Opinião

Uma lição de coisas

O que a crise da Crimeia claramente deixou ver foi que a América já não é uma potência global.

Qual foi o resultado da suposta “confrontação” entre o Ocidente e a Rússia? A Rússia anexou a Crimeia sem resistência militar ou outra. O Ocidente manifestou com muito cuidado a sua desaprovação. A América retirou o visto a meia dúzia de comparsas de Putin e prometeu à Europa que lhe forneceria gás para a tornar menos “dependente” da Rússia. A Europa e a América também expulsaram a Rússia dos G8, que voltam agora a ser os G7. O resto não passou de uma retórica mansa, para consolo da “opinião” com impulsos alegadamente “democráticos”.

Isto bastou para que “eurófilos” de vária pinta viessem falar do fracasso de Putin, da “aproximação da Europa e da América” e do “isolamento” da Rússia; e a farsa, apoiada pela viagem de Obama a Bruxelas, convenceu quem se quis convencer.

Infelizmente, as coisas são, de maneira geral, ao contrário. Em primeiro lugar, o Ocidente demonstrou ao mundo inteiro que recusa um novo conflito, na Ucrânia ou no pólo Norte: a América porque, ao fim de uma guerra perdida no Iraque e no Afeganistão, o eleitorado está maciçamente contra uma nova aventura; a Europa porque não tem dinheiro, nem poder militar para ameaçar ninguém (Obama até pediu que a França, a Inglaterra e a Alemanha investissem em armamento um pouco mais do que investem hoje). E, em segundo lugar, porque, longe de ficar “isolada”, a Rússia continua, imperturbável, a receber investimento americano, alemão e até francês; e a absorver uma parte vital do que a Alemanha e a Inglaterra exportam. Com ou sem declamações para consumo popular, os negócios não vão ser perturbados.

A Rússia, disse Obama, é uma “potência regional”. Este exemplo de arrogância, e de inconsciência, não muda a realidade. O que a crise da Crimeia claramente deixou ver foi que a América já não é uma potência global. Não admira que a China se aproximasse da Rússia; e que, na África e na Ásia, se fale cada vez com maior insistência na “hipocrisia americana” (para não falar na “hipocrisia europeia”). Como não admira que a sra. Merkel, depois de se aliviar de umas frases pias, se preocupasse sobretudo em defender o interesse económico da Alemanha na Federação Russa. A América e a Europa saíram muito mal da suposta “confrontação” com Putin: sem unidade e sem iniciativa. Pior ainda: tão “apaziguadores” como os velhos de 1930, anunciaram em Bruxelas que reservam a sua verdadeira cólera para o caso de a Rússia persistir numa política de expansão, que Putin, por enquanto, rejeita. Mas que, se a confusão e a irresponsabilidade do Ocidente não acabarem depressa, não rejeitará sempre.