Opinião

Impulso jornalístico

Deu-se ontem, na entrevista de José Gomes Ferreira a Pedro Passos Coelho, um momento de verdade suprema. Durante toda a tarde, em antecipação de uma conversa entre um enamorado pela austeridade e um apaixonado pela austeridade, tinham chovido propostas de perguntas de um a outro: “Porque não foi mais longe?”, era a mais fácil de prever. E claro que apareceu.

A realidade, porém, não só ultrapassou a imaginação como a atropelou e fugiu. No único momento em que José Gomes Ferreira se lembrou de insistir numa pergunta, Pedro Passos Coelho franziu o sobrolho e levou o jornalista a escusar-se: “Desculpe, foi um impulso jornalístico”.

Quando um jornalista pede desculpa por fazer jornalismo, está tudo dito. Um dia, este Governo conseguirá que os juízes peçam desculpa por fazer justiça, os pensionistas por estarem vivos e os desempregados por ainda não terem emigrado.

De resto, foram vários os “impulsos jornalísticos” que foram suprimidos durante a entrevista. Da dívida e da sua reestruturação, nada se disse. As europeias foram mencionadas, como de costume, como uma mera paragem do autocarro político. Ideias para o futuro de Portugal na União Europeia, zero; para qualquer futuro que não passe pela austeridade, menos do que zero.

Assim, de repente, há meia dúzia de impulsos jornalísticos que valeria a pena deixar aqui para a próxima vez que o primeiro-ministro for visto em frente a um jornalista. Seria importante saber como Pedro Passos Coelho vê o maior êxodo de portugueses desde os anos 60, que ocorreu durante o seu Governo. Seria importante saber como pensa Pedro Passos Coelho atingir a sustentabilidade da dívida através de previsões de desempenho económico que praticamente não se verificaram em nenhum país europeu neste século. Seria crucial saber que aconselha ele fazer no caso de este plano dar errado.

Já que estamos em vésperas de eleições europeias, seria interessante saber quais são as ideias de Pedro Passos Coelho para a União Europeia – se é que tem algumas. Se é a favor, ou não, de uma mudança dos tratados. Como vê a eleição de um governo europeu, e se ela deve ser por via parlamentar ou direta. Já agora, poderia não ser mau perguntar-lhe como acha que deve a União reagir perante a crise russo-ucraniana.

O que é mais extraordinário de tudo isto é que Pedro Passos Coelho conseguirá, entre a letargia da oposição e a aquiescência dos jornalistas, fazer passar a ideia de que a estabilização na crise do euro e a correspondente descida das taxas de juro e do risco da dívida nacional não tem nada a ver com os efeitos da ação de Mario Draghi ao nível central europeu. E, com essa letargia, essa aquiescência, e a distração generalizada, Pedro Passos Coelho prepara-se para sair relativamente incólume de três anos devastadores para a economia, a sociedade e o estado de direito português.

Quando se escrever a história destes anos, a culpa do que sucedeu não será apenas da ação do Governo e da troika, mas muito da omissão de quem os deveria ter responsabilizado por essa ação.

Historiador, cabeça de lista pelo partido Livre às eleições europeias