A Grande Família de Tchikuteny

Pode muito bem ser a família maior do mundo. Este angolano do Namibe já teve 54 mulheres, vive agora com 43, e delas nasceram os seus 154 filhos

Pode muito bem ser a família maior do mundo. Este angolano do Namibe já teve 54 mulheres, vive agora com 43, e delas nasceram os seus 154 filhos

Já chamaram a Tchikuteny um “sultão do deserto”: teve 154 filhos, de 54 mulheres (actualmente vive com 43), o que pode bem provavelmente constituir um recorde mundial. Vindo do Lubango, chega-se ao seu “sultanato”, no Giraul (no Sul de Angola) depois de se descer a serpenteada estrada da Serra da Leba, que delimita a desértica província do Namibe.

Ali não chove há décadas, como relata uma das várias quitandeiras, as vendedoras do mercado do Giraul. Quando se pergunta pela aldeia de Tchikuteny, surge o rosto brilhante de uma jovem que diz ser sua neta. Explica qual a melhor maneira de chegar ao destino, numa região onde as placas de sinalização são escassas.

A aldeia não se avista da estrada nacional — a mesma que leva à cidade do Namibe (a Moçâmedes do tempo colonial), capital da província. Após algumas tentativas falhadas, chega-se ao fim de uma estrada em terra com gravilha solta que atravessa um imenso e tórrido planalto. À volta de um grande largo, estão pequenas habitações de pau a pique, outras de pedra e adobe. Logo a seguir, um enorme desfiladeiro que deixa ver, ao fundo, o leito do rio seco. As crianças correm para o carro que se aproxima, querem receber e saudar quem chega de longe. Deduz-se que algumas sejam filhas de Tchikuteny e pergunta-se pelo pai. “Foi à cidade.” Anota-se um número de telemóvel. “Ir à cidade” pode significar dias de ausência.

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Tchikuteny com algumas das suas mulheres, depois de dar orientações sobre as colheitas

Parte-se então para o Namibe e liga-se para Tchikuteny. Ele atende o telefone e chama-me Jesus, confiando na descrição que os filhos lhe fizeram antes. Duas horas depois, estava no local marcado, um café vazio e a cheirar a mofo que servia de apoio a um velho posto de abastecimento de combustíveis, já na saída da cidade, em direcção ao Lubango. As prateleiras estão quase vazias. Tchikuteny, de 63 anos, traz uns óculos de sol modernos, esbranquiçados, e gesticula muito enquanto fala ao telefone. Vem acompanhado de dois rapazes e uma rapariga, que, com orgulho, apresenta como seus filhos. Digo-lhe que sou fotógrafo e ele convida-me para ir ao Giraul conhecer a sua grande família. Celebra-se este momento com a gasosa mais fresca do velho frigorífico do café. O telefone de Tchikuteny toca, ele dá mais umas orientações e depois fala sobre este “bendito aparelho” que “foi a melhor invenção do homem”, logo a seguir ao carro. Para quem, como Tchikuteny, já não tem um meio de transporte próprio, o telefone veio encurtar distâncias nestas terras de deslocações difíceis.

A partida para o Giraul fica marcada para dali a três dias. Tchikuteny ainda tem coisas para fazer na cidade, onde tem uma “casa de passagem”, usada essencialmente pelos filhos que continuam os estudos — na aldeia só têm escola primária. É aqui que vivem dez a 15 dos seus filhos, acompanhados das respectivas mães. Mas todos voltam ao Giraul durante as férias escolares ou mesmo quando é necessária mão-de-obra extra em épocas de colheita.

Desta vez, Tchikuteny tinha uma “principal tarefa” na cidade: conhecer o seu bisneto mais novo. É ele quem tem de escolher o nome para o recém-nascido com pouco mais de duas semanas e deve fazê-lo sob o tecto da família da mãe, conforme as suas crenças e tradições. No dia combinado, os elementos da família reúnem-se na “casa de passagem” e seguem em romaria para a casa da família da mãe do bebé. Levam três grades de sumo de laranja para a festa — na família não se consomem bebidas alcoólicas. A família anfitriã oferece peixe frito e salada antes de Tchikuteny dar início à escolha do nome, responsabilidade para a qual conta com ajuda de um dos filhos e de um neto, ou seja, o avô paterno e o pai da criança. Sabemos mais tarde que o bebé receberá o nome de Daniel e ficará a cargo da avó materna enquanto os pais terminam os seus estudos secundários.

Chegámos ao Giraul num domingo de manhã. Um grupo está reunido à porta de uma casa de pedra e adobe, a igreja local, cujo tecto em chapas de zinco é sustentado por uma estrutura feita de ramos de árvores. Tchikuteny é o líder espiritual desta comunidade que fundou em 1985. É o responsável pelos trabalhos religiosos, e os fiéis, aprumados nos seus trajes de domingo, esperam-no para mais um sermão dominical.

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Com Eva, a primeira das mulheres do líder da comunidade

Um dos filhos mais velhos e duas das mulheres de Tchikuteny ajudam na leitura do sermão. O patriarca usa uma bíblia antiga, com uma capa gasta quase a descolar, oferta de um missionário brasileiro que passou por Luanda no período da guerra colonial. Depois da missa e à medida que vão saindo, os fiéis cumprimentam-se todos entre si, um a um, formando uma fila que desenha um grande círculo. Depois, homens e mulheres, em fila indiana, seguem para uma sessão de cânticos e danças em frente à igreja, um ritual que dura cerca de dez minutos antes de todos rumarem às respectivas casas, com as crianças em correria ou a jogarem à bola.

Tchikuteny é de etnia mucubal, onde se aceita a poligamia, e os filhos parecem entender-se às mil maravilhas, independentemente das diferentes mães que os viram nascer. Também elas são amigas, aparentam respeitar-se — entre as mais jovens, existe até um olhar cúmplice e inocente. Pelo menos quatro estão grávidas. Tchikuteny aproveita para mostrar o seu livro de registos, um dos seus maiores tesouros. É um antigo livro ao estilo dos de mercearia, onde constam, para além do nome completo, a data de nascimento e o número correspondente de cada um dos seus filhos, nascidos aqui na comunidade, tudo escrito por mão própria (o registo oficial das crianças é feito no notário, afirma).

Outro dos seus tesouros está perto dali. É o seu fiel Land Rover, tantas vezes companheiro nas várias viagens à vizinha República da Namíbia, que agora encostou por falta de peças e Tchikuteny já não tem esperança de o ver novamente na estrada, por isso permite às crianças que brinquem lá dentro.

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A casa onde se desenrola a cerimónia para escolher o nome do recém-nascido Daniel

Vamos almoçar à casa maior da aldeia, que tem telheiro e é a única a ter uma divisão própria para cozinha. Foi aqui que nasceram os primeiros filhos desta comunidade. A refeição de hoje foi cozinhada por Eva, a primeira mulher. Fora da casa, Tchikuteny tem o seu escritório ao ar livre: uma mesa de esplanada com algumas cadeiras de plástico onde, em dias de descanso, costuma sentar-se e ficar a falar tarde dentro com a família que por lá vai passando. É também lá que organiza os seus documentos e papelada. Não existe luz pública na aldeia e a pouca energia eléctrica que usam é produzida por um velho, pequeno e barulhento gerador a gasolina.

Belionguenjha Francisco Sabalo Pedro, mais conhecido por Tchikuteny, nasceu no primeiro dia do ano de 1951, na aldeia de Lianguela no Giraul do Meio, província do Namibe, filho de pai pedreiro e de mãe camponesa, ambos de origens mucubais, uma das tribos da província do Namibe.

Tinha cinco meses quando uma doença o obrigou a deixar a casa da mãe. Voltou aos seis anos e começou logo a trabalhar, primeiro como guarda num aviário, depois na pastorícia e na pesca (o mar fica a três quilómetros da aldeia em linha recta). Só mais tarde aprendeu carpintaria, serralharia, pintura e alguma arte da construção civil. Quando foi chamado para a tropa colonial em Agosto de 1972, não tinha mais do que a primeira classe — concluiu o ensino primário no Lubango e o secundário em Luanda — e já era pai de quatro filhos, que ficaram no Namibe. Na tropa, chegou a ser chefe de oficina da secção de pintura e responsável pelas obras no Bairro Militar, em Luanda.

Em Abril de 1974, conta, abandona o exército português e casa-se com Eva, de uma aldeia próxima de Luanda. Foi a sua primeira mulher e acedeu, passado um ano sobre o casamento, em voltar com o marido à província. Na cidade do Namibe, Tchikuteny arranjou emprego como fiel de armazém e responsável pela distribuição de bens alimentares. Antes, passou pela loja do MPLA e pela loja do povo (durante a guerra entre a UNITA e o MPLA, existiam lojas para a população se abastecer de produtos básicos, onde os produtos, para além de serem racionados, só se adquiriam através de senhas previamente distribuídas) onde já despachava assuntos do comércio interno e externo.

Posteriormente, já no Giraul, começa a trabalhar directamente sob as ordens do soba, a autoridade tradicional, e é encarregue, uma vez mais, da loja do povo. Começa a ensinar a Bíblia na escola a crianças e adultos, depois de ter aprendido “a fé do bom Espírito Santo com um presbítero da Igreja Tocoísta que era meu cunhado”, conta. Mas alerta: “Hoje não sou tocoísta [nome dado aos seguidores do profeta angolano Simão Toco que legalizou a sua própria igreja] nem protestante.” A evangelização que leva às aldeias vizinhas não é bem vista pelas autoridades e numa das suas saídas Tchikuteny é preso na Baía das Pipas e só é libertado um mês depois.

Enquanto está na prisão, a sua comunidade, então com 72 pessoas (filhos, esposas e vizinhos que aderiram à igreja), divide-se em dois grupos. Por isso, conta-nos, em Junho de 1985 decide legalizar a sua comunidade, a que chama Centro Nacional da Missão do Evangelho Jesus na Cruz. E pelas aldeias vizinhas, além de pregar a fé, ajuda a erguer escolas de pau a pique para alfabetizar adultos, onde a taxa de analfabetismo era praticamente de 100%.

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A casa dos encontros amorosos, que podem acontecer com mais do que uma parceira

Dos 154 filhos de Tchikuteny, 25 morreram e os primeiros quatro nunca os chegou a registar. Onze das suas 54 mulheres saíram entretanto da comunidade para seguirem outro rumo e Tchikuteny mantém como residência oficial a casa que partilha com a primeira mulher, Eva. Cada uma das restantes tem casa própria, cuja dimensão depende do número de crianças que lá vivem — todas nascidas de parto natural na aldeia e ajudadas pela matriarca Eva.

Há ainda uma outra casa, dedicada aos encontros amorosos, que podem acontecer com mais do que uma parceira. Nessa, a construção é de tijolo de adobe misturado com cimento e as paredes são rebocadas. O tecto, de zinco, é sustentado por pequenas vigas em ferro. O interior é de uma só divisão, ampla, onde se encontra ao canto uma mesa e quatro cadeiras, uma mesa de cabeceira improvisada, uma secretária de madeira antiga e alguma roupa pendurada em cabides. Ao centro está uma cama de casal em madeira e uma rede mosquiteira, um luxo quase de cenário de harém.

Com excepção desta “casa dos encontros”, as das mulheres de Tchikuteny são normalmente mais pequenas e de construção mais pobre, de pau a pique, fazendo uso apenas de materiais como adobe e ramos de madeira das acácias que abundam no leito do rio. Nestas, Tchikuteny não entra. Primeiro, porque as mulheres são consideradas sagradas e o pilar da família; segundo, porque a relação privilegiada é a de mãe-criança, onde homem não deve entrar. Há também regras quando nasce uma criança: os rapazes devem permanecer no interior de casa durante os primeiros 30 dias de vida, enquanto as meninas ficam 60. Só depois desse período, o pai terá direito a ver os filhos pela primeira vez, no exterior e à luz do dia (acreditam que só assim as crianças ficam livres de contaminação de doenças).

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Mesmo não sendo frequente chover, estes são terrenos férteis, oásis de verde na paisagem árida

Tchikuteny tem, essencialmente, de fazer a gestão. E gere tudo: a despensa geral onde se cuida ao mínimo pormenor para não haver factores de favorecimento na hora da distribuição dos bens; os bens que ficam de sustento às famílias e os que seguem para ser vendidos; a mão-de-obra a empregar em cada tarefa relacionada com a agricultura. Um pequeno exemplo da sua organização é o facto de todos os dias, com excepção do domingo, a família ter à disposição pão fresco sobre a mesa, porque Tchikuteny acertou com a padaria na cidade o fornecimento de pão a troco do milho que produz.

Tchikuteny e a família cultivam mandioca, milho, mangueiras e bananeiras em terrenos no leito do rio seco do Giraul e noutros que se estendem às planícies adjacentes. Mesmo não sendo frequente chover, são terrenos férteis, verdadeiros oásis de verde na paisagem árida. Vale-lhes, sobretudo, um furo artesiano estrategicamente instalado a meio dos terrenos e num ponto elevado do leito do rio. Os produtos são vendidos no mercado do Giraul, à beira da estrada nacional e local de paragem obrigatório de qualquer motorista que faz os cerca de 190km que separam o Namibe de Lubango.

Outra fonte de rendimento desta larga família é a criação de gado: mais de 50 cabeças de gado bovino e outras tantas de caprino. É daqui que sai o leite com que Tchikuteny alimenta diariamente a família — ele próprio bebe todas as manhãs uma grande malga de leite de cabra, um ritual que repete há longos anos e onde diz poder estar a fonte da sua aparente jovialidade.

Nesta comunidade, regras e tarefas diárias estão automatizadas: cada um sabe o que lhe cabe e todos ajudam e são ajudados. No Giraul, as crianças podem fazer o ensino básico e médio mas para os restantes estudos partem para o Namibe. Alguns, já homens, preferem outra vida a voltarem à comunidade e à aldeia. E, mesmo quando isso acontece, os laços não se quebram. São visitas constantes, sobretudo quando se trata de receber um novo membro — e são já cerca de 60 os netos e cinco os bisnetos de Tchikuteny.

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A família tem mais de 50 cabeças de gado bovino e outras tantas de caprino

Este patriarca é um pai zeloso, dedicado. Um exemplo: eu já estava de volta à cidade quando certa noite, pela duas da manhã, Tchikuteny telefona a dizer que precisava de levar um dos filhos ao hospital, porque ardia em febre. Da aldeia fizemos ainda mais 60 quilómetros para apanhar a criança: um dos irmãos mais velhos, a viver em Caraculo, tinha tentado levá-lo para o hospital mas o carro avariou a meio do caminho. Seguimos então a um ritmo de ambulância até ao Namibe, onde a criança ficou com a mãe, e acabei por voltar à aldeia para levar Tchikuteny já o sol despontava.

Antes de voltar a Luanda, decidi fazer uma selecção das melhores imagens que tinha captado durante a estadia. Fiz cópias impressas em papel de fotografia e ainda consegui uma cópia do trabalho feito pela TV Globo, do programa Fantástico, que chamava a Tchikuteny o “sultão do deserto”. No dia da despedida, passei pela casa da família na cidade e distribuí fotos por todos. A grande surpresa foi mesmo verem-se no ecrã do computador, onde eram actores principais (a maioria nunca tinha visto o programa da Globo, apenas ouviram falar dele, inclusive na escola). Repito o gesto quando chego ao Giraul: distribuo fotografias e escolho o telheiro da casa de Eva e Tchikuteny para mostrar o vídeo, pedindo à família que se acomode em anfiteatro. Só à terceira repetição do filme me despeço finalmente desta família. Quando chego ao carro, estava-me ainda reservada a surpresa de um enorme cacho de bananas que, a muito custo, alguém terá conseguido enfiar na bagageira. Como se costuma dizer por estas bandas: “Obrigado sim!”     

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