É um fotolivro feito com muitas dúvidas. Está entre os melhores

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João Cordeiro

Tem um livro entre os melhores do mundo: nesta semana, José Pedro Cortes viu Things here and Things still to come ser considerado entre o que de melhor se publicou nas últimas décadas – escolha de Martin Parr e Gerry Badger no terceiro volume de Photobook: a History

O ano de 2014 promete ficar na memória de José Pedro Cortes (Porto, 1976). Em Maio, terá um novo trabalho entre os três finalistas para o Prémio BESPhoto, na exposição que antecede o anúncio do vencedor de um dos mais relevantes prémios de fotografia internacionais. Nesta semana, viu um dos seus livros de fotografia (Things here and Things still to come, 2011) entre o que de melhor se publicou nas últimas décadas, uma escolha de Martin Parr e Gerry Badger no terceiro volume de Photobook: a History (Phaidon, 2014). Things… mostra a intimidade de quatro americanas judias que decidiram ir cumprir o serviço militar a Israel.

Antes do início da conversa, Cortes fez questão de mostrar uma descoberta recente: o fotolivro Bird of Paradise, Madeira (Heibon sha, 2001), do japonês Obata Yuji, acabadinho de desembrulhar de uma caixa da Amazon. O entusiasmo que sente agora com os livros de fotografia deve-o em parte a Parr/Badger, quando há uma década, com o primeiro volume desta saga e enquanto estudava em Londres, descobriu uma maneira alternativa de percorrer a história da fotografia. Agora, é ele que também faz parte dessa história.

No meio de molduras, estantes forradas e caixas de livros da Pierre von Kleist, a editora que ergueu com André Príncipe, em 2009, a conversa foi sendo pontuada com o palrar frenético do filho que, na cozinha, comia papa pela primeira vez.



O que significa isto de ter um livro entre os melhores do mundo?

O mais dúbio aqui é a questão de serem “os melhores do mundo”…

...sim, mas todas as escolhas têm um carácter subjectivo.

É verdade. Neste terceiro volume, os autores [Martin Parr e Gerry Badger] até reforçam essa subjectividade. Mas o mais importante para mim foi o ciclo bizarro que aconteceu desde que comprei o primeiro volume, em Londres, em 2004, quando estava a estudar fotografia. Foi o primeiro momento em que descobri uma história da fotografia feita através dos livros. Essa época coincidiu com as primeiras conversas com o André [Príncipe] para a formação da Pierre von Kleist. Passado já algum tempo sobre esta aventura com a editora, ver agora um livro meu aparecer em The Photobook: a History é um orgulho.

Apesar de os autores se colocarem nesse campo mais defensivo, o comum dos leitores olha para estas obras como a referência nesta área…

Os dois últimos volumes alcançaram de facto um certo estatuto. Os fotolivros que lá são descritos ganharam também uma aura de referência. Mas o meu livro [Things here and Things still to come, 2011] é feito com muitas dúvidas. Continua a ser um livro que me fascina. É o livro mais importante dos três que publiquei. Mas ainda tenho muitas dúvidas sobre ele, sobre toda a sua construção.

Isso quer dizer que é um livro ainda em aberto?

Sim, acho que ainda é um livro em aberto. E tem fotografias que me marcaram. Sei que daqui a muito tempo, quando olhar para algumas destas imagens, serei capaz de dizer “Ora, aqui estão quatro ou cinco grandes fotografias”. Isso já não era nada mal. Hoje, quando o percorro, consigo olhar para uma ou duas e dizer “Aqui sim, acho que acertei”.

Não deixa de ser um círculo curioso o facto de te teres tornado o (re)editor do Lisboa, Cidade Triste e Alegre, primeira referência portuguesa em The Photobook: a History, e depois, como autor, passares também a fazer parte dessa história…

A publicação do Lisboa… no primeiro volume ajudou de certa maneira a minha carreira como fotógrafo. Numa visão macro, as coisas que edito e as que faço como autor estão muito ligadas. Ainda não consigo determinar muito bem o que é que esta referência significa. O que posso é estabelecer um paralelismo com o entusiasmo que senti quando descobri muitos livros de fotografia nos dois volumes anteriores. O que é fascinante no meio disto é a descoberta de livros extraordinários que não conhecíamos.

O que achas que terá contribuído para esta escolha?

O facto de conhecer o Gerry Badger (ele fez o prefácio do Lisboa…) não mudou nada. Ele sempre foi muito pragmático a analisar os nossos livros. Mandei também uma cópia de Things… ao Martin Parr. Ele respondeu, como sei que faz em relação a muitos autores que lhe mandam livros. Lembro-me perfeitamente desse email, que era muito curto e dizia algo como “O teu livro é estranhamente erótico e eu gosto”. Mais tarde, encontrei o Gerry algures que me revelou que o livro estava a ser considerado para o volume 3. E disse também que isso até era estranho porque o Martin nem gosta de livros com mulheres nuas! [risos]

Mas o que achas que os pode ter seduzido, que qualidades imaginas que o teu livro tem?

Acho que pode ter a ver com uma contradição, que é a de termos um livro definido espacial e temporalmente, mas ao mesmo tempo haver uma certa ambiguidade. Como por exemplo o tipo de relação que tenho com as quatro mulheres fotografadas. O que é que existe ali? Ao mesmo tempo, a estranheza ao mostrar uma cidade completamente deserta. E porque importa isto? O que é que leva alguém a querer mostrar isto? Mas é simples: estive em Telavive nove meses, conheci quatro mulheres e fotografei-as.

O pequeno texto que abre o livro dá algumas coordenadas, mas a seguir, nas imagens, parece que não estamos a ver nada daquilo sobre o que acabamos de ler…

É verdade. Como o Martin e o Gerry dizem, o meu livro é um mistério, mas também é um sonho. Por outro lado, acho que consegui construir a imagem de uma relação erótica (sem ser verdadeiramente erótica). Estamos próximos de corpos e há todos os códigos do erótico, mas essa relação não é erótica. Mas também não é frígida. Creio que foram estes antagonismos o que mais lhes agradou.

Aquela declaração do início é verdade?

Sim. É uma pergunta que muitos me têm feito. E também o porquê da escolha destas quatro mulheres. Em Things… o leitor é confrontado com este problema: estou a olhar pelos olhos do fotógrafo ou pelos meus? Quem é que deve sentir. O fotógrafo? Ou eu? E quando estamos a ver pelo olhar do fotógrafo começamos a pensar: por que razão são estas quatro mulheres em específico. A verdade é que não as escolhi por nada de especial. A construção do livro é feita das imagens para o texto e não do texto para as imagens. Casualmente elas são amigas, nasceram nos EUA e estão em Telavive.

Dito assim parece que bate tudo demasiado certo…

Bate, mas na verdade isto é um livro sobre quatro mulheres e uma cidade abandonada.

Que impacto é que este reconhecimento pode vir a ter na editora?

Leva a uma atenção maior, não apenas do livro, mas da editora também. E isso já se notou um pouco. A Pierre von Kleist tem corrido bastante bem, não nos podemos queixar. Temos tido algum reconhecimento internacional. Esta escolha parece-me normal, faz sentido, porque os livros em que trabalhamos têm qualidade. Metemos muita energia neles para beneficiar todo o trabalho das pessoas envolvidas. Modéstia à parte, faz todo o sentido que os nossos livros sejam considerados entre os melhores.

Pensam passar a editar mais livros por ano?

É uma boa pergunta. Temos planos para editar até ao fim do ano mais quatro livros. E esta tem sido a nossa média. Não editamos mais porque a PvK tem tudo de profissional e amador ao mesmo tempo. Tentamos que tudo o que sai da editora seja o mais perfeito possível, mas a nossa escala é muito pequena ainda. Temos colaboradores, mas eu e o André continuamos a fazer muita coisa. E ainda temos as nossas carreiras, somos fotógrafos, o André faz filmes. Mas este é um espírito que nos interessa manter. Quando fica tudo demasiado estabelecido a coisa perde o interesse. Temos uma grande preocupação em pôr os livros a circular. É um desafio tão grande quanto o de os fazer.

Que importância dás aos fotolivros na tua prática fotográfica?

Dou imensa importância...

Mas quando fotografas pensas de imediato na maneira como vais apresentar esse trabalho?

Para mim, seja em livro ou não, o importante é trabalhar com um grande número de imagens. Não posso dizer que esteja a pensar em livros já definidos quando fotografo. Mas há todo o tipo de processos de trabalho. Things… é feito totalmente à posteriori, como se estivesse a usar uma mesa de mistura. Foi nessa edição que nasceu o que quis dizer. O Costa (2012) é feito de maneira diferente. Foi um trabalho mais lento. Com imagens captadas há sete ou oito anos. Estabeleci um plano semelhante ao de um realizador que vai filmando ao longo do tempo. Fui fotografando e fui regressando aos sítios à procura das imagens de que precisava.

Pensas sempre numa sequência?

Penso em imagens que se liguem.

Procuras alguma lógica narrativa ou preferes sequenciar imagens mais fechadas em si?

Prefiro deixar que o processo seja bastante vago. Tem de ser intuitivo e tem de haver espaço para cometer erros.

Qual foi a ideia que esteve na base da construção de Things…?

Foi encontrar imagens que dessem ao mesmo tempo esse lado privado, muito íntimo, e relacioná-las com a cidade, que está deserta, sinal muito estranho para qualquer cidade. Acontece que este é o meu lado pessoal e político do livro. É uma coisa que raramente me interessa, mas que em Telavive não foi possível evitá-lo. É uma cidade idílica, lindíssima, uma espécie de mistura entre Amesterdão e uma cidade tropical. Mas também é uma cidade vazia. Um local tormentoso e massacrado que consegue ser belo.

Mas parece que esse lado da cidade mais agitado nunca passa.

Não é bem assim. Se se olhar bem há algumas referências, o arame farpado, as paredes esburacadas… é uma cidade marcada. Se olharmos com atenção, percebemos que há imagens com um ruído.

O que é que te seduziu mais em Telavive?

Fui um período muito interessante da minha vida. Tive a sorte de passar nove meses quase só a fotografar. Pegava na bicicleta e ia fotografar. É uma cidade onde é muito fácil viver, tem uma escala perfeita. Seduziu-me pelo lado da história. A história judaica é a história do mundo. Telavive é uma cidade onde se sente a religião de uma forma muito forte. Seduziu-me a força da cultura judaica que vai muito para lá da religião. Temos uma noção da história algo distante. Mas ali vemo-la à nossa frente. Ao mesmo tempo, nota-se que Israel é um país em construção, com todos os lados positivos e negativos de um país novo. Um país que se quer proteger.

Foste nomeado para a fase final do prémio BESPhoto 2014 pela série Costa. O que te levou a querer registar um lugar como a Costa da Caparica?

Eu sou do Porto. Conheci a Costa quando vim viver para Lisboa, em 2005. Comecei a ir lá principalmente por causa da praia. Talvez pelo facto de estar a regressar de Londres e por ser do Norte, descobri ali uma luz e um território que tem muitos aspectos e muitos códigos que sempre me fascinaram – a arquitectura vernacular, a ruína, o território extenso e de poeira, uma espécie de fim de civilização. Mas, acima de tudo, há uma luz fascinante, que se mistura com a poeira. É uma luz que reflecte muito, encandeia, e que torna aquele território uma espécie de terra queimada. Regressei a ele várias vezes para fotografar. Tronou-se também um percurso mental que ia fazendo mesmo não estando lá. Pensava em imagens e depois ia à procura delas. Costa serve para mostrar o lado frágil da natureza, da arquitectura e do subúrbio, inundado por uma luz que é muito do Sul.

Há muitas imagens quase brancas, com luz a mais. Foi para sublinhar esse encandeamento?

Sim, para dar a ideia de que é um território difícil para viver. É sedutor e ao mesmo tempo difícil. Um bocado como o deserto, sedutor e mortal.

O júri do BESPHoto sublinhou em particular a capacidade de cruzar o registo da vida urbana contemporânea com imagens mais pessoais. Tentas dar uma panorâmica destes dois universos visuais ou procuras separá-los?

O que me interessa é perceber o que acontece quando esses dois mundos se unem. Em última instância, quem muda a agulha sou eu. Sendo uma espécie de mediador, tento unir estes dois lados, esta subjectividade. Nos livros, interessa-me fazer aproximações às pessoas, aos locais privados, e depois mostrar saídas para um mundo mais anónimo, que pode ser uma casa, um tipo de arquitectura. Gosto de correr riscos e de ver como estes dois mundos se comportam juntos. Interessa-me que o trabalho seja aberto. Interessam-me as fragilidades da fotografia e da construção de imagens, onde as coisas aparecem pouco definidas.

Qual foi a última fotografia que tiraste?

A última fotografia que tirei? Não sei. Por acaso… acho que sei. Foi uma fotografia aqui atrás da minha casa… muito próxima… Não, não, a última foi uma polaróide ao meu filho e à minha mulher [levanta-se e vai buscar um quadrado de margens brancas com um bebé à luz e uma mulher meio à sombra].