídeo acaba. Levantamos a cabeça do monitor. Estamos num escritório, são 10 da noite e a fazer mais uma noitada com mais um projecto banal em cima da mesa.

 “Aproveitem a vida”

Mas porque raio é que eu mesma não me torno num desses sujeitos que se desamarraram de “tudo o que é suposto”? Começo a achar que ficar doente é uma boa desculpa para o despojamento. “Aproveitem a vida.” – “Façam o favor de ser felizes.” – “Nunca te distraias da vida.” – Estas são frases que reconhecemos nas pessoas que as disseram. Sentimos, verdadeiramente, que encerram um certo messianismo, como se no final da vida aquelas pessoas tivessem sido uma espécie de mensageiros divinos e que nenhum de nós faz a mais pálida ideia do que aquilo realmente quer dizer.

Mas então, se isto supostamente nos soa a descoberta do sentido da felicidade, do que é que se tem medo? De ser feliz?

Pá, merda para a promoção que andamos há anos à espera. Que se lixe o brilho artificial dos prémios que não são mais do que alinhamentos do Universo. Acabou o casamento de duas camas separadas que vai subsistindo pelo dinheiro e pelos filhos, mas principalmente porque a ideia de ficar sozinho causa ataques de pânico. Que se foda o carro novo, porque o que tens ainda serve perfeitamente. Vai-se arranjar mais tempo para conversar e vai-se poupar para viajar. Rejeita-se a expectativa dos papás a quem sempre se quis agradar, especialmente a um pai que nunca disse que tem orgulho em ti. Acaba-se com a necessidade exasperante de que te reconheçam a espectacularidade e decide-se que vais começar a ser mais honesto contigo mesmo. Aceita-se que mudar o mundo é mudar as coisas à tua volta.

Vais descobrir o que é que queres realmente fazer, vais aceitar-te, nem que seja simplesmente o seres uma pessoa melhor para ti e para os outros, vais alinhar na cena do empreendedorismo, plantar girassóis no Alentejo, ou ser como o Malhão e comer e beber e passear na rua? Vais tentar ter menos medo e ser maior do que a tua altura.

Sofro bastante com a ansiedade que me provoca tudo isto do sentido das coisas, espiritualidades incluídas, e a única coisa que percebi é que neste caminho o único sentido é isto, é um longo lugar-comum, andes tu pela auto-estrada ou pelo caminho de cabras, e te leve ele a algum lado ou, até quem sabe, a lado nenhum.