David Trattnig/Flickr
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Henrique Monteiro nada sabe sobre mulheres poliamorosas

O jornalista Henrique Monteiro revela-se, além de obviamente alheio a questões feministas e de igualdade de género, ignorante relativamente ao que as pessoas poliamorosas fazem e ao que se escreve e estuda sobre poliamor

A melhor forma de sabermos que uma norma existe é quebrá-la. Há cinco anos a consciência de que sou parte de diversas minorias surgia pela primeira vez em mim e comecei a fazer activismo. Descobri-me e fiz-me poliamorosa e "queer". Esse processo culminou há pouco tempo com a minha maior exposição enquanto pessoa poliamorosa, numa reportagem da SIC/Expresso. O pós-reportagem revelou-se mais pesado do que a preparação, as entrevistas, as gravações. Aqueles dez minutos de exposição televisiva trouxeram centenas de comentários de ódio colocados publicamente no post do Facebook da SIC Notícias, dezenas de pedidos de amizade de homens desconhecidos, umas quantas mensagens dos ditos homens que começavam com elogios à coragem e terminavam em assédio sexual e um texto de opinião de Henrique Monteiro no Expresso — que é, nada mais, do que o culminar do ataque da mono-normatividade — este termo a que Henrique Monteiro dá tão pouca importância.

Como já é habitual, a minha presença como mulher numa relação poliamorosa é liminarmente ignorada. Há uma mínima referência ao facto de também ter/poder ter outros companheiros — uma referência rapidamente ignorada e limitada apenas ao universo da heterossexualidade. Não passa pela cabeça que, talvez, eu não pertença a esta categoria. Isto porque, e como Henrique Monteiro refere, já é uma ideia antiga "um homem gostar de ter várias mulheres". É aqui que eu, e as outras mulheres que dão a cara, a voz e o nome pelo poliamor e/ou que vivem as suas vidas de forma poliamorosa com outras mulheres e homens, desaparecem. É aqui que nos tornamos num mero acessório referido de passagem, muito embora as nossas vidas estejam aqui expostas e em causa — e mais ainda, até, precisamente porque somos mulheres. É aqui também que Henrique Monteiro se revela, além de obviamente alheio a questões feministas e de igualdade de género, ignorante relativamente ao que as pessoas poliamorosas fazem e ao que se escreve e estuda sobre poliamor. A norma que ele tanto menospreza como de somenos importância actua nesta frase — não concebe amar sem ter (sem posse) nem concebe relação sem heterossexualidade e sem o duplo padrão que olha para os homens como garanhões (para quem mais é sempre melhor) — e que aliena as mulheres da possibilidade de quererem algo por si mesmas.

É esta hetero e mono-normatividade que o levam a descrever, em tom paternalista (não é um acaso a origem etimológica desta palavra), as mulheres apenas nas suas componentes maternais e de fertilidade ou como filhas que têm que ser protegidas. Como mulher feminista e poliamorosa eu repudio estas definições de mim. Estas definições andam de mão dada com a monogamia normativa. Ironicamente, o autor critica quem tenta impor modelos como sendo superiores, quando todo o seu texto é a defesa de um dos modelos que mais se impõe sobre a minha vida.

Numa coisa concordo com ele: poliamor não tem nada a ver com casamento. Está a anos-luz desta instituição em termos de privilégios e direitos sociais, de ideologia e configuração. Eu não estou interessada em fundir-me com ninguém, em partilhar uma mente com alguém ou só respirar quando estou a dois (ou mais). Eu sou sempre uma pessoa, mesmo quando estou sozinha, mesmo quando sou solteira, mesmo quando amo várias pessoas e várias pessoas me amam a mim. Os meus "nós" partem primeiro de mim e falam de partilha e de projectos comuns. Esta ideia de que só o amor romântico e a paixão são verdadeiras e válidas anula todas as outras formas relacionais que as pessoas estão a estabelecer todos os dias, dentro e fora das comunidades LGBT e poliamorosas. É mais uma norma. E quem não acredita que ela existe enquanto opressão, pode ir ler a caixa de comentários do post da SIC Notícias (ou até, eventualmente, os comentários que vão ser feitos a este texto que escrevo). O ódio, o nojo, a raiva e a ignorância estão todas aí, a mostrar um país que se levanta para gritar contra os amores e a diferença, mas que se deixa privar de direitos em silenciosa conivência.