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Liftbook: a rede social dos reformados

Ora, não é de hoje que aos reformados se atribui um rótulo de velhice, claramente expresso nas rugas que lhes cobrem o rosto, marcado por uma vida de trabalho. Se é deles que a rede viverá, que “face” será esta que aparecerá no “book”?

Sempre ouvi dizer que as novas tecnologias são de difícil aceitação pelos mais velhos; há algo nos nós dos dedos ou nos pontos negros do nariz que lhes dificulta a vida. Pois, que será deles agora?

Dizer rede social, hoje, é falar do Facebook. Há, e tal, há outras; sim, mas não. A que conta é o Facebook. E se queremos ser alguém nas redes sociais, temos de ser alguém muito especial no Facebook (em alternativa, podemos sempre conversar, mas isso dá trabalho).

Após uma proliferação desmedida que, como investigadores de Princeton descreveram, é própria de uma doença infecciosa, estamos perante um ataque fulminante da sociedade portuguesa à menina dos olhos do Mark (esse tal que tem um salário de um dólar por ano). Senão, vejamos.

Parece consensual dizer-se que o Facebook é prejudicial ao trabalho. Alías, o acesso ao Facebook em horário de trabalho pode até ser usado em processos de despedimento com justa causa. Não será uma ferramenta de trabalho, certamente. Mas soubemos agora pela Isabel que, para quem não tem trabalho, é também uma fonte de ilusão, de uma vida que não nos pertence, que limita o tempo dedicado à procura de emprego.

Bom, restará o seu uso nos tempos de lazer. Porém, são diariamente citados estudos que defendem o prejuízo para as relações interpessoais (e, principalmente, as familiares) associado à dedicação às redes sociais em detrimento do contacto humano e das actividades em família. Vale mais, portanto, esquecer também tal utilização.

Servirá, enfim, aos estudantes, estrato não espartilhado pela inevitabilidade do trabalho enquanto medidor de bem-estar e progresso? Nem isso. Ainda esta semana tivemos o Nuno defender a limitação de acesso às redes sociais durante o período escolar; distracções, dir-se-á. Excluam-se.

Sobram as crianças em idade pré-escolar e os adultos em idade pós-laboral. Se as primeiras, por razões óbvias, estão longe de representar um corpo de utilizadores que sustente o negócio do Mark, então não lhe restará alternativa senão dedicar o Facebook aos que já nada têm para fazer (ou melhor dito, dinheiro para o fazer): os reformados.

Ora, não é de hoje que aos reformados se atribui um rótulo de velhice, cada vez mais acentuado com o aumento da idade da reforma, e claramente expresso nas rugas que lhes cobrem o rosto, marcado por uma vida de trabalho e sofrimento em prol da prole. Se é deles que a rede viverá, que “face” será esta que aparecerá no “book”?

Pois, e que será deles agora? Depois de tantos anos, tantos anos a avisar das dificuldades da aceitação da tecnologia, cai-lhes agora no colo a responsabilidade de sustentar a maior rede social do mundo. Mais uma vez, os escolhidos para o sacrifício...

Mark, se me ouves, e não queres (como anunciado pelos profetas de Princeton já citados) que a tua menina definhe nos próximos anos, sugiro-te que a repenses, pelo menos em Portugal. Quem sabe um pequeno “lift” não resolveria a coisa... estou certo que a Lili te poderá ajudar nessa luta.

Ou então faz como o Bill, doa 95% de tudo e dedica-te à pesca. Em Portugal, não terás vida fácil.