Editorial

Atirar números para cima da mesa

Dizer que se vai cortar na "gordura do Estado", sem dizer como é meio caminho andado para não cortar.

A boa notícia é que devido à evolução da economia, à boa execução orçamental e graças à revisão em baixa da taxa de desemprego, o esforço que o país terá de fazer no próximo ano para alcançar um défice de 2,5% será menor do que o estimado. Chegou-se a aventar a necessidade de o Estado ter de cortar cerca de 2 mil milhões de euros para atingir a meta imposta por Bruxelas para o défice de 2015. Marques Mendes disse que o valor dos cortes poderia rondar os 1,7 mil milhões. Nem uma coisa, nem outra. As contas do Governo mostram que será preciso cortar “apenas” 1,4 mil milhões de euros, o que não deixa de ser uma boa notícia.

A notícia menos boa é a metodologia escolhida pelo Governo para conseguir reduzir a despesa. Em vez de anunciar medidas concretas para atingir um determinado nível de poupança, o Governo faz o contrário, ou seja, avança primeiro com os números e depois "logo se verá" como é que a poupança será conseguida – ou seja, aponta uma meta, sem mostrar o caminho. Reduzir as despesas dos ministérios, reorganizar serviços, centralizar competências, poupar em consultoria ou estudos externos mais supérfluos faz parte daquilo que se chama reduzir as "gorduras do Estado". A intenção de cortar nas "gorduras" para evitar ter de se cortar ainda mais no rendimento dos portugueses é boa. Mas sem pormenorizar medidas concretas soa a uma promessa já bastante gasta. Aliás, basta ver que no ano passado o Governo não cumpriu a meta acordada com a troika para cortar nos consumos intermédios do Estado.

A má notícia é que o Governo continua a protelar o anúncio dos cortes definitivos que vão afectar os pensionistas e os funcionários públicos no próximo ano. Milhares de reformados e trabalhadores do Estado continuam a viver na angústia de não saber o que lhes reserva o dia de amanhã.