Crítica

We’re a Happy Family

Na sua primeira exposição em Portugal, Patrizio Di Massimo compõe um retrato de família a partir de instalações feitas de objectos. E interroga a natureza humana e as relações que se estabelecem com o outro

Para um espectador distraído ou apenas menos informado sobre as convenções da arte contemporânea, as instalações que compõem Me, Mum, Mister, Mad não são instalações. São almofadas que apetece lançar no ar, travesseiros em que apetece recostar a cabeça ou simples cortinas que velam uma intimidade. Objectos domésticos que solicitam as mãos, o corpo. Mas sendo tudo isso, e assim que o espectador reconhece o contrato, são obras de arte. Condição ainda assim tornada ambígua pelo espaço arquitectónico que as encena: a sala da Kunsthalle Lissabon, com os seus frisos, janelas altas, tecto decorado, chão de madeira. Terá sido habitada no passado e volta a ser, por uma muito particular “família”, nesta exposição do artista italiano Patrizio Di Massimo (Jesi, 1983)

Estabelecido em Londres, Di Massimo tem despertado a atenção de críticos e curadores com uma obra que lida com a história e a representação do outro (num sentido muito amplo), utilizando uma diversidade de linguagens e materiais (pintura, mobiliário, têxteis, filmes). Não se procure ironia ou revanchismo nas suas propostas. Nestas, as fantasias do exotismo, o processo civilizacional ou o auto-retrato são problematizados com uma sobriedade que instiga contradições, dúvidas, perguntas sem resposta. Em Me, Mum, Mister, Mad, é com a (sua) família que o artista se confronta, representando-a sobre a forma de almofadas, guarnições ou uma borla à escala humana. O espectador entra assim num espaço que não sendo privado, alude a memórias e imagens de uma vida privada, de uma história de relações pessoais e familiares.

Mad, o pai, aparece à entrada. É composta de três grandes travesseiros de cores diferentes (rosa, verde escuro, preto acinzentado). Feitos de algodão e veludo, sugerem peso, flacidez e luxuosidade ou um desenho tornado escultura de Phillip Guston. Mas algo importuna a sua imobilidade pachorrenta e inquietante: a agitação de um canário numa gaiola. A cultura e a natureza, o presente e o passado descobrem-se numa tensão inexprimível mas saudavelmente interpeladora: será a figura do pai ou a condição da paternidade que a instalação representa e interroga? O retrato de família prossegue na sala principal. A tapar uma porta, uma pilha de almofadas azuis e brancas aguarda o espectador. De ganga, com tonalidades diferentes, representam a irmã e, pelo movimento e os jogos que evocam, constituem o momento mais “lúdico” da exposição. Mister (é este o título) ampara a memória da presença de um corpo num espaço doméstico antes de a projectar sobre quem passa. Em frente, perto das altas janelas, eis, finalmente, o retrato da mãe, intitulado Mum. Uma borla vermelha, à escala humana, emerge do chão. Há uma certa gravidade neste objecto sobredimensionado. Vermelho, inexpressivo, estende-se discretamente a uma janela e parece contaminar a sanefa que encima um cortinado transparente. Trata-se de um retrato fragmentado: a mãe pode ser o ornamento, o cortinado e ou a planta que trepa na direcção da parede. Um organismo que cresce, generoso, mas também frio ou indiferente. Depende das experiências que o olhar esconde. É curioso o interesse de Patrizio Di Massimo por estes objectos, a maioria antiquados, pouco “contemporâneos”. Mas não é o ornamento, a arquitectura ou o design que o artista traz para o Kunsthalle Lissabon. Repita-se: são relações pessoais e familiares (entre irmãos, entre um filho e os pais), retratos de uma família, representados com objectos. Será, por isso, Me, Mum, Mister, Mad uma exposição que nos violenta? Se a virmos apenas como uma reificação de memórias e experiências, a resposta será afirmativa. Se nos distanciarmos, com o nosso corpo, do teatro que nos é apresentado, a reposta será negativa.