PS vota ao lado da maioria PSD/CDS e resolução para a renegociação da dívida é chumbada

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Apenas Os Verdes e o Bloco votaram ao lado do PCP

Debate sobre projecto do PCP resvalou para a discussão da posição deste partido sobre a permanência no euro

No mesmo dia em que o chamado Manifesto dos 74 deu entrada na Assembleia da República, sob a forma de petição, o plenário discutiu, e chumbou, ontem, um projecto de resolução do PCP que também propunha a renegociação da dívida. O PS votou ao lado da maioria PSD/CDS, num debate que ficou marcado pelas alusões às declarações recentes do cabeça de lista dos comunistas ao Parlamento Europeu sobre a saída de Portugal do euro.

PSD, CDS e PS convergiram no desafio ao PCP para esclarecer se assumia como suas as declarações produzidas por João Ferreira na sessão de apresentação dos candidatos comunistas ao Parlamento Europeu, no dia 10. "A integração de Portugal na União Económica e Monetária e a adesão ao euro foram decisões erradas (...). Como é evidente que o futuro do país é inviável dentro do euro", disse então o candidato, acrescentando que o país deve começar a preparar a saída da zona euro, seja por esta vir a "reconfigurar-se" à revelia de Portugal, seja "por decisão e interesse próprios".

O PCP bem protestou que os partidos do "arco da dívida" estavam a tentar encurralá-lo numa batalha marginal ao debate, uma manobra de diversão, para não responderem à questão essencial: como vai o país pagar uma dívida que quanto mais se paga mais cresce? "Só conseguem ver o país pelos olhos dos credores. Continuam agarrados à obsessão de contrair novos empréstimos para pagar os anteriores", declarou no final o líder parlamentar João Oliveira.

A abrir, o seu camarada Paulo Sá já afirmara que este projecto de resolução era idêntico ao apresentado há três anos - também chumbado por PSD, CDS e PS -, reforçado pelo facto de "a vida" ter, em seu entender, dado razão ao PCP. "Há três anos, a dívida era de 163 mil milhões, hoje é de 214 mil milhões. Pagávamos juros anuais de 4800 mil milhões, hoje pagamos 7300 mil milhões", comparou.

Logo Nuno Serra, do PSD, Eduardo Cabrita, do PS, e Telmo Correia acusaram o PCP de empurrar o país para um cenário ainda mais difícil, ao defender a saída do euro. A partir daqui, o eco das palavras de João Ferreira nunca mais abandonou o debate. Miguel Frasquilho, do PSD, e Pedro Fernandes, do PS, ainda se envolveram em polémica, com o primeiro a salientar que Portugal está prestes a concluir o programa de assistência financeira com sucesso, e bons indicadores sobre o futuro próximo, e o segundo a acusar a maioria de direita de fazer demagogia com os números e de esconder que a "política da dupla austeridade" deixou o país pior.

Mas Pedro Marques também fez fogo sobre o PCP, só acompanhado pelo Bloco de Esquerda e por Os Verdes na defesa do projecto de resolução, acusando os comunistas de terem contribuído para a actual situação do país ao chumbarem o PEC IV. "Não nos juntaremos à irresponsabilidade daqueles que ajudaram a pôr esta direita no poder", disse, citando vários artigos com declarações do eurodeputado João Ferreira sobre a saída da moeda única.

Respondeu-lhe o comunista António Filipe, que também tinha feito o seu clipping de imprensa. À acusação de fugir ao desafio para clarificar a posição do partido sobre o euro, respondeu que PS, PSD e CDS é que fogem há muito da questão, a ponto de terem vinculado o país ao euro sem fazerem um referendo. E citou o artigo de ontem Pedro Nuno Santos no i, no qual o deputado do PS - que não interveio no debate - escreveu que "a esquerda desistiu de explicar as consequências assimétricas do processo de integração europeia, desde a adesão ao euro até ao alargamento ao leste e à liberalização do comércio com a China".