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"Fun Home": o pai dentro do armário e a filha longe dele

Uma reflexão a propósito de "Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar", uma novela gráfica sobre a homossexualidade

"Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar" é o título português possível da novela gráfica de Alison Bechdel: "Fun Home" – um jogo de palavras entre “Fun House” (Casa de diversões) e “Funeral Home” (Casa Funerária). O trocadilho foi criado por Alison e os irmãos adolescentes para nomear a casa funerária que o pai, Bruce, geria com mão de ferro. E Bruce é o centro emocional desta banda desenhada autobiográfica onde Alison conta a sua infância, juventude e relação com o pai: professor de inglês, agente funerário, artista de decoração de interiores, progenitor severo e distante e homossexual invisível.

Nascido numa pequena cidade americana do interior e condenado a continuar o negócio de família, que odeia, Bruce leva uma vida de fachada, mantendo ligações frias e tortuosas com a própria família. Alison cresce à sua sombra, fascinada e perturbada pelo pai, até ao dia em que parte para a universidade. Aí a jovem mulher vai poder descobrir e assumir a sua homossexualidade perante a própria família. O gesto causa desconforto e depois aproximação e crescente honestidade entre Alison e Bruce, até a vida deste ser cortada por um acidente de carro de contornos misteriosos.

A história poderia ser um melodrama sensacionalista, mas a autora evita-o, rejeitando toda a tentação de sentimentalismo, autovitimização, culpabilização ou desculpabilização do pai. Prefere o rigor formal e um devaneio pelos fios do tempo, como se seguíssemos um fio de memórias que nos são contadas no próprio instante da leitura e que, por isso, ganham uma intimidade digna e cativante.

As obrigações

Num dos últimos encontros que teve com o pai, este surge-nos dizendo que não teve nenhuma das hipóteses que ela teve de se encontrar, de tentar definir a sua existência e a sua sexualidade. Preso a obrigações familiares e sociais, cumpriu-as de forma obsessiva, mas sem a presença emocional que dá à existência a palpabilidade de um animal vivo. Bruce constata-o sem rancor ou ressentimento, como se reconhecesse uma verdade que ultrapassa a sua passagem na terra: a vida daqueles que nos sucedem é sempre diferente da nossa própria vida. Não necessariamente melhor, não necessariamente pior, mas com aspirações e problemas diferentes.

E se para a geração de Bruce o problema era suportar papéis sociais rígidos, indiferentes à diferença íntima de cada um, o problema da geração de Allison, da nossa, portanto, é a busca infindável de um eu que nos distinga e que seja, também, uma bússola numa sociedade cada vez mais líquida, onde é tão fácil deixar-se ir ao fundo ou ficar à deriva sem chegar a porto nenhum.

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