Crítica

O livro póstumo

Com uma escrita melancólica e fulgurante, Maria Manuel Viana tece uma parábola leibniziana cujas personagens parecem esperar uma epifania

No funeral de um Escritor (assim mesmo, com maiúscula), a filha e duas sobrinhas (e mais quatro personagens “secundárias”) vão desfiando, à vez, monólogos interiores, sonhos, diálogos inacabados, memórias de um outro tempo, de maneira a tecerem a trama que é a história da sua família, mas tendo sempre como referência o falecido e o modo como ele marcou os vários elementos. A ficção, neste quarto romance de Maria Manuel Viana (n. 1955), assume assim, aos poucos, uma estrutura labiríntica em que a voz do narrador se mistura, por vezes quase imperceptivelmente, com as das personagens.

A filha do Escritor, Mariana — que o pai nunca tratou como filha, mas como assistente na escrita dos livros —, herda o esboço de um romance (Teoria dos limites), que tudo parecia indicar vir a ser o derradeiro, uma espécie de testamento literário. Esse esquisso consiste em oito páginas de anotações que têm por base uma “curiosa espécie de representação” do mundo enunciada pelo matemático e filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) na obra Monadologia — um vasto sistema metafísico constituído pelas célebres mónadas, eternas, individuais, sujeitas às suas próprias leis, e em que cada uma reflecte o universo dentro de uma harmonia pré-estabelecida, como “uma espécie de mundo alucinatório, quase de ficção científica, habitado por substâncias simples, pontos metafísicos, individualizações infinitamente pequenas, como se fossem quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, uma torre de babel com degraus ou a biblioteca labiríntica de Borges”. Entre as várias anotações deixadas pelo Escritor, constam também as ideias leibnizianas de “língua universal” e de “pirâmide dos mundos possíveis”. Para ele, aquele romance não seria “apenas uma metáfora, como era habitual nos seus livros, mas várias metáforas, e analogias, e imagens, que permitiriam ao leitor a passagem de uma realidade abstracta para uma concreta, de um universo específico para um paralelo”.

As personagens, todas femininas à excepção do tio João Caetano, parecem ter o passado como ferida. Originárias (a filha e as sobrinhas) de uma família da alta burguesia latifundiária (antes da revolução de Abril tinham uma herdade de seis mil hectares), foram atravessando ao longo da vida, de uma maneira ou de outra, momentos mais ou menos dolorosos que nunca cicatrizaram e cujas memórias convergem aos poucos naquele funeral. Um funeral onde não fazem apenas o luto pelo Escritor, mas também por uma parte de si próprias, a parte que morreu com ele, apresentando-se o enterro como o começo da esperança de uma melancólica epifania plural. Afinal, o romance esboçado seria sobre elas as três, pelo que depreendem das anotadas iniciais dos seus nomes numa das páginas.

Mariana, nascida em França (de onde regressara com o pai), nunca conheceu a mãe (uma famosa actriz francesa?) — é um dos mistérios da família — e passou a vida a tentar ser amada pelo pai de maneira incondicional, um sonho que aos poucos se foi tornando irrealizável porque ele era o tal “ponto perfeito” do sistema leibniziano, aquele para onde todas as mónadas convergiam infinitamente, e ela, entre todas, o “pontinho limitado” (a mónada) que apenas reflectia o brilho incandescente daquele “ponto perfeito”.

Maria Manuel Viana traz para este ambicioso e fulgurante romance duas personagens do seu livro anterior, O Verão de Todos os Silêncios (Planeta, 2011), que aqui surgem a fazer uma espécie de contraponto quase a meio do romance, como se chegassem para sublinhar o caos anunciando a tragédia, e depois se retirassem.

Nesta espécie de parábola leibniziana que é muito provavelmente o seu melhor romance, Maria Manuel Viana cria de maneira hábil uma estrutura em que as personagens, à semelhança das mónadas do filósofo alemão, se vão reflectindo umas às outras (e umas nas outras) como espelhos que encerram todo o universo ficcional que ela convoca e que lhe interessa explorar. A ideia leibniziana de criar um todo (diferente da soma das partes) que multiplica os pontos de vista é magistralmente explorada pela autora no modo como as várias personagens se projectam e “se amparam” umas às outras.

Ao contrário do que o leitor deste texto poderá ser levado a pensar, Teoria dos Limites não é um “romance de ideias”, tão-pouco um romance “filosófico”. Na sua estrutura fragmentada, o que sobressai da cuidada narrativa é a escrita melancólica e fulgurante de Maria Manuel Viana.