Erdogan perdeu a voz, mas ainda não perdeu a Turquia

São eleições municipais, mas quem vai a votos é o primeiro-ministro, os 12 anos de poder do partido que fundou e o seu futuro político. A Turquia é um país dividido como nunca.

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Comício do maior partido da oposição, o CHP, em Istambul Bulent Kilic/AFP

Elvan vivia na metade do bairro que se opõe ao Governo, Karamanoglu na parte onde se concentram mais apoiantes do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), no poder. Os pais dos rapazes pediram publicamente para que as suas mortes não fossem instrumentalizadas. O primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, ignorou-os. A Elvan, o adolescente que tinha saído de casa para comprar pão quando foi atingido pela polícia, chamou “terrorista” e acusou-o de atentar contra o Estado; a Karamanoglu descreveu como um “mártir” que nunca será esquecido.

A Turquia está sob ataque, gritou Erdogan enquanto teve voz – sexta-feira, no último dia de campanha para as eleições municipais deste domingo, ficou afónico, depois de semanas a participar em dois comícios por dia. Na narrativa do primeiro-ministro, há uma conspiração que envolve um “estado paralelo” apoiado por inimigos externos com o objectivo de enfraquecer o país. É por isso que se sucedem revelações que o comprometem a si e aos seus aliados; também já tinha sido por isso que milhões saíram à rua em 79 das 81 províncias do país para protestar contra o seu Governo no Verão passado. A Turquia está sob ataque e só ele pode valer aos turcos.

“Ele vai fazer ou dizer qualquer coisa porque está a lutar pela sua vida, porque sabe muito bem o que é que vai acontecer se perder o poder”, disse à Reuters o líder do principal partido da oposição, o CHP (Partido Republicano do Povo), Kemal Kilicdaroglu. “Ele sabe que vai ser preso, muito provavelmente vai ter de fugir do país.”

Talvez Erdogan não tenha medo de ser preso, é possível que esteja só de cabeça um pouco perdida. Afinal, ele tinha um plano, um guião. De popular primeiro-ministro passaria este ano a Presidente, não um qualquer, o primeiro que os turcos vão escolher por voto directo. Agora, já não tem a certeza.

Entretanto, aconteceram os protestos que começaram por ser contra o derrube de um parque e que, graças à dureza da repressão ordenada por Erdogan, se transformaram no maior desafio que já enfrentou desde que fundou o AKP e chegou ao poder, em 2012. Depois, falharam os seus planos para aprovar uma Constituição que iria fortalecer os poderes do chefe de Estado. A seguir, rebentou um escândalo de corrupção que começou por envolver aliados, na política e nos negócios, acabando com o próprio Erdogan sob suspeita.

Escutas e leis
Nos últimos meses, sucessivas revelações de escutas de conversas do primeiro-ministro mostram como instrui ministros para atrapalhar o trabalho da justiça ou telefona a directores de televisões quando a programação não lhe agrada. Pelo meio, o Governo fez aprovar leis que limitam o poder dos juízes e a liberdade de expressão – foi graças à lei da Internet que Erdogan pôde mandar bloquear o Twitter e depois o Youtube, já no fim da campanha.

Foi nas redes sociais que todas as escutas começaram por ser publicadas. Os media mais próximos do primeiro-ministro explicam tudo isto com uma conspiração movida por Fethullah Gülen, o imã que lidera uma rede global de escolas e instituições de caridade e que quando era aliado de Erdogan colocou seguidores em altos cargos das forças de segurança e do poder judicial. Em resposta, o primeiro-ministro fez despedir milhares de funcionários públicos.

O episódio que justificou o bloqueio do Youtube é diferente: a publicação de uma conversa no gabinete no ministro dos Negócios dos Negócios Estrangeiros com chefes militares e de espionagem onde se debatia o envio de tropas turcas para uma zona da Síria que a Turquia considera seu território. Para o Governo, é mais uma prova da conspiração que enfrenta.

Vida ou morte
E assim, as municipais, que deveriam ser uma simples etapa eleitoral, a caminho das presidenciais de Agosto e das legislativas do próximo ano, transformaram-se numa guerra de vida ou de morte, numa lógica de fuga para a frente. Erdogan não está preparado para deixar o poder e é provável que diga e faça o que for preciso para o impedir. O resultado é um país que vive ao ritmo de acusações e alegadas conspirações, cada vez mais dividido entre os que denunciam o autoritarismo do primeiro-ministro e aqueles que o apoiam.

Poucas sondagens disponíveis na Turquia são confiáveis. As que mais têm acertado, do think tank KONDA, antecipam que o AKP consiga 46% dos votos. De acordo com este inquérito, o CHP terá 27% e os nacionalistas de direita do MHP (Partido Movimento Nacional) ficarão com 15%, enquanto os pró-curdos do BDP (Partido Democracia e Paz) não irão além dos 7%.

O AKP tentou baixar as expectativas, afirmando que consideraria uma vitória um resultado que não seja inferior aos 39% que o partido obteve nas últimas eleições locais, em 2009. Os analistas concordam e colocam a fasquia nos 40% - o partido chegou aos 50% nas últimas legislativas mas a investigação de corrupção obrigou Erdogan a deixar cair ministros e as escutas fizeram alguns duvidar do seu amor à pátria.

Ainda assim, poucos chefes de Governo poderiam ter passado por tudo o que Erdogan passou no último ano e sofrido tão poucos danos. “A oposição está fragmentada. Há a extrema-direita nacionalista, o centro esquerda, os curdos, três partidos com posicionamentos tão longínquos uns dos outros que não podem entender-se e criar uma frente comum contra o AKP”, explica o politólogo Ahmet Insel, numa entrevista ao Libération.

Já o AKP mantém um bloco eleitoral relativamente estável, enquanto representante do eleitorado conservador e maioritário. E a estratégia de Erdogan deu frutos: uma sondagem mostra que 60% dos turcos acreditam que há corrupção no Governo, mas o mesmo número está convencido de que o primeiro-ministro é vítima de uma conspiração.

Vencer ou perder estas eleições significa acima de tudo manter as grandes cidades, Istambul, onde Erdogan cresceu e de cuja câmara foi presidente. Foi na campanha pela cidade de 15 milhões que Erdogan mais se envolveu, eclipsando completamente o actual autarca, Kadir Topbas, e usando a morte de dois jovens no bairro de Okmeydani para atacar inimigos e galvanizar apoiantes.

A semana passada, depois de Erdogan ter atacado o grupo de media independente Dogan, o diário do grupo, o Hürriyet, decidiu publicar uma carta aberta ao chefe do Governo: “Enquanto primeiro-ministro de 76 milhões de pessoas, esperamos que não discrimine cidadãos e instituições”, pede o jornal. “Seja qual for a percentagem de votos que consiga, o seu dever depois das eleições é travar a perigosa polarização e a tensão que se espalhou a todo o país.”