Condenado da Noite Branca envolvido em rede que vendia droga na cadeia de Coimbra

Fernando "Beckham", condenado a 22 anos pelo homicídio de um segurança do grupo rival de Miragaia, a par de Bruno "Pidá", chefiava a rede com outros quatro reclusos. Introduziam droga através de uma telefonista da cadeia que ganhava entre 80 a 250 euros por cada grama.

Foto
Paulo Pimenta

Um dos elementos do chamado gang da Ribeira do Porto, condenado a 22 anos de prisão efectiva pelo envolvimento no homicídio de um segurança rival em 2007, foi recentemente acusado de chefiar, com outros quatro, uma rede que introduzia droga na cadeia de Coimbra.

Fernando Martins, conhecido como "Beckham", agora com 29 anos, aproveitou a sua estadia naquele estabelecimento prisional para desenvolver um plano para fornecimento de droga que passava pelo recurso a uma telefonista. A mulher, com cerca de 50 anos, eram funcionária daquela cadeia, segundo apurou o PÚBLICO junto de fonte judicial.

O Ministério Público (MP), num processo liderado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Coimbra, acusou 12 pessoas, entre os quais cinco reclusos, de crimes de corrupção para acto ilícito, tráfico de estupefacientes agravado, branqueamento e falsificação de documentos.

Funcionários da cadeia não são revistados

A telefonista foi apanhada em flagrante em Março de 2013 quando se preparava para entrar com mais droga, escondida na carteira, na cadeia. Nunca havia levantado qualquer suspeita uma vez que trabalhava ali há vários anos e os funcionários não são revistados à entrada.

A funcionária, em prisão preventiva, é curiosamente sobrinha de uma mulher de 80 anos cujo homicídio o MP imputou recentemente à inspectora da Polícia Judiciária do Porto Ana Saltão, esposa do neto da vítima, também ele inspector.

A detenção da telefonista ocorreu após uma denúncia da direcção do Estabelecimento Prisional de Coimbra à polícia. A informação sobre a entrada de droga terá chegado primeiro aos guardas através de uma denúncia interna e após uma discórdia entre reclusos.

Por cada grama de droga ganhava entre 80 a 250 euros

Porém, para além de droga – heroína, cocaína, cannabis e esteróides nebulizantes -, a funcionária também fazia entrar telemóveis, cartões de telemóvel, tablets e garrafas de whisky. Por cada grama de droga ganhava entre 80 a 250 euros, 100 euros por cada placa de haxixe e também 100 euros por cada tablet.

O esquema era simples e funcionava há já vários anos, acreditam as autoridades que, porém, só conseguiram encontrar para já provas da sua existência em 2012. Os cinco arguidos encomendavam a droga por telefone a um abastecedor de Oeiras, também entretanto detido e agora em prisão preventiva.

Depois o fornecedor entregava o produto à telefonista que entrava de serviço e o entregava a dois outros reclusos. Estes tinham mais liberdade de movimentos. Trabalhavam no bar e na secção de limpeza e serviam de meio de ligação aos outros cinco com quem contactavam.

A droga e todos os restantes produtos eram depois vendidos na cadeia. A funcionária era remunerada por alguns familiares dos reclusos, umas vezes em dinheiro, outras por transferência bancária. Aliás, entre os arguidos estão alguns familiares dos cinco reclusos, como a namorada de "Beckham" que vive no Bairro do Aleixo no Porto, onde a polícia fez buscas.

“Beckham” foi condenado em 2010, a par de Bruno Pinto “Pidá” – líder do gang da Ribeira – pela morte do segurança Ilídio Correia, no âmbito de uma guerra entre gangues rivais na noite do Porto. Correia pertencia ao grupo de Miragaia.

De acordo com fonte judicial, a telefonista terá conseguido arrecadar milhares de euros com este plano. Aliás, geria várias contas bancárias para as quais eram transferidos os montantes. Uma das contas foi aberta com a identidade de outra pessoa, pelo que está acusada de falsificação de documentos.

Ao que o PÚBLICO apurou, o núcleo central que chefiava o negócio de venda de droga no interior da cadeia é constituído por reclusos condenados por crimes violentos entre os quais homicídio. Aliás, um deles está a cumprir pena por homicídio e profanação de cadáver.

Para além da denúncia da própria direcção da cadeia, as escutas telefónicas revelaram-se essenciais para desmontar o funcionamento do esquema, já que os arguidos combinavam todos os pormenores através dos telemóveis.