“Não há fosso entre a esquerda e a direita sobre o 25 de Abril”, revela sondagem do Instituto de Ciências Sociais

As divisões do Verão Quente perderam impacto na memória dos portugueses. Só 5% consideram que o 25 de Abril se destinava a levar o país para o comunismo.

Foto
Para mais de metade dos entrevistados (58%), o 25 de Abril é encarado como mais positivo que negativo Nuno Ferreira Santos

“Não há fosso entre a esquerda e a direita sobre o 25 de Abril.” Esta é uma das conclusões de uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa apresentado nesta segunda-feira na conferência 25 de Abril, 40 anos, promovida pelo semanário Expresso. Marina Costa Lobo, investigadora do ICS e coordenadora do estudo, revelou outros aspectos daquele trabalho, resultante de 1254 entrevistas pessoais a indivíduos com mais de 15 anos, realizadas em Janeiro último.

“Há um consenso entre os portugueses, existe uma imagem globalmente positiva do 25 de Abril de 1974 no âmbito da escolarização, e um respeito pelos legados sociais”, precisou Costa Lobo. Aliás, para mais de metade dos entrevistados (58%), o 25 de Abril é encarado como mais positivo que negativo, enquanto só 12 em cada 100 pensam exactamente o contrário, ou seja, que foi mais prejudicial que benéfico.

Do mesmo modo, 55% consideram que o 25 de Abril teve como objectivo democratizar e descolonizar, quando o nível dos que consideram que o objectivo era levar o país para o comunismo não passa os cinco pontos percentuais. Outro dado permite situar melhor o problema: mais de 60% consideram que as divisões pós-25 de Abril não têm importância.

Sentimento de orgulho
“O 25 de Abril é um símbolo político positivo que democratizou o país, é o principal marco da nossa história, as divisões do PREC [Processo Revolucionário em Curso de 1975] perderam impacto”, referiu Marina Costa Lobo. Só assim se chega ao consenso e a uma unanimidade que agora reina na sociedade portuguesa sobre o significado e simbologia política do fim da ditadura.

A avaliação como positivas das consequências do 25 de Abril aumenta à medida que sobe a escolarização, o mesmo ocorrendo com o sentimento de orgulho com que os portugueses encaram aquela data. Já quanto ao conhecimento dos protagonistas, os institucionais — ligados ao exercício do poder político — são os mais recordados. Nos restantes, nomeadamente os militares, o seu conhecimento diminuiu: apenas 31% dos inquiridos deles se lembram. “Será um esquecimento geracional?”, perguntou a investigadora.

“A democracia portuguesa tentou construir uma memória oficial de rejeição do autoritarismo devido à natureza da ruptura — um golpe de Estado —, e por o salazarismo na sua fase tardia, a partir dos anos 60, ter ajudado a classe média a ter uma noção do atraso social do país”, comentou António Costa Pinto. O investigador e professor de Política e História Contemporânea considera, contudo, que só há pouco tempo o 25 de Abril deixou de ser ponto de clivagem nos partidos do chamado “arco da governação”. Na análise que fez a consecutivas comemorações, Costa Pinto situa este novo fenómeno apenas em finais dos anos 90 do século passado.

“Os próprios partidos políticos, mesmo os de direita, também se afirmaram politicamente na negação do autoritarismo”, disse. “O 25 de Abril é história, e é muito difícil activá-lo politicamente na sociedade portuguesa”, concluiu.

O melhor e o pior
Para Pedro Magalhães, é um facto que sobre as questões fundamentais, tais como o melhor e o pior da democracia ou o antigo regime, “não encontramos grandes diferenças entre as sondagens de 2004 e 2014”. O mesmo ocorre, disse, no esbatimento das diferenças entre esquerda e direita. Por isso, o investigador do ICS na área da opinião pública foi peremptório: “As visões do passado estão já sedimentadas, embora com excepções”.

Entre as excepções, Magalhães realçou a insatisfação com o funcionamento da democracia e a percepção de mudanças sobre a Europa e relativas ao processo de integração europeia. “Há aspectos considerados melhores — Educação, Saúde, Habitação, nível de vida, mas há domínios em que a avaliação é pior, como o desemprego, as desigualdades, a corrupção ou a insegurança”, concluiu.

Marina Costa Lobo já notara no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian que, para os inquiridos, os legados sociais são para manter — entendendo-se por legados, as alterações verificadas em domínios tão diversos como a Educação, Saúde, protecção do meio ambiente, nível de vida e outras áreas sociais.

Apesar da crise dos últimos três anos, a opinião dos portugueses, segundo o estudo, é que “as coisas estão melhor que antes do 25 de Abril”. Se o legado social é bem avaliado, os inquiridos mostram-se prudentes sobre se o Estado social estará no futuro ameaçado.