Opinião

A reestruturação das opiniões

O manifesto requer a galambização da pátria. E isso, desculpem lá, eu dispenso bem.

No domingo, Manuel Carvalho regressou ao tema do manifesto dos 74, acusando-me de atacar “com violência” e “quase com intolerância democrática” uma proposta que pretendia fugir ao “alinhamento pachorrento” de um país que, segundo ele, “tem medo de existir”, limitando-se ao papel de “bom aluno da troika”.

Manuel Carvalho defendeu que “na vida dos povos tudo é discutível, tudo é alterável, tudo é negociável”, curiosamente na mesma edição em que o provedor do Leitor, Paquete de Oliveira, dava conta de que alguns leitores lamentavam a proliferação de um “estilo ofensivo” e “insultuoso” nas páginas de opinião do jornal, exactamente a propósito das reacções ao manifesto.

Ora, quando eu decidi chamar “O respeitinho não é bonito” à minha coluna do PÚBLICO foi precisamente para tentar combater este tique nacional que acha que toda a dissensão deve ser apresentada em estilo polido, onde se evita dizer “ele mentiu” quando se pode dizer “ele faltou à verdade”, pois convém sempre acolher piedosamente as opiniões contrárias, por mais estapafúrdias e hipócritas que elas pareçam. Manuel Carvalho acha, citando José Gil, que Portugal tem medo de existir. Pois eu acho que Portugal tem medo de exigir: exigir pragmatismo, exigir respeito pela realidade, exigir seriedade intelectual, exigir coerência, exigir rigor, exigir argumentos sustentados e exigir que aquilo que era mentira ontem não se torne subitamente verdade hoje só porque dá mais jeito.

Eu não quero tornar-me monotemático em relação ao manifesto dos 74, mas ele parece-me muito emblemático desse estilo tão português que gosta de chamar “respeito democrático” à necessidade de engolir a total incoerência de posições. Nada tenho contra pessoas que mudam de ideias ou se arrependem do que fizeram no passado – acontece a todos. Mas tenho tudo contra pessoas que defendem hoje o contrário do que defenderam ontem fingindo ao mesmo tempo que estão no exacto lugar onde sempre estiveram. Isso não é admissível. Isso não tem de ser aceite com complacência e falinhas mansas.

Quando eu vejo a maior parte daqueles 74 alertarem que a actual dívida impossibilita o crescimento, sou obrigado a recordar o que li e ouvi a propósito do famoso estudo de Reinhart e Rogoff que indicava que uma dívida acima dos 90% de PIB prejudicava gravemente o crescimento económico. Na fase socrática e pós-socrática da “espiral recessiva”, a esquerda pró-investimento defendeu que uma coisa nada tinha que ver com a outra. Repito: muitos dos subscritores defenderam fervorosamente a continuação do investimento e do endividamento. Escreveu o deputado do PS João Galamba em Outubro de 2010: “Tudo o que possa ser dito sobre a dívida – que é má, que é perigosa, que é boa – é absolutamente irrelevante para debates sobre o crescimento económico.” Dois anos e meio depois, o mesmo João Galamba, signatário do manifesto, deu uma entrevista ao Dinheiro Vivo, onde afirmava: “Que [a dívida] é impagável e um enorme entrave ao crescimento económico, disso não tenho a menor dúvida.”

O manifesto dos 74 está cheio de Joões Galambas, e isso não pode ser aceite como uma simples “divergência de opinião”, como Manuel Carvalho defende. O manifesto não requer só a reestruturação da dívida – requer também a reestruturação das opiniões de dezenas de pessoas, cujas convicções económicas vão variando alegremente conforme as suas simpatias políticas. O manifesto requer a galambização da pátria. E isso, desculpem lá, eu dispenso bem.

Jornalista