Entrevista

“No ciclismo é suposto sofrer-se, ficar-se sem fôlego”

É com um optimismo céptico que o veterano norte-americano Greg LeMond olha para o ciclismo actual. Vê uma modalidade “mais lenta e mais humana”, e duvida que não venham a repetir-se os escândalos de doping.

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Greg LeMond continua atento ao ciclismo actual DR

Não é preciso muito tempo para ficarmos impressionados com o currículo de Greg LeMond: os três títulos na Volta à França (1986, 1989 e 1990) e as duas conquistas do campeonato do mundo de estrada em 1983 e 1989 saltam à vista. Na Paris-Roubaix nunca foi além do quarto lugar de 1985, mas reconhece a mística especial da prova. O ex-ciclista norte-americano (que terá mensalmente um programa de análise na Eurosport) mantém aos 52 anos uma postura desassombrada e modesta. “Nunca me vi como superior aos outros”, disse durante a entrevista, em que também abordou a sua ausência de relações com Lance Armstrong.

O que passa pela cabeça de um ciclista antes de enfrentar o pavé da Paris-Roubaix?
Há uma concentração necessária, porque as primeiras secções de pavé são críticas. Eu preparava-me como se fosse para a guerra. Na Volta à França, em termos psicológicos, estamos no pico. Há três semanas para lidar com tudo aquilo. Aqui [na Paris-Roubaix] passa-se tudo num dia. Só temos uma hipótese.

Este ano o percurso do Tour integra secções de pavé. Que significado tem este regresso?
É angustiante saber que um erro no pavé pode deitar tudo a perder. Mas eu fico contente porque, quando corria, fiz muitas provas em pavé e adorava. Mas deixa muitos ciclistas nervosos. É positivo, talvez atraia mais espectadores do Tour para a Paris-Roubaix.

Foi o último vencedor de um Tour a correr a Paris-Roubaix, há 20 anos. Este ano o Bradley Wiggins, que também já venceu um Tour, vai fazê-lo...
Não há razão por que ele não possa vencer a Paris-Roubaix. Talvez necessite de mais experiência, mas ele tem condições para fazer uma boa prestação. A Paris-Roubaix mete muita táctica e estratégia, mas vai ser interessante ver o que ele faz. Talvez venha apenas preparar-se para o Tour, mas espero que ele corra para ganhar.

O ciclismo precisa de uma reforma? Que papel pode o Greg LeMond desempenhar nesse processo?
Houve uma altura em que desempenhei uma espécie de papel de bastidores para levar a uma mudança na UCI. Acho que [o presidente eleito em Setembro] Brian Cookson ajudou à mudança e isso irá ajudar o ciclismo. Há boas pessoas na UCI, como havia no passado. Os ciclistas têm de saber que podem confiar no sistema, porque basta existir a desconfiança de que há alguém a contornar as regras... A mentalidade mudou e espero que exista hoje mais pressão social sobre esses comportamentos.

Teve sempre uma voz activa na luta contra o doping. Como vê a situação hoje?
Acho que melhorou, mas continuo a ser um céptico. As pessoas são humanas e isso não vai mudar. Sei que parece uma loucura, mas por vezes é tão simples como ver o sofrimento dos ciclistas. E ver a diferença: a Volta à Flandres pareceu-me mais lenta. Mais humana. Isso é essencial. Vemos ciclismo durante anos e sabemos que é suposto sofrer-se, ficar-se sem fôlego. Quando não vemos isso nos ciclistas da frente...

Como se não estivessem a fazer esforço.
Por muito boa que seja a forma em que se está, sofre-se. Recupera-se rapidamente, mas não consegue chegar-se ao fim sem sofrimento. Felizmente há uma nova geração com uma mentalidade diferente. Independentemente do que aconteceu com o Lance Armstrong, o positivo é que serviu de exemplo. Quando se é adolescente e toda a gente experimenta drogas, também experimentamos. É da natureza humana. Mas não acho que as pessoas sejam inerentemente más. O facto é que era algo generalizado nos 1990s e início da década de 2000. Houve muitos castigos e vejo uma dinâmica diferente, o que não significa que não volte a acontecer.

Ficou convencido com a confissão de Lance Armstrong?
Não. Ele achava que podia fazer aquilo e as pessoas perdoariam. Mas ele fez tanto mal às pessoas. O doping foi o menor dos males, porque houve o encobrimento, as ameaças... Funcionava como o crime organizado. Não era só ele, era um grupo de pessoas.

Como é a sua relação com ele?
Ele é uma peça... A questão tornou-se muito pessoal. Não imagino o que tenha feito às outras pessoas, mas tinha algo particular em relação a mim. Foi antes de eu dizer fosse o que fosse. Sentia uma raiva contra mim, não sei por que razão. É muito manipulador. Eu não o conhecia e ele fez um grande esforço para ser meu amigo, em 1999, antes de vencer o primeiro Tour. Acho que era porque sabia que ia ganhar. Mas como é que alguém sabe que vai ganhar antes de acabar a corrida? Eu vi o que ele pretendia, que não era autêntico.

Arrepende-se de alguma opção na sua carreira?
A minha mãe sempre me disse que não dissesse nada se não tivesse nada a dizer. (risos) E que não acreditasse que era melhor do que os outros. Isso significa que se tem respeito pelos outros. Se eu tivesse outra mentalidade, talvez tivesse sido ligeiramente mais bem-sucedido. Por vezes as pessoas convencem-se que são melhores do que as outras, mas a personalidade demonstra-se durante a corrida. Nunca me vi como superior aos outros.

O jornalista viajou a convite da Eurosport

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