Erdogan perdeu a voz, mas ainda não perdeu a Turquia

São eleições municipais, mas quem vai a votos é o primeiro-ministro, os 12 anos de poder do partido que fundou e o seu futuro político. A Turquia é um país dividido como nunca.

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Comício do maior partido da oposição, o CHP, em Istambul Bulent Kilic/AFP

Há carros blindados e polícia a dividir um bairro de Istambul: de um lado uma zona conservadora; do outro, uma área conotada com grupos de extrema-esquerda. Okmeydani tem estado nas notícias pelas piores razões. Berkin Elvan, de 15 anos, morreu há duas semanas, 269 dias depois de ter sido atingido por uma cápsula de gás lacrimogéneo durante a ocupação do parque Gezi. A morte de Elvan provocou protestos, houve armas disparadas, e Burakcan Karamanoglu, um jovem de 22 anos, morreu com um tiro na cabeça.

Elvan vivia na metade do bairro que se opõe ao Governo, Karamanoglu na parte onde se concentram mais apoiantes do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento), no poder. Os pais dos rapazes pediram publicamente para que as suas mortes não fossem instrumentalizadas. O primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, ignorou-os. A Elvan, o adolescente que tinha saído de casa para comprar pão quando foi atingido pela polícia, chamou “terrorista” e acusou-o de atentar contra o Estado; a Karamanoglu descreveu como um “mártir” que nunca será esquecido.

A Turquia está sob ataque, gritou Erdogan enquanto teve voz – sexta-feira, no último dia de campanha para as eleições municipais deste domingo, ficou afónico, depois de semanas a participar em dois comícios por dia. Na narrativa do primeiro-ministro, há uma conspiração que envolve um “estado paralelo” apoiado por inimigos externos com o objectivo de enfraquecer o país. É por isso que se sucedem revelações que o comprometem a si e aos seus aliados; também já tinha sido por isso que milhões saíram à rua em 79 das 81 províncias do país para protestar contra o seu Governo no Verão passado. A Turquia está sob ataque e só ele pode valer aos turcos.

“Ele vai fazer ou dizer qualquer coisa porque está a lutar pela sua vida, porque sabe muito bem o que é que vai acontecer se perder o poder”, disse à Reuters o líder do principal partido da oposição, o CHP (Partido Republicano do Povo), Kemal Kilicdaroglu. “Ele sabe que vai ser preso, muito provavelmente vai ter de fugir do país.”

Talvez Erdogan não tenha medo de ser preso, é possível que esteja só de cabeça um pouco perdida. Afinal, ele tinha um plano, um guião. De popular primeiro-ministro passaria este ano a Presidente, não um qualquer, o primeiro que os turcos vão escolher por voto directo. Agora, já não tem a certeza.

Entretanto, aconteceram os protestos que começaram por ser contra o derrube de um parque e que, graças à dureza da repressão ordenada por Erdogan, se transformaram no maior desafio que já enfrentou desde que fundou o AKP e chegou ao poder, em 2012. Depois, falharam os seus planos para aprovar uma Constituição que iria fortalecer os poderes do chefe de Estado. A seguir, rebentou um escândalo de corrupção que começou por envolver aliados, na política e nos negócios, acabando com o próprio Erdogan sob suspeita.

Escutas e leis
Nos últimos meses, sucessivas revelações de escutas de conversas do primeiro-ministro mostram como instrui ministros para atrapalhar o trabalho da justiça ou telefona a directores de televisões quando a programação não lhe agrada. Pelo meio, o Governo fez aprovar leis que limitam o poder dos juízes e a liberdade de expressão – foi graças à lei da Internet que Erdogan pôde mandar bloquear o Twitter e depois o Youtube, já no fim da campanha.

Foi nas redes sociais que todas as escutas começaram por ser publicadas. Os media mais próximos do primeiro-ministro explicam tudo isto com uma conspiração movida por Fethullah Gülen, o imã que lidera uma rede global de escolas e instituições de caridade e que quando era aliado de Erdogan colocou seguidores em altos cargos das forças de segurança e do poder judicial. Em resposta, o primeiro-ministro fez despedir milhares de funcionários públicos.

O episódio que justificou o bloqueio do Youtube é diferente: a publicação de uma conversa no gabinete no ministro dos Negócios dos Negócios Estrangeiros com chefes militares e de espionagem onde se debatia o envio de tropas turcas para uma zona da Síria que a Turquia considera seu território. Para o Governo, é mais uma prova da conspiração que enfrenta.

Vida ou morte
E assim, as municipais, que deveriam ser uma simples etapa eleitoral, a caminho das presidenciais de Agosto e das legislativas do próximo ano, transformaram-se numa guerra de vida ou de morte, numa lógica de fuga para a frente. Erdogan não está preparado para deixar o poder e é provável que diga e faça o que for preciso para o impedir. O resultado é um país que vive ao ritmo de acusações e alegadas conspirações, cada vez mais dividido entre os que denunciam o autoritarismo do primeiro-ministro e aqueles que o apoiam.

Poucas sondagens disponíveis na Turquia são confiáveis. As que mais têm acertado, do think tank KONDA, antecipam que o AKP consiga 46% dos votos. De acordo com este inquérito, o CHP terá 27% e os nacionalistas de direita do MHP (Partido Movimento Nacional) ficarão com 15%, enquanto os pró-curdos do BDP (Partido Democracia e Paz) não irão além dos 7%.

O AKP tentou baixar as expectativas, afirmando que consideraria uma vitória um resultado que não seja inferior aos 39% que o partido obteve nas últimas eleições locais, em 2009. Os analistas concordam e colocam a fasquia nos 40% - o partido chegou aos 50% nas últimas legislativas mas a investigação de corrupção obrigou Erdogan a deixar cair ministros e as escutas fizeram alguns duvidar do seu amor à pátria.

Ainda assim, poucos chefes de Governo poderiam ter passado por tudo o que Erdogan passou no último ano e sofrido tão poucos danos. “A oposição está fragmentada. Há a extrema-direita nacionalista, o centro esquerda, os curdos, três partidos com posicionamentos tão longínquos uns dos outros que não podem entender-se e criar uma frente comum contra o AKP”, explica o politólogo Ahmet Insel, numa entrevista ao Libération.

Já o AKP mantém um bloco eleitoral relativamente estável, enquanto representante do eleitorado conservador e maioritário. E a estratégia de Erdogan deu frutos: uma sondagem mostra que 60% dos turcos acreditam que há corrupção no Governo, mas o mesmo número está convencido de que o primeiro-ministro é vítima de uma conspiração.

Vencer ou perder estas eleições significa acima de tudo manter as grandes cidades, Istambul, onde Erdogan cresceu e de cuja câmara foi presidente. Foi na campanha pela cidade de 15 milhões que Erdogan mais se envolveu, eclipsando completamente o actual autarca, Kadir Topbas, e usando a morte de dois jovens no bairro de Okmeydani para atacar inimigos e galvanizar apoiantes.

A semana passada, depois de Erdogan ter atacado o grupo de media independente Dogan, o diário do grupo, o Hürriyet, decidiu publicar uma carta aberta ao chefe do Governo: “Enquanto primeiro-ministro de 76 milhões de pessoas, esperamos que não discrimine cidadãos e instituições”, pede o jornal. “Seja qual for a percentagem de votos que consiga, o seu dever depois das eleições é travar a perigosa polarização e a tensão que se espalhou a todo o país.”

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