PCP avisa que nem cautelar nem limpa, não há saída sem renegociar a dívida

Jerónimo de Sousa diz que Cavaco Silva tem saudades dos tempos em que era primeiro-ministro.

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Enric Vives-Rubio

"Reafirma-se mais uma vez que, perante uma dívida insustentável, a renegociação da dívida - dos seus prazos, juros e montantes - se assume como uma urgente e patriótica atitude", começou por afirmar Jerónimo, que desmontou de seguida a ideia de que um programa cautelar ou uma saída "limpa" do programa da troika possam mudar o destino do país.

No final da reunião do Comité Central do PCP, em Lisboa, Jerónimo de Sousa disse que uma saída "limpa", ou seja, sem recurso a um programa cautelar constitui uma "efabulação" que tem apenas como objectivo esconder a intenção de manter o país na condição de “protectorado”. Sobre o novo pacote de austeridade, que Marques Mendes anunciou este fim-de-semana poder situar-se entre 1,5 e 1,7 mil milhões de euros, o comunista disse que não é preciso ser "profeta" para adivinhar sobre quem vão recair os novos cortes. 

"Não é preciso ser profeta para pensar que vai ser mais uma dose de austeridade e sacrifícios para reformados e pensionistas, para os trabalhadores", afirmou.

Questionado sobre a mensagem que Cavaco Silva dirigiu ao país na semana passada, aquando da marcação de eleições europeias para 25 de Maio, Jerónimo considerou que os apelos do Presidente à contenção da crispação partidária revelam um Presidente da República que se afirma "claramente como um protagonista desta política de direita".

"Fala, muitas vezes, talvez com saudade dos tempos de primeiro-ministro. Veio anunciar que a austeridade e os sacrifícios vão continuar por, pelo menos, mais 20 anos", disse, referindo-se ao prefácio da autoria do Presidente publicado recentemente no livro Roteiros VIII.

O secretário-geral comunista voltou assim a defender a necessidade de eleições legislativas antecipadas. E pediu aos portugueses que não se iludam com aparentes diferenças, já que "o PS, para lá desta ou daquela afirmação, não só decidiu conceder todo o tempo de vida ao Governo, como colabora e converge com o Governo em matérias tão estruturantes quanto as da reforma do IRC para servir o grande capital, como também o acompanha no objectivo de não repor o nível de salários e pensões entretanto cortados".

O acordo sobre a reforma do IRC, alcançado no final do ano passado, entre PS e Governo, assim como a aparente sintonia sobre a prescrição de processos judiciais, como o do ex-banqueiro Jardim Gonçalves, foram dois exemplos deixados por Jerónimo de que o executivo e o maior partido da oposição estão de acordo no rumo político do país.

Já sobre as eleições europeias em concreto, o líder comunista pediu votos para o PCP, que tem “um percurso único e coerente”. Mas, mais uma vez, com baterias apontadas para dentro: “Não é possível defender sólida e coerentemente os interesses nacionais sem mudar de política em Portugal”.