Ministros das Finanças e da Economia franceses vão a Berlim explicar-se

Michel Sapin e Arnaud Montebourg querem provar que a França há-de cumprir o défice - embora não no prazo acordado - e que o país precisa de crescer.

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Michel Sapin e Arnaud Montebourg têm uma missão difícil LIONEL BONAVENTURE/AFP

Michel Sapin diz que não vai abordar com o todo-poderoso Wolfgang Schäuble, que tem à sua guarda as finanças alemãs, o tema do défice francês – Paris já obteve dois adiamentos para o objectivo de o fixar abaixo do limite de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e o último compromisso foi de cumprir o prazo em 2015. Mas este permanece teimosamente elevado, 4,3%.

França mantém os seus compromissos, afirma o novo ministro das Finanças, que substituiu no cargo Pierre Moscovi na semana passada. “O que será discutido é o caminho, o ritmo da redução dos défices.” Mas afirmou que Bruxelas é que é o local indicado para ter essa discussão, e não Berlim.

Essa intenção levantou imediatamente sinais de alerta. “Comprometer a regras comprometerá também a confiança” dos mercados, avisou Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu. Na semana passada, a Comissão colocou a economia francesa sob vigilância reforçada, lado a lado com outras economias doentes ou convalescentes da zona euro.

Não são bons augúrios para o novo Governo francês dirigido por Manuel Valls, ainda a arrumar a casa. Mas a visita à Alemanha cumpre apenas a tradicional visita de cortesia e coordenação com o outro parceiro do eixo franco-alemão no seio da União Europeia, garante fonte do gabinete de Sapin à AFP. Vai simplesmente promover junto do seu parceiro o Pacto de Responsabilidade de François Hollande, que implica reduções dos impostos pagos pelas empresas, a troco de um aumento das contratações, para lutar contra o desemprego.

Quanto a Arnaud Montebourg, tem-se notabilizado pela oposição à política de austeridade comandada a partir de Bruxelas – os “austeritários”, como lhes chama.” Vai encontrar-se com o ministro da Economia social-democrata, Sigmar Gabriel, e com empresários, mas a estratégia que tem a seu cargo no novo Governo francês é a relançar o crescimento económico. “A Europa vai mudar”, assegura. “Está toda a gente preocupada. Chegou o momento de fazer mudar um certo número de decisões na União Europeia.”

Montebourg invoca o exemplo de Matteo Renzi, o novo primeiro-ministro italiano, que começou por considerar o pacto de estabilidade europeu – para manter o défice nos países do euro abaixo de 3% do PIB – como um “pacto de estupidez", e anunciou uma baixa nos impostos no valor de dez mil milhões para os italianos com menos recursos, mantendo no entanto o compromisso de Roma de manter o défice abaixo do limite dos 3%.

Se é preciso satisfazer as exigências de Bruxelas, o Governo tem também de enviar sinais apaziguadores para o ânimo dos cidadãos franceses, que lhe deram uma bela bofetada nas eleições municipais do fim de Março. Terça-feira o novo Executivo submete-se ao voto de confiança no Parlamento e há uma centena de deputados socialistas que assinaram um manifesto contra o caminho escolhido pelo Presidente – que consideram uma viragem à direita em vez de guinar à esquerda. Não há expectativas sérias de que o Governo de Manuel Valls tropece no Parlamento – mas o novo primeiro-ministro terá de dar apresentar algumas medidas concretas e convincentes.