Compêndio de almas antigas

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No universo dos Clã estreiam-se dois novos letristas, Nuno Prata e Samuel Úria, ao lado dos habituais Carlos Tê, Sérgio Godinho, Regina Guimarães, Arnaldo Antunes e John Ulhoa Ana Luandina

Corrente despede-se ao som de uma balada espacial, uma possível valsa sem solo debaixo dos pés, num enamoramento longínquo por um quasar escrito por Carlos Tê em ambiente de gravidade zero, atravessada por um poema (Herbsttag) de Rainer Maria Rilke, lido no alemão original, que anuncia a chegada do Outono. O tempo, essa dor de cabeça constante, faz por emergir ciclicamente no novo disco dos Clã, álbum também ele nascido no meio de um torvelinho de dúvidas existenciais sobre a validade de agrupar assim canções nos dias que correm, de investir assim tempo, talento e dinheiro a escolher sons com minúcia, microfones e compressores e pedais à medida, uma artilharia de fineza tecnológica quase inteiramente sugada no momento em que uma canção é achatada e encolhida para caber num ficheiro mp3 vítima de maus tratos para soar nas colunas do computador ou nos auscultadores ligados ao telefone.

“Às vezes parece que somos um bocado anacrónicos nesta coisa de insistir em fazer discos, e de os fazermos com tempo e cuidado, investindo tanto neste objecto”, desabafa a vocalista Manuela Azevedo. “A maneira como as pessoas, em geral, se relacionam com a música é algo de muito difuso agora, só marginalmente se relacionam com álbuns inteiros”. Ainda assim, após uma ronda das tais discussões existenciais, os Clã acabaram por decidir avançar, mesmo arriscando esse anacronismo de construir laboriosamente um castelo de canções que logo será desfeito e desmembrado por um consumo de temas avulsos, favorecido pelos canais digitais que hoje mandam no jogo. Por enquanto, admitem rendidos, não sabem funcionar de outra forma.

O tempo, esse “brutamontes” – como lhe chama a romancista norte-americana Jennifer Egan –, mostra-se particularmente enigmático e difícil de descodificar quando, passados seis anos e meio sobre o anterior Cintura (pelo meio, um álbum para os mais novos intitulado Disco Voador), os Clã já nem sabem como tratar a sua editora de sempre no rol de aquisições e contra-aquisições de uma indústria cheia de tremores – EMI, Parlophone ou Warner, uma complicação. A editora de sempre, mas provavelmente também de nunca mais. Corrente chega em edição de autor, depois de feitas as contas: “[O “divórcio”] Teve que ver com a triste realidade de hoje as editoras terem orçamentos cada vez mais magros para investir nos discos. Chegámos à conclusão que iria haver logo à partida um grande investimento por parte da banda, para lá daquilo que a editora poderia garantir, pelo que não fazia sentido investirmos numa edição que não era nossa. Então, o melhor era mesmo separarmo-nos.”

“Não sei se daqui a uns anos vamos mudar com os tempos e com a realidade, se encontraremos outra maneira de fazer música que nos faça também sentido”, ressalva Manuela Azevedo. “Para já, continua a ser desta forma e nesse aspecto somos também almas antigas.”

De outro tempo

“Também almas antigas”. “Também” porque, alguns minutos antes, foi assim que Manuela Azevedo nos descreveu Nuno Prata e, sobretudo, Samuel Úria, os dois novos letristas no universo dos Clã que se estreiam em Corrente, ao lado dos habituais Carlos Tê, Sérgio Godinho, Regina Guimarães, Arnaldo Antunes e John Ulhoa. “O Samuel não é uma criatura realmente deste tempo”, concretiza a cantora dos Clã. “É talvez um homem da Renascença. Tem muitas coisas particulares: desde a figura, à maneira de falar, as palavras que usa na escrita. Parece-me alguém que conhece profundamente a língua portuguesa e ama as palavras todas, mesmo aquelas que têm um peso mais antigo. Por ser uma alma antiga atreve-se a usá-las todas. Acho isso maravilhoso.”

Nem de propósito, os primeiros versos que ouvimos a Samuel Úria pela boca dos Clã dizem “És um tipo do teu tempo”, canção de andamento solto chamada Zeitgeistcom um ligeiro travo a cowboy fora do sítio que ironiza com um despertador sonante sempre que há um “feng shui”, uma “indigência chique”, um catálogo de “100 passos de dança” e uma indumentária “preta sem ser luto” a adoptar com o desespero próprio de quem não pode deixar escapar a possibilidade de inscrever a existência em cada segundo que passa. Úria, percebe-se, está de fora, a ver o cortejo passar. De alguma maneira, também os Clã não se deixam puxar por esses engodos transitórios. Corrente, mais do que conseguira o anterior Cintura, é um disco de notável apuro pop, balanceado entre as deflagrações rock que o grupo sempre soube cuspir e as desacelerações de melodias curvilíneas, perfeitas nas suas ondulações, numa linguagem pop sabida e construtora de canções maduras (Úria teve ainda a sorte de lhe caber a magnífica Canção de Água Doce, belíssimo trecho que se veste de um subtil kimono no refrão).

Zeitgeist, na verdade, enquanto invólucro de retrato social condimentado com acidez, bem se poderia imaginar saído da pena de Carlos Tê, prova de que há um mundo próprio e comunicante nas letras dos Clã. O tal lado de “alma antiga”, continua Manuela Azevedo, justifica-se no caso de Nuno Prata pela sua “sabedoria na maneira de escrever, apesar de ser um rapaz novo”. O tom quase etéreo de A Ver se Sim (canção de fazer inveja a este regressado Beck de candura sem tempo de Morning Phase) contrasta, curiosamente, com a violência que Regina Guimarães é capaz de imprimir à letra de Conta de Subtrair, uma vertigem de guitarras e sons crispantes que passa pelo bullying mas que se foca mormente “numa personagem que ainda pensa em pim-pam-puns e lengas-lengas infantis mas para quem a realidade está organizada segundo a violência, a lei do mais forte”. A letra, que Manuela Azevedo classifica como “fortíssima, muito dura, arriscada até” esteve na dúvida para entrar em Corrente, dada a própria música (extremamente tensa) ter parecido ao grupo algo desligada do restante tom do disco. Mas um par de inclusões posteriores, segundo a lei democrática a que o grupo recorre para a escolha dos temas – “não é com voto secreto, é tudo muito cara a cara, cada um tem de argumentar por que gosta ou não gosta”, esclarece –, mais de acordo com um espírito mais cru e agressivo por via do rock (tal como o faz o francês Mathieu Chedid), ajudou a desfazer dúvidas e estabelecer um encadeamento capaz de acabar com o isolamento do tema.

Palavras roubadas

Ainda que involuntariamente por parte do grupo, é uma tentação ver em cada disco dos Clã uma selecção circunstancial de alguns dos melhores letristas da língua portuguesa. Manuela Azevedo repele o peso dessa escolha e de uma qualquer ideia antológica, “porque tornaria esse olhar muito distante, como se as pessoas fizessem parte mais de uma História do que propriamente do presente”. “A escrita do Tê, do Sérgio, do John Ulhoa, do Arnaldo, da Regina, do Samuel e do Nuno Prata é uma escrita de hoje e necessária hoje”, acrescente, “tão urgente para nós como a nossa música é”. Mesmo sacudindo a eventual pompa da designação “antologia”, a cantora não está interessada em tal responsabilidade e circunscreve os poetas convocados àqueles com que os Clã contam para criar “hoje e amanhã”.

Ao contrário, por exemplo, do que aconteceu no excelente Rosa Carne, o álbum de maior risco editado pelos Clã até hoje – em que o single de apresentação, desde logo, era uma canção espantosa mas retorcida, sombria e rasgada subitamente por um sample de Amália Rodrigues (Competência para Amar) – e em que havia uma temática global marcada pelo universo feminino, em Corrente não houve quaisquer indicações transmitidas aos letristas, ainda que a marcha do tempo e das estações pareça construir uma rede subterrânea de túneis que liga vários temas. De qualquer maneira, esclarece Manuela Azevedo, as letras não caem milagrosamente nas canções sem pistas algumas. Na verdade, não são apenas os arranjos em estado praticamente final a servir de guia aos letristas convidados. “Acontece outra coisa que é defeito meu”, ri-se a vocalista. “Não consigo trautear. Se tiver de cantar uma coisa em lálálás fica muito inexpressivo e árido. Então tenho de arranjar sempre palavras para os nossos esquissos de canções e normalmente roubo-as. Como é muito difícil estar a roubar a textos em português, porque isso pode condicionar muito quem vai escrever também em português, o que faço é ir a + do Tom Waits, discos do Elvis Costello, coisas do David Byrne, roubar uns tantos textos e adaptá-los às canções. Aí, dou por mim a escolher algumas letras que tenham que ver com aquele universo que a música me sugere.”

Tom Waits, Elvis Costello, David Byrne, todos almas antigas. Mas que, na verdade, dão a medida certa a este pop/rock dos Clã, clássico, desassombrado, assente em canções seguras de si e que, cada vez mais, não se imaginam na pele de nenhuns outros.
 

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Clã
Corrente
Ed. Autor; distri. Parlophone
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