Opinião

Durão, Constâncio e o BPN

Vítor Constâncio já esteve 12 horas a responder no Parlamento? Que esteja 24. Um caso como o BPN não pode voltar a acontecer.

Como ontem explicava no PÚBLICO o jornalista Sérgio Aníbal, o mais curioso na frase que Durão Barroso deixou cair sobre Vítor Constâncio na entrevista ao Expresso não é tanto o seu conteúdo mas a forma como foi proferida.

Segundo contou Ricardo Costa, autor da entrevista, a conversa “formal” já tinha acabado, e foi a caminho do seu gabinete que Durão Barroso resolveu lamentar-se: “Foi pena não me ter perguntado mais nada sobre o BPN.” E, vai daí, decidiu responder ao que não lhe perguntaram com uma frase assassina – “Eu, quando era primeiro-ministro, chamei três vezes o Vítor Constâncio a São Bento, para saber se aquilo que se dizia do BPN era verdade”. Com três tiros à queima-roupa no ex-governador do Banco de Portugal, é muito difícil invocar homicídio involuntário.

Talvez nunca venhamos a saber por que é que Durão Barroso se lembrou de nos informar agora que, afinal, o assunto BPN já era motivo de preocupação para o Governo algures no intervalo 2002-2004, quando ele foi primeiro-ministro. Nestas coisas da política, nós, peixinhos pequenos, raramente chegamos a saber o que é que o cherne está a planear. Pode ser uma biqueirada da Comissão Europeia no Banco Central Europeu (onde Constâncio é actualmente vice-presidente), pode ser porque o PSD quer voltar a meter o BPN na agenda em ano de eleições, pode ser porque Barroso deseja muito que o país volte a reparar nele. Não sei ao certo. Mas isto, eu sei: não se pode ignorar a relevância daquela informação.

Recorde-se que a primeira busca realizada ao BPN se realizou em Outubro de 2005, no decorrer da Operação Furacão. Nessa altura, uma misteriosa fuga de informação impediu a apreensão de documentos essenciais sobre o Banco Insular, que só foram descobertos muito mais tarde, numa fábrica abandonada em Vila das Aves. Em tribunal, houve quem argumentasse que, sem essa fuga, a investigação ao BPN poderia ter começado no início de 2006, e não em 2008. Só que aquilo que esta nova fuga descarada de Durão Barroso nos vem dizer é que, afinal, a investigação poderia ter começado muito antes, em 2003 ou 2004.

Em bom rigor, aliás, o caso BPN poderia e deveria ter começado em Março de 2001, quando a revista Exame, então dirigida por Camilo Lourenço, fez capa com o banco, chamando a atenção para inúmeros problemas. Na sequência dessas notícias, o BPN processou a revista. Quando ouvido no Parlamento, em 2009, Camilo Lourenço garantiu que “a primeira informação credível de que algo de grave se passava no BPN veio do próprio Banco de Portugal”. Durão Barroso é, pois, apenas mais um no coro daqueles que têm argumentado que o Banco de Portugal passou dez anos a dormir. A diferença é que a sua voz se faz ouvir mais alto do que as outras.

Mas ainda bem que assim é. Nicolau Santos perguntou, numa coluna online do Expresso, intitulada Abriu outra vez a caça ao Constâncio, o que é que era mais grave: “a actuação do polícia ou dos ladrões?” É óbvio que o mais grave é a actuação dos ladrões, e todos sabemos a que partido a maior parte deles pertencia. No entanto, ladrões sempre houve, há e haverá, e não podemos fazer muito contra isso – embora condená-los antes de os crimes prescreverem não fosse má ideia. Agora, a eficácia da polícia e da supervisão é, de facto, aquilo que mais nos deve preocupar, porque essa, sim, só depende de nós. Vítor Constâncio já esteve 12 horas a responder no Parlamento? Que esteja 24. Um caso como o BPN não pode voltar a acontecer.