Erdogan ameaça adversários e celebra vitória da “nova Turquia”

Oposição contesta resultados na capital e acusa primeiro-ministro de querer dividir o país.

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Erdogan tinha transformado estas eleições num referendo à sua governação Kayhan Ozer/AFP

Os turcos votaram domingo em eleições municipais mas sabiam que em causa estava muito mais do que decidir quem governaria a partir de agora as suas autarquias. Sentindo-se ameaçado, Erdogan fizera destas eleições um referendo à sua governação e ao seu futuro político. Os turcos deram-lhe uma vitória retumbante: com 98% dos votos contados, o seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, pós-islamista) reuniu 45,6% e manteve as câmaras das principais cidades, como Istambul e a capital, Ancara.

Desde Dezembro que se sucedem revelações comprometedoras para o primeiro-ministro, incluindo escutas que o envolvem num escândalo de corrupção. No fim da campanha, a crise chegou a um novo nível, com a gravação de uma conversa entre responsáveis da segurança que discutiam uma possível intervenção na Síria a ser publicada anonimamente no YouTube. O Governo, que já mandara bloquear o Twitter, onde as escutas começaram por ser publicadas, fez o mesmo com o site de partilha de vídeos.

Erdogan responsabiliza Fethullah Gülen, o líder religioso que chefia uma rede global de escolas. Ex-aliados desavindos, Gülen estaria agora a usar o poder que o primeiro-ministro o ajudou a erguer – colocando seguidores em altos cargos do poder judicial e da polícia com o objectivo de enfraquecer o Exército – para o atacar.

Vitorioso, Erdogan sente-se vingado. “Estes resultados mostram quem ganhou, mostram quem perdeu. A política imoral perdeu. A política baseada em gravações falsas perdeu”, disse. “Vamos entrar no seu covil, eles serão responsabilizados”, prometeu, numa intervenção perante apoiantes do AKP. “A partir de amanhã, pode haver alguns que fujam”, ameaçou.

O primeiro-ministro ainda se dirigiu à principal formação da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP, centro-esquerda, bastião da Turquia secular), e sugeriu que deve olhar-se ao espelho: “A velha Turquia acabou. A nova Turquia está aqui”.

“Ficou claro com o seu discurso que ele está a ameaçar a sociedade”, reagiu Gursel Tekin, vice-presidente do CHP. “Isto mostra que o seu estado mental não é de confiança, estas ameaças óbvias não são aceitáveis”, defendeu. “Nada será como antes. O primeiro-ministro escolheu a via da divisão”, comentou o líder do Movimento Nacional (MHP, extrema-direita), Devlet Bahçeli, que ficou em terceiro, com 15% dos votos.

O CHP obteve 28% dos votos e pretende recorrer dos resultados na capital e em Antakya, onde considera que houve fraude. Em Ancara, os candidatos do AKP e do CHP proclamaram à vez a vitória, com os últimos resultados a darem 44,8% ao partido no poder e 43,9% ao da oposição.

“A resposta de Erdogan está a chegar”, antecipa o presidente do think tank Tesev, ouvido pela Reuters. “Ele vai limpar com dureza a polícia e o aparelho judicial. Vai fazer uma purga na imprensa que apoiou as fugas. Certamente que vai fazer isto. Vai dizer ‘Eu fui eleito para os eliminar’, e não vai abrandar.”

Alguns analistas também já ouviram no discurso de Erdogan a confirmação de que será candidato às presidenciais de Agosto, a primeira vez que os turcos vão escolher o chefe de Estado em eleições directas. Se o fizer, antecipa Soner Cagaptay, analista do Washington Institute, vai também “tornar-se mais autoritário”, enquanto “a Turquia se vai polarizar, com risco de motins”.