Opinião

Eternamente Relvas

Há algo que diferencia Relvas de todos os outros lobistas profissionais: ele não tem qualquer pudor em assumir o que faz.

Miguel Relvas é a minha campainha de Pavlov: de cada vez que ele aparece na capa de um jornal, eu salivo um texto. Não há como evitá-lo, são instintos profundos, reflexos condicionados muito mais fortes do que eu.

Tinha tanta coisa para falar hoje, do negócio das funerárias ao 25 de Abril, mas subitamente olho para a capa do Expresso de sábado e lá está a foto de Miguel Relvas, outra vez Miguel Relvas, eternamente Miguel Relvas, e claro: fui imediatamente acometido de um desejo incontrolável de voltar a escrever sobre ele, o mais descarado “facilitador de negócios” que este país já produziu.

A bem dizer, esta também é uma oportunidade para pagar uma dívida antiga para com os leitores. Há cerca de dois meses, escrevi nesta página um texto intitulado “O mistério Relvas”, onde mostrava o meu espanto por Pedro Passos Coelho se ter lembrado de nomear o seu velho amigo para encabeçar a lista ao Conselho Nacional do PSD. Na altura, não compreendi o porquê daquele gesto, que só poderia prejudicar politicamente o primeiro-ministro, na medida em que a popularidade de Relvas entre o povo português é semelhante à do toucinho entre os muçulmanos. Agora, graças ao artigo do Expresso, pude finalmente ver a luz – Passos Coelho é mais um dos muitos clientes satisfeitos de Miguel Relvas (que lhe facilitou o acesso a São Bento), e não podendo pagar directamente em dinheiro, pagou em géneros: um lugar de destaque no Conselho Nacional do PSD merece um acréscimo nos honorários que Relvas cobra aos clientes, todos eles “confidenciais”, e todos eles a pagar à “comissão”.

Seja o assento no PSD ou a página inteira no Expresso, tudo Relvas acolhe com bonomia e o entusiasmo próprio da publicidade gratuita, do mais alto quilate. A prudência e os interesses do PSD convidá-lo-iam a eclipsar-se do espaço público durante muitos anos – mas quanto mais o “facilitador de negócios” aparecer em lugares de destaque, mais os seus negócios ficam facilitados. A maior parte do país, claro, vê Relvas e emborca sais de fruto; só que Relvas também não quer voltar a ter nada com a maior parte do país: “Confessou em privado que nunca voltará a lugares que o obriguem a apresentar declarações de rendimentos”. Tamanha frontalidade e descaramento são quase comoventes.

Dadas as vantagens económicas das suas aparições mediáticas e políticas, talvez este meu texto possa contribuir também – quem sabe? – para um upgrade no seu novo “Mercedes com valor acima dos 80 mil euros”, ou para ajudar a financiar as suas visitas a “três continentes todos os meses”, até porque Relvas, moço fino, passou “a escolher os hotéis pelo nível dos ginásios”. No meio PALOPiano onde se move, de facto, não há coisa chamada má publicidade. O artigo do Expresso garante que a “postura discreta que tem tentado cumprir à risca é uma estratégia a prosseguir”, e, como todos sabemos, a melhor forma de alcançar discrição é prestar declarações ao maior semanário português e aparecer numa foto de capa a três colunas.

A verdade é que há algo que diferencia Relvas de todos os outros lobistas profissionais: ele não tem qualquer pudor em assumir o que faz. Transita do público para o privado, do partido para as empresas, do ministério para os lóbis com a leveza de um colibri e tão eticamente despreocupado que se está nas tintas para que o mundo inteiro o saiba. Não admira que eu salive quando toca a campainha: Miguel Relvas continua um artista inigualável.

Jornalista, [email protected]