Crónica

No quarto de Pessoa

A compositora brasileira Adriana Calcanhotto passou a noite do passado dia 5 de Março no quarto que foi o de Fernando Pessoa nos 15 últimos anos da sua vida. Este é o texto que resultou dessa experiência. A convite da directora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa, por lá já passaram também a espanhola Rosa Montero, os brasileiros João Gilberto Noll e Tatiana Salem Levy, os portugueses Valter Hugo Mãe, Jacinto Lucas Pires, José Mário Silva, José Tolentino Mendonça, Jaime Rocha e Leonor Xavier.

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Quarto de Fernando Pessoa com a cómoda Rui Gaudêncio
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Adriana Calcanhotto, em 2008, na apresentação do seu livro Saga Lusa na Casa Fernando Pessoa. Cláudia Andrade

Escrevo à mão, de pé, com o caderno pousado sobre uma cómoda. Aquela mesma, que teve o privilégio de ser a cómoda onde Fernando Pessoa, em uma única noite, criou o poeta Alberto Caeiro, que escreveu o Guardador de rebanhos de uma tacada só. Jamais ousei sonhar com uma noite como essa, passada no quarto onde Fernando Pessoa dormiu os últimos 15 anos de sua vida.

Lembrava-me, quando estive pela primeira vez  visitando a casa, da sensação inesperada ao adentrar o quarto, de achar tudo muito pequenino, o próprio quarto, a cama de solteiro estreita, a cómoda muito simples, igual à que encontraríamos na casa de qualquer pescador, tudo extremamente austero e embora eu não houvesse criado maiores expectativas elocubrando como poderia vir a ser o quarto do poeta, não foi pequena a surpresa em relação às proporções do aposento. Que coisa impressionante sair tão grande poesia de um recinto tão pequenino. Evidentemente nada tem a ver uma coisa com a outra, do Palácio de Buckingham não saíram poemas da estatura dos dele, mas impressiona um bocadinho ao entrar-se aqui pela primeira vez, no quarto com duas janelas para a rua, com a cabeceira da cama entre elas.

Agora, aqui, a escrever sobre a mesma cómoda onde nasceu Alberto Caeiro em uma noite mágica, reparo que ela não é alta como o poeta dissera. Tem a altura normal de uma cómoda normal. Não é alta para uma cómoda antiga, nem para uma contemporânea. Por que será que ele adjetivou a peça assim? Dizendo que a cómoda onde escrevia sua poesia era alta em vez de dizer que escrevia, na sua cómoda, alta poesia? O que será que quis dizer o poeta sobre o móvel  no qual tenho agora deitado o meu caderno?

Não há cadeira no quarto, então a única maneira de escrever-se aqui é assim, de pé sobre a superfície possível de se apoiar um papel, a cómoda. Sobre a arca, cheia de manuscritos, no chão, à esquerda da porta, não seria muito cómodo, com trocadilho, por favor. E depois, a cómoda era do poeta, esta arca é uma réplica. A arca original esteve aqui no quarto por anos, agora só há a réplica e eu pergunto “mas por que”? e a resposta é sempre “não conheces a aristocracia do Porto?”

Escrever de pé dá uma certa urgência à escrita. Sentado o escritor está em estado comtemplativo, passivo. De pé estamos como que de passagem pela escrita. Para um poeta que goste de andar por sua cidade, escrever de pé o mantém ereto. Sem passadas, mas na trilha. De andar e escrever. De seguir e escrever e seguir escrevendo, de pé, nesta cómoda. Percebe-se melhor a transitoriedade do caminho. Estamos ao meio do percurso e escrevemos sem “parar” para escrever. Estamos entre uma girada e outra desta maçaneta branca, entre o almoço e o jantar. Entre uma caminhada pela cidade e outra. Entre um eu e um outro. Entre um pastel de nata e um café. Impossível não ficar olhando para esta maçaneta a imaginar quantas vezes e em que diferentes estados de espírito ele a girou para entrar aqui, pensando em Ofélia, ou logo depois de encontrá-la, depois de estar com amigos, depois de tomar uns copos. Quantas vezes a terá girado para sair do quarto desejando sair, não só para as ruas de Lisboa, mas de si mesmo. Quantas vezes a terá girado ansioso para voltar, à sua cómoda, para ser salvo pelo Barão de Tevere, para os seus eus, para a sua poesia, enorme, saída daqui, deste modesto quartinho da Rua Coelho da Rocha. Impossível não ficar a imaginar.