Manuel Valls, um político que ocupa a o palco todo

Aliado de Ségoléne Royal, exímio utilizador das artes da comunicação política e, sobretudo, ambicioso. O novo primeiro-ministro francês é um trunfo e um risco para o Presidente Hollande.

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Valls em campanha nas primárias de 2011 FRED DUFOUR/AFP

Manuel Valls é o novo primeiro-ministro francês. Voltará a ser o director de comunicação de François Hollande, tal como durante a campanha das eleições presidenciais? O Presidente que bate recordes de impopularidade bem precisa dos talentos deste político ao qual são reconhecidas capacidades de gerir a sua imagem e a sua presença. Mas ficará este catalão ambicioso satisfeito de permanecer na penumbra de Hollande? Os que o conhecem dizem que ele tem alma de actor principal, torna-se facilmente o protagonista

“Se houver um espaço livre, Valls ocupa-o. Ele ocupa tudo o que houver para ocupar. Se não o travarem, ele continuará”, disse um íntimo de Manuel Valls, citado num artigo apropriadamente intitulado “a estratégia do bulldozer”.

O até agora ministro do Interior do governo de Jean-Marc Ayrault construiu durante os seus quase dois anos no Palácio Beauvé, mesmo em frente ao Palácio do Eliseu, no centro de Paris, uma popularidade que não é inédita para um governante com a sua pasta – pense-se em Nicolas Sarkozy, por exemplo. Mas ele teceu a sua personagem de “primeiro polícia de França” com uma mistura de ideologia e de carácter muito própria, surpreendentes num ministro socialista, mas que revelam talvez o gosto francês por um homem de autoridade – como se o fantasma do general De Gaulle continuasse a pairar nos espíritos.

Manuel Valls está sempre nas notícias. Desastres naturais, apreensões de drogas, motins nos subúrbios, evacuações de acampamentos ilegais de ciganos, criação de uma Zona Prioritária de Segurança. A intenção é mesmo criar a ideia de “movimento contínuo, de uma guerrilha ideológica cujos temas são a insegurança, a imigração, a defesa da laicidade”, tudo uma estratégia de comunicação, explicam os jornalistas do Le Monde no livro Valls, à l'intérieur, publicado em Janeiro.

Admirador de Rocard
Há cinco anos, praticamente ninguém conhecia este político de 51 anos, nascido em Barcelona, de mãe suíça italiana e pai artista plástico catalão, que se envolveu na política muito cedo. Aos 18 anos, quando chegou à Faculdade, para estudar história – no que hoje é designado como Universidade de Paris 1, Panteão – Sorbonne, mas em 1980 era simplesmente chamado Tolbiac – era já filiado no Partido Socialista.

Ali encontrou dois amigos que duram até hoje: Stéphane Fouks, patrão de uma das grandes empresas de comunicação política e empresarial, a Euro RSCG, e Alain Bauer, professor de criminologia e consultor de segurança, que mudou de campo: tornou-se conselheiro de Nicolas Sarkozy.

Em Tolbiac começou a sua actividade política. Mas não era François Mitterrand que o encantava. Apoiava Michel Rocard, o líder da maior corrente rival da de Mitterrand no PS francês.

Rocard opunha-se às nacionalizações das empresas a 100% que advogou Mitterrand, quando foi eleito Presidente da República, em 1981. A sua tendência no seio do PS defendia que os socialistas franceses deviam aceitar mais claramente a economia de mercado e partir para uma maior descentralização, inspirando-se nas social-democracias escandinavas.

Embora tenha chegado a ser primeiro-ministro de Mitterrand, a tendência de Rocard sempre foi minoritária no PS francês, tal como a posição de Manuel Valls, habituado a estar do lado errado da maioria de opinião dos seus confrades.

Valls era praticamente um desconhecido até há cinco anos. Foram as posições críticas em relação ao PS que assumiu em 2009 que o trouxeram para a ribalta, quando criticou o “anti-sarkozysmo obsessivo” do partido no seu blogue. Martine Aubry, então líder do partido, escreveu-lhe uma carta pública aplicando-lhe um correctivo, que dizia algo como ou amas o partido ou deixas o partido. Ele respondeu-lhe à letra e ela contra-respondeu – até que chegaram a um acordo.

Ségolène, Hollande…
Este não é, no entanto, o único confronto entre Aubry, conotada com a ala esquerda do partido, e Valls, a quem chamam o “sarkozysta do PS”.

O homem que entrou no PS por admirar o líder de uma corrente minoritária nunca receou defender ideias que não eram maioritárias no PS. Por isso considerou boa ideia deitar-se fora a lei das 35 horas semanais, posta em prática por Martine Aubry, quando foi ministra do Trabalho de Lionel Jospin. Ou até, num artigo publicado no Financial Times, que seria boa ideia deixar a cair a palavra “socialista” do nome do partido, para “promover uma modernização radical da ideologia do partido, para o qual poderíamos encontrar um nome melhor”.

Esta insolência tornou-o conhecido, deu-lhe mais espaço para ocupar, em termos mediáticos e não só. Apoiou Ségoléne Royal quando esta disputou – sem sucesso – a liderança do PS a Martine Aubry no congresso de Reims, en 2008. E em 2011 apresentou-se ele próprio nas primárias do partido para escolher o candidato que disputaria as eleições presidenciais com Nicolas Sarkozy. Como seria de esperar, não teve grande resultado: apenas 6% dos votos. Alinhou-se com François Hollande – começou ali a aliança que o conduziu a Matignon, a sede do Governo francês.

Carisma e autoridade
Valls foi o director de campanha de François Hollande. Daí as reacções sublinhando que a sua chamada à chefia do Governo se trata de um golpe de comunicação política – poria os seus talentos ao dispor de um Presidente que até agora tropeçou mais do que teve sucesso nas políticas que apresentou aos franceses.

Mas isso seria desprezar o carisma de um político que consegue ser mordaz e que sabe fazer valer a sua autoridade – bem ao contrário de Jean-Marc Ayrault, a quem se censurava a incapacidade de coordenar os seus ministros, quando não de os pôr mesmo na ordem, quando se envolviam em disputas internas que transbordavam para público.

Essa autoridade, “que tanta falta faz ao Presidente”, como escrevia David Renault d’Allones, o jornalista do Le Monde que acompanha normalmente Manuel Valls”, pode alterar de forma significativa a percepção que os cidadãos têm do Governo – ainda que não seja de esperar mudanças na política.

É para manter o Pacto de Responsabilidade, que prevê um alívio nos impostos cobrados às empresas e aos trabalhadores independentes no valor de 30 mil milhões de euros, para incentivar o emprego e a produção, e economias de 50 mil milhões de euros na despesa pública até 2017 – para satisfazer Bruxelas e reformar o Estado, avisou Hollande. A Comissão Europeia não tolerará alterações.

Aliados à esquerda
Valls tem cortejado a esquerda do PS no Governo, tem feito aliados – que podem ser só de circunstâncias, mas serão o necessário para governar – pelo menos desde Novembro, quando foi consultado pela primeira vez pelo Presidente Hollande sobre a possibilidade de o nomear primeiro-ministro.

Um aliado importante – e rival – é Arnaud Montebourg, o ministro da Indústria. Tem exactamente a mesma idade que Valls, também concorreu às primárias do PS (teve 17%) e tem claras ambições de vir a ocupar o Eliseu, embora a sua sensibilidade seja bem mais à esquerda. Nos últimos tempos, ele e Valls multiplicaram saídas para o terreno juntos, como “ministros de combate”, fazendo campanha nas eleições municipais, por exemplo. Um pacto de colaboração entre rivais?

Os trunfos obtidos por Valls no Ministério do Interior junto dos eleitores de direita, investindo na visibilidade de temas de segurança e imigração – assuntos caros a Sarkozy e à extrema-direita – podem no entanto vir a custar-lhe pontos à esquerda. O grande número de destruições de acampamentos ilegais e de expulsões de ciganos, denunciados por organizações humanitárias e pela Comissão Europeia, que o levou a produzir uma pérola discursiva como “os ciganos têm vocação a regressar aos seus países” levou os dois ministros ecologistas a recusarem-se a fazer parte do seu governo.

Esta quarta-feira vai conhecer-se a composição do novo Governo, mas há uma figura em quem se aposta forte que estará lá: Ségolène Royal. Valls apoiou-a contra Martine Aubry, e subiu ao palco do congresso de Reims para denunciar que havia fraude no processo eleitoral. A ver.