Paixões quinhentistas na Biblioteca Nacional

Uma mostra, uma conferência e o lançamento da edição do Passionário Polifónico de Guimarães documentam a singularidade do canto da Paixão de Cristo em Portugal no século XVI.

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Em sintonia com a quadra pascal, a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) promove durante o mês de Abril uma série de iniciativas em torno da tradição portuguesa do canto da Paixão, conforme era praticada no século XVI.

Até 30 de Abril estará patente na Sala de Referência a mostra Os tons da Paixão: a singularidade portuguesa nas coleções da BNP; esta quinta-feira às 18h o musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso dará uma conferência sobre o mesmo tema, precedida por uma visita guiada à exposição; e sexta-feira (também às 18h) será apresentado o livro O Passionário Polifónico de Guimarães. Trata-se de imponente edição fac-similada, editada pela Sociedade Martins Sarmento, acompanhada por um estudo aprofundado (em português e inglês) e pela transcrição musical de Pedrosa Cardoso. A publicação é acompanhada por um DVD com a interpretação do conteúdo musical pelo grupo Voces Caelestes (dirigido por Sérgio Fontão), que também estará presente na BNP para um momento musical ilustrativo.

Os passionários eram livros litúrgicos que continham a música para os textos da Paixão de Cristo, que se cantavam na Semana Santa. A BNP possui alguns exemplares valiosos, tanto impressos como manuscritos, que podem ser vistos na mostra. Além do conteúdo musical, são obras de grande valor estético também do ponto de vista visual pelo que a visita se aconselha também aos não especialistas. Entre as obras expostas encontra-se, por exemplo, o Passionarium secundum ritum capelle regis Lustania (Lisboa, 1543), um dos primeiros livros de música impressa em Portugal em que o próprio autor, Diogo Fernandes Formoso, declara ter seguido ordem do rei no sentido de unificar o canto da Paixão segundo códices vigentes. Foi também neste acervo que se descobriu o primeiro vestígio do que viria a ser considerado o tom português do canto da Paixão, distinto do que era praticado nos restantes países de tradição cristã, temática que foi objecto de estudo da tese de doutoramento de José Maria Pedrosa Cardoso, publicada em 2006 pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

De acordo com este musicólogo, “evidências do modelo português podem ainda ser encontradas em mais dois impressos quinhentistas, de autores como o padre Manuel Cardoso e frei Estêvão de Cristo, e vários manuais litúrgicos do séc. XVII comprovam a prática uniforme do canto da Paixão em Portugal antes da importação dos modelos do cantochão romano realizada por ordem de D. João V”.

Uma fonte crucial neste contexto é um passionário proveniente do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (c. 1580), do qual existe um exemplar na Biblioteca da Universidade de Coimbra e outro na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. Este último serviu de base à edição fac-similada, publicada na sequência da Capital Europeia da Cultura 2012 – Guimarães, que vai ser apresentada na BNP sexta-feira com a presença de Pedrosa Cardoso, de Eduardo Magalhães (responsável pela musicografia), do musicólogo Manuel Pedro Ferreira e de Paulo Vieira de Castro. Como já foi referido, será também possível ouvir alguns exemplos musicais, interpretados pelo grupo Voces Caelestes.

O manuscrito original do Passionário de Guimarães é decorado com capitulares a ouro, com motivos fitomórficos e vegetais. Além do cantochão das Paixões segundo S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João, do pregão pascal e também das lições de matinas, na versão tradicional portuguesa apresenta algumas frases em polifonia. “Trata-se de um documento singular com particularidades assinaláveis”, refere Pedrosa Cardoso. “A primeira é a existência de alguns versículos a três vozes, especialmente alguns ditos de Cristo, que são assim enfatizados, quando o habitual era serem entoados em cantochão. A segunda é a existência de um canto monódico claramente mensuralizado, isto é, submetido a regras de ritmo muito diferenciado.”

Pedrosa Cardoso explica ainda que, a partir do século XVI, o texto do Evangelho era confiado a três diáconos cantores. “Além de executarem a três vozes os versos em polifonia, repartiam entre si o drama da Paixão, cantando em diferentes níveis de recitativo os papéis de narrador, de Cristo e dos restantes personagens do relato evangélico.” No Passionário proveniente de Santa Cruz de Coimbra, o uso da polifonia nas palavras de Jesus assume um carácter simbólico e estético, indo ao encontro das qualidades musicais dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, responsáveis por um florescente centro de actividade musical nos séculos XVI e XVII.