Editorial

Suárez e o valor do consenso

A morte do antigo presidente do Governo espanhol Adolfo Suárez obriga ao flash back da sua acção. Um homem oriundo das entranhas do regime franquista – fora ministro-secretário do Movimiento, o partido único franquista que dirigiu a Espanha após a vitória na Guerra Civil – é o protagonista escolhido pelo chefe de Estado, o rei Juan Carlos, após a morte de Francisco Franco, para implodir a segunda ditadura ibérica.

Este percurso parece surpreendente, mas não é. Na história há sempre margem para acções individuais. O que o então jovem monarca e Suárez protagonizaram esteve, no entanto, longe de ser uma aventura sem rede. Dinamitar um regime assente na força militar é um risco mais que suficiente para se correrem outros adicionais. O germe da transição democrática espanhola é fruto da conjugação de vários factores. Entre eles, o obsoleto da ditadura e o constrangimento económico que a autarcia impunha a um país com aspirações lógicas a ser potência económica.

Antes de Adolfo Suárez, no seio do regime caduco, já tinha havido movimentos. Em 1962, com o ditador de boa saúde, Manuel Fraga Iribarne, por um lado, e os ministros da Opus Dei López Rodó, López Bravo e López de Letona, por outro, iniciavam uma nova fase. Foi o tempo dos planos de Fomento que modernizaram a economia espanhola e aceleraram a queda da estrutura política da ditadura. Por desadequada e limitadora aos novos tempos.

O empurrão definitivo coube a Adolfo Suárez depois da morte de Franco, em Novembro de 1975. Em apenas um ano, entre Junho de 1976 e Junho de 1977, acabou com o Tribunal de Ordem Pública (equivalente ao Tribunal Plenário em Portugal); com as Cortes franquistas e os sindicatos verticais, corporativos; legalizou o Partido Comunista de Espanha de Santiago Carrillo, e neutralizou os ultras das Forças Armadas. Resistiu, com a verticalidade e coragem de quem não cede à força bruta das armas, à tentativa de golpe de Estado de 21 de Fevereiro de 1981.

O valor do consenso que o levou ao poder não se prolongou. A tarefa de Adolfo Suárez tinha acabado. Como democrata não guardou rancor. E esta não é a menor lição da sua vida política.