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Eric Frattini: um espião sem Governo ao serviço da Verdade

Eric Frattini não é só jornalista. É um espião sem governo que lhe dê ordens. É um espião ao serviço da Verdade

Colecciono os livros de Eric Frattini há nove anos, desde o já esgotadíssimo "Santa Aliança: Cinco Séculos de Espionagem no Vaticano". Rapidamente se tornou num dos meus jornalistas predilectos, por encerrar em si uma aura de espião disfarçado de escritor. Em meados de 2013, quando o conheci pessoalmente, contive-me ao máximo para não deixar transparecer a um nível exagerado a minha admiração pelo seu trabalho. Mas a afabilidade e simpatia de Frattini autorizaram-me a entrar em contacto consigo para o entrevistar, agora que mais um livro com a sua assinatura será lançado em Portugal.

Eric Frattini agarrou o jornalismo de investigação pelos colarinhos quando trabalhou como correspondente no Médio Oriente. “A investigação está unida ao jornalismo em todos os momentos, escrevas uma coluna ou tenhas um programa de rádio ou televisão. Quando escreves sobre algo, tens de documentar-te”, observa. “O problema é que nos meios de comunicação do século XXI, a investigação deixa-se de lado por ser muito cara”, já para não dizer que “o grande mal do jornalista de investigação é que existe uma suspeita imediata sobre os seus trablhos, por poderem ser condicionados pelo proprietário do órgão de comunicação”. Por tudo isto, Frattini decidiu tornar-se independente, escrevendo livros “sobre assuntos que carecem de escrutínio”. “No meu caso, não obedeço a nenhum empresário e muito menos a partidos políticos. Isso permite-me publicar em 41 países diferentes. Possuíres liberdade económica oferece-te liberdade de escolha nos temas que pretendes investigar”, conta.

Frattini reconhece que, nesta profissão, existem ameaças possíveis e perenes. Ainda assim, acredita que “o jornalista de investigação só deve ter medo dos processos judiciais de que possa ser alvo”. O autor peruano teve já alguns episódios com a justiça, mas a ameaça mais violenta aconteceu em 2004. Frattini conta melhor a história: “após os atentados de 11 de Março, em Madrid, a polícia descobriu o meu nome escrito num papel encontrado em casa do irmão de um dos terroristas. Nessa altura, eu estava a fazer investigação sobre os ataques num canal televisivo. A polícia aconselhou-me a tomar medidas de segurança várias, como não ir buscar o meu filho ao colégio, mudar os meus trajectos de automóvel, entre outras. Desde então, tenho licença de porte de arma”.

No jornalismo, há duas regras de ouro: encontrar fontes fidedignas, mantendo com elas uma relação sólida, e procurar sempre o contraditório de uma alegação. Frattini cumpre-as a um nível com que muitos de nós podem apenas sonhar. “[Com as fontes], tenho um lema que diz que eu lavo a tua mão e tu lavas a minha. Tem de haver 100 por cento de confiança e as fontes devem ser sempre protegidas.” Só assim se conseguem contactos deste calibre: “desde oficiais dos serviços de inteligência, incluindo portugueses, a membros de grupos como o Hezbollah ou Harakat ul Mujahideen, passando por oficiais do Vaticano ou membros das Nações Unidas”. Para os contraditórios, “tenho reuniões e encontros com membros da Cúria vaticana, almoço com membros dos serviços secretos ou das forças de segurança, falo com antigos membros da Máfia italiana e assassinos colombianos, entrevisto grupos islâmicos no Líbano, Paquistão, Palestina ou Egipto. Todas são boas fontes. A única coisa que deves ter em consideração é que as suas informações estejam o menos contaminadas possível”. Em suma, “se quebras estas regras no jornalismo de investigação, estás morto.” Acredito que o sentido destas palavras seja literal.

Eric Frattini ficou (ainda mais) famoso por ter previsto que Bento XVI renunciaria ao seu cargo, cinco meses antes do sucedido. “Disseram que estava louco”, afirma, “que nenhum Papa renuncia”. Mas aconteceu. E, depois disso, Frattini deu 141 entrevistas a órgãos do planeta inteiro. “A grande questão é que não li cartas de tarot para chegar a esta conclusão. Usei fontes dentro do Vaticano e recorri a documentos que diziam que o Papa já teria falado muitas vezes dessa hipótese”, revela. Com um Papa novo há um ano na cadeira de São Pedro, Frattini não se deixa iludir: “até agora tem sido um pontificado de desejos, de boas palavras, mas não um pontificado de feitos”. Para o jornalista, Francisco tem apenas boa imprensa. “Mas espero muito mais dele. Quando se fala de um novo Vaticano em que não acontece um único caso de pedofilia, mas se nomeia cardeal um tipo como o chileno Ricardo Ezzatti, que é um encobridor de pedófilos… Por agora, nada de novo no Vaticano”. Resta a esperança: “Pode ser que mude, porque muita gente, crente e não crente, tem colocado muitas expectativas em Francisco”.

"CIA: Jóias de Família" será editado em Portugal no próximo dia 4, pela Bertrand, e traz um bónus dos grandes. “Quando a editora me pediu para editar este livro aqui, pedi a Jorge Silva Carvalho [ex-director do Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa] que escrevesse o prólogo. A verdade é que o seu texto é muito polémico e vai dar muita dor de estômago aos políticos portugueses”. Digo eu: os portugueses mal podem esperar, Eric.

Frattini já escreveu sobre todos os temas obscuros que se possa imaginar. Mas ainda falta escrever muito mais: “Há muitas coisas por escrever porque há muitas coisas que estão por investigar. Acabei há pouco de escrever um livro de 948 páginas sobre a história d’A CIA no Vaticano, desde 1945 a 2013. O texto está acompanhado de 92 documentos ‘top secret’ da CIA sobre o Vaticano”. Uma coisa é certa: Eric Frattini não é só jornalista. É um espião sem governo que lhe dê ordens. É um espião ao serviço da Verdade. E tem-no conseguido ser como ninguém.