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A história da história da crise

Sem “troika”, sem as privatizações, sem a brutalidade da emigração, do desemprego e da pobreza, os nossos juros estariam hoje a baixar

Esta semana mostrou até ao osso como os liberais conseguiram difundir ideias tão simples quanto falsas sobre as origens da nossa crise. Invariavelmente, a história começa assim: há uns anos, não muitos, os socialistas governaram o país. Ah, foi um banzé desgraçado. Gastaram dinheiro a rodos e a dívida subiu. Pronto. (O facto de terem conseguido o défice mais baixo da história portuguesa não conta. Nem a crise das dívidas soberanas. Nem o estouro financeiro internacional. Nem os investimentos para superar os verdadeiros atrasos estruturais do país: educação, qualificações, tecnologia. “Psst”.).

Depois deste período negro vieram homens hirtos como espetos de virar tripa e lançaram metáforas tão perceptíveis como “arrumar a casa”, “limpar a festa socialista”, “fazer os trabalhos de casa”, “honrar os compromissos” (só com os credores, não com os pensionistas, que são muito velhos e “démodé”), ajudados por uns senhores aprumados com umas malas insondáveis, os da “troika”, que foram globalmente saudados porque vinham meter a choldra na ordem e limpar isto. Isto, os coisos e assim.

Então, até hoje, a crise infinita foi combatida com as "reformas estruturais" que estavam a ser implementadas e que iriam produzir resultados, baixando os juros da dívida. Não, nós não éramos nenhum desses países pouco cumpridores. Não, a Espanha e Itália não se iam safar sem o abanão do ajustamento. E por isso os senhores que pagaram a conta da festa socialista tinham de agir assim.

Três anos depois, eles somaram crise à crise. Nós sabemos quais são as únicas reformas estruturais que vão ficar cravadas por muitos anos: a desvalorização do factor trabalho, a baixa generalizada dos rendimentos, a extorsão fiscal, a venda apressada de bens públicos que poderiam gerar dividendos e regular. Estamos exauridos, pobres e em piores condições de enfrentar o futuro.

E os juros, não baixaram? Baixaram. Baixaram em Portugal e em todos os países mais fustigados pela crise financeira. Todos os países em dificuldades, com ou sem as (contra-)reformas que violentaram Portugal, baixaram os juros da dívida. Mais: a dívida de Espanha, sem “troika” e sem ajustamento, transaccionou em juros mais baixos do que a dívida dos EUA, a caixa-forte do mundo. E a Alemanha viu os seus aumentar.

Tudo isto acontece porque é de política que falamos. Neste caso, de política monetária, que corresponde a uma determinação política sobre a nossa vida colectiva. Dito de outra forma: sem “troika”, sem as privatizações, sem a brutalidade da emigração, do desemprego e da pobreza, os nossos juros estariam hoje a baixar.

Sucede que as acções do Governo português foram inúteis para esse efeito mas não para o programa que a direita sempre quis implementar em Portugal. Três anos depois, esta é a história da história da crise e do embuste em que nos meteram. Mas há sempre quem esteja disponível para acreditar numa outra explicação tão mais desejável, tão mais compreensível e tão absolutamente errada.