Vamos ao telhado buscar a salada

Há uma revolução prestes a trazer a agricultura para dentro das cidades. Mais precisamente, para o topo dos nossos prédios.

Uma estufa no telhado do Clube VII, em Lisboa, para produzir girassol, ervilha e erva-trigo é o projecto de João Afonso Henriques para 2014, Ano Internacional da Agricultura Familiar. É, espera o fundador da Urban Grow, só o princípio de uma revolução que vai trazer a agricultura para dentro das cidades.

Quando olha para uma cidade — vamos pensar em Lisboa, onde vive — João Afonso Henriques vê um futuro em que os telhados se cobrem de vegetais de todas as formas e feitios, alfaces, tomates e rabanetes espreitam pelas janelas das casas mesmo nos andares mais altos, paredes enchem-se de legumes que crescem sem precisarem de terra, e a produção local é distribuída em bicicletas eléctricas.

Pode ser uma imagem idílica de um maravilhoso mundo novo, de agricultura local, saudável e sustentável, mas João — “inventor agrícola”, como ele próprio se descreve, e criador da empresa Urban Grow — acredita que é possível e já dedicou vários anos a tentar provar isso mesmo.

Agora, naquele que as Nações Unidas estabeleceram como o Ano Internacional da Agricultura Familiar, a mensagem que tem vindo a tentar passar desperta cada vez mais interesse (basta ver o sucesso dos seus workshops de agricultura urbana, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa). Mas 2014 é também o ano em que, depois de vários projectos na área da aquaponia e bioponia (já explicamos tudo isto), João se focou num projecto muito particular, que está prestes a lançar publicamente: os biovivos.

Encontramo-nos na estufa da faculdade, junto ao Campo Grande, onde João desenvolveu algumas das suas experiências.

Em cima das mesas estão vários tabuleiros com microlegumes: os mais espigadinhos, semelhantes a uma relva alta, são erva-trigo, o “ingrediente-maravilha” dos sumos detox que se tornaram moda recentemente; os outros, com folhas arredondadas e aspecto mais despenteado, são ervilhas. O João produz também girassol, mas de momento não há nenhum aqui.

“Não quero produzir microlegumes”, diz. “O que eu quero é fazer microfábricas de proteína vegetal com baixas calorias, aminoácidos, vitaminas, antioxidantes e ácido fólico. Não quero produzir plantas, quero criar microfábricas de força vital. Quero criar a melhor solução de produção de nutrientes localmente e de forma sustentada.” Fala em “força vital” porque é este o conceito que surge associado à ideia de plantas muito jovens, que têm toda a sua energia concentrada, mas frisa que se trata de algo que não é mensurável cientificamente, por isso prefere focar-se nas vitaminas e outros componentes que podem de facto ser medidos.

Dos microlegumes aos biovivosAnteriormente, João tinha uma horta na qual produzia microlegumes gourmet — rabanetes, tomates e alfaces, por exemplo — para fornecer a restaurantes e chefs. Mas agora a sua perspectiva é outra. Não quer vender alimentos, quer vender saúde. Aponta para um dos tabuleiros. “Apesar de aquilo serem microlegumes de ervilha, podemos vê-los como a melhor fonte de vitamina C e proteína com baixas calorias, antioxidantes e ácido fólico.”

O girassol, por exemplo, “tem mais antioxidantes que os frutos vermelhos”, garante. “As amoras, framboesas, mirtilos ajudam na luta contra o envelhecimento, mas demoram seis meses a crescer e têm um custo extremamente elevado para a quantidade de antioxidantes que oferecem. Com o girassol, temos uma dose de antioxidantes superior por cada 100 gramas, e que cresce em 20 dias.”

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João Afonso Henriques com os biovivos de ervilhas

Em casa, diz, tem um tabuleiro em cima da mesa de trabalho e vai comendo os rebentos de ervilha, que usa também em sanduíches, em omoletes ou, juntamente com duas laranjas, para fazer um sumo que representa 100% da dose diária recomendada de vitamina.

Quando apresenta o seu produto num restaurante, tem vários argumentos: “Comecei com os microlegumes, mas estes, como já foram colhidos, estão mortos, enquanto os biovivos só morrem na altura em que o chef os corta e vão para a salada ou outro prato. Só são utilizados quando é preciso e por isso não há desperdício. E depois, quando digo que um tabuleiro destes equivale a um quilo de alface, meio quilo de espinafres e duas laranjas, as pessoas ficam impressionadas.”

A primeira apresentação destes produtos acontecerá a 5 de Abril durante o Sangue na Guelra, um evento-satélite do festival Peixe em Lisboa, em que as estrelas são os subchefs dos grandes restaurantes do mundo. E em Maio o produto deverá estar à venda nos supermercados biológicos Brio (com um preço de lançamento de 1,55 euros por tabuleiro, que subirá depois para os 2 euros; um tabuleiro deverá ser consumido no prazo de uma semana para manter as características ideais).

Qual é, então, a diferença entre os biovivos e os germinados, que começaram também nos últimos anos a aparecer no mercado? João abre uma caixa de plástico colorida onde tem as sementes de ervilha dentro de água. “Isto que tenho aqui são os germinados, cresceram num sítio escuro e quentinho, que é o autêntico spa das bactérias. Na minha perspectiva, é preciso termos muito cuidado com os germinados crus, porque lavamos a semente por fora, mas é quando ela rebenta que aparecem as bactérias.” Os biovivos são uma fase mais avançada dos germinados que, segundo João, mantêm muitas das características boas destes mas já deixaram o tal “spa de batérias”.

Fiel à sua ideia de aproveitar os espaços urbanos (até porque a sua formação original é de design, depois aplicado à agricultura), prepara-se para criar a “primeira estufa de telhado biocertificada da Europa”, no cimo do ginásio Clube VII, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. É aí que vão crescer os biovivos, que serão depois utilizados na cafetaria do clube. “Vamos espalhar várias estufas na cidade e fornecer os biovivos o mais localmente possível.”

O modelo que João Afonso quer implementar passa muito por sítios como clubes e ginásios (a ideia é aliar a nutrição e a saúde), mas também por hotéis. “Vamos imaginar um hotel. Pego na lista de produtos que usam na zona de restauração, vou analisar o telhado e outras zonas de cultivo que possam ter no edifício e vou tentar produzir os inputs da cozinha deles no próprio edifício.”

Se o hotel usar produtos gourmet, tem ainda mais vantagem, afirma. “Se eu fizer um sistema para produzir alfaces, vou conseguir pagá-lo em três anos, se fizer um sistema para produzir morangos azuis, rabanete preto ou rabanete melancia, paga-se em seis meses. Porque é um produto raríssimo, com um valor de mercado muito mais elevado. O desafio que lanço a todos os hotéis é que tenham coragem para começar a desenhar os seus modelos de autocultivo. Não precisam de mandar vir o produto de distância e têm-no a crescer no próprio hotel.”

Uma cidade agrícolaJoão foi criando esta imagem de uma cidade agrícola, cheia de espaços verdes onde crescem alimentos, durante os últimos anos, em que se dedicou a criar sistemas de produção de vegetais sem terra, usando a água como “solo”. Aqui na estufa da faculdade vêem-se também alguns exemplos. “O meu objectivo era que toda a gente começasse a ter uma plantinha em casa e a partir daí desenvolvesse o seu sistema de compostagem e começasse a criar um modelo de autocultivo para ter uma alimentação de melhor qualidade e reduzir custos. Jardinagem faz muito bem, mas não é o suficiente para a auto-subsistência.”

Tornou-se crítico das hortas urbanas que se vêem em várias zonas da cidade, porque considera que esses vegetais actuam sobretudo como biofiltros e retêm toda a poluição. “Tenho a certeza de que as hortas ao lado do IC19 não vão alimentar as pessoas.” Mas a poluição não chega também às hortas nos telhados? “Temos que ter a consciência de que a qualidade do ar nas cidades é péssima e por isso estou a desenvolver uma solução realista que é a de termos estufas em que o ar que entra é sempre filtrado. Os custos são mais elevados, mas temos a certeza de produzir alimentos saudáveis.”

Durante vários anos fez experiências para a produção de legumes com sistemas de hidroponia — ou seja, substituindo a terra por água, na qual são colocados os nutrientes necessários às plantas. Estudou profundamente o assunto, fez uma tese sobre a hidroponia na região Oeste e concluiu que a maioria dos agricultores faziam hidroponia em sistema aberto, desperdiçando enormes quantidades de água. “Com uma pequena mudança, que passa por fechar o ciclo, temos um sistema que poupa 90% de água.”

Foi assim que se interessou pela aquaponia, que na sua forma moderna surgiu nos anos 1960 no New Alchemy Institute, em São Francisco. Trata-se de um sistema fechado em que os dejectos dos peixes são transformados por bactérias em nitratos, que as plantas usam como nutrientes. “As bactérias transformam a água dos peixes em comida para as plantas, e estas limpam a água, que regressa aos peixes já limpa.”

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João desenhou soluções mais económicas para quem queira ter em casa um sistema deste tipo e chegou até a projectar uma estufa de aquaponia de 500 metros quadrados para um projecto de agro-turismo no Alentejo. Mas afirma que o seu sistema preferido é, actualmente, a bioponia, no qual já não são usados peixes, mas sim um “chá de composto”, com terra, húmus, guano (fezes de morcego), um macerado de luzerna e melaço, que vai alimentar os microrganismos que “fazem uma penugem à volta das raízes e sintetizam os nutrientes para a planta”. Dominar este sistema permite produzir legumes muito maiores, explica.

Nessa altura viajou pelo mundo e viu exemplos do que de mais avançado se faz nesta área. “Fiz um curso no Hawai, que é a zona do mundo com mais agricultores de aquaponia por quilómetro quadrado, visitei os melhores exemplos de agricultura urbana, estive no Living With The Land, no Epcot Center, na Disneylândia, onde andamos num barquinho e passamos por uma estufa gigante com cacau, jaca e bananas a crescer com água que vem de esturjões, crocodilos, tartarugas e camarões.” Leu sobre o arroz que é cultivado em túneis de metro desactivados no Japão, e pensou muito sobre tudo isto.

Acredita no admirável mundo novo da agricultura urbana biológica. Mas, para já — e enquanto ideias como a das “quintas verticais” não são ainda uma realidade em Portugal —, vai começar com os seus biovivos, cultivados em estufas nos telhados de Lisboa.     

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