Opinião

Como sanar o insanável

Como explicar que Angela Merkel diga exactamente o mesmo com o intervalo de três anos?

A bem da fraterna reconciliação entre socialistas e sociais-democratas, permitam-me começar este texto com uma citação e uma pergunta. A citação é de uma notícia do PÚBLICO: “Em conferência de imprensa a seguir ao encontro com o primeiro-ministro português, a chefe de Governo alemã sublinhou que Portugal tem dado passos na direcção certa, apelidou as medidas de austeridade de corajosas e disse que ‘Portugal está num muito bom caminho’.” Eis a pergunta: quando é que foi escrita esta notícia do PÚBLICO? Terá sido há dois dias, aquando do encontro de Angela Merkel com Pedro Passos Coelho?

Não, não foi. A notícia citada é de 2 de Março de 2011, era então José Sócrates primeiro-ministro de Portugal. Reparem como o coração de Angela Merkel é generoso: a chanceler alemã gostava tanto de Sócrates em 2011 como gosta de Pedro Passos Coelho em 2014. Um amor pelo político lusitano que depois se estende à própria pátria. Em 2011, Portugal estava no “muito bom caminho”. Actualmente, “Portugal está no caminho certo” – frase que, segundo a imprensa, foi salientada “várias vezes” ao longo da conferência. E também em relação aos elogios da política da austeridade encontramos um padrão coerente: “Mérito de quem aplicou as medidas austeras”, disse a Merkel 2014; palmas para quem aplicou “medidas de austeridade corajosas”, afirmou a Merkel 2011. 
Por estes exemplos se vê como a fotoviagem de Passos Coelho a Berlim em vésperas do final do programa de ajustamento é em tudo idêntica à de José Sócrates na véspera da apresentação do PEC IV. Isto levanta um desafio: como explicar tamanha proliferação de encómios da chanceler alemã para com a nossa pátria e os nossos governantes, sejam eles do PSD ou do PS? Como explicar que Angela Merkel diga exactamente o mesmo com o intervalo de três anos? Por que raio é que o caminho do país é sempre certo, muito bom, excelente e magnífico, independentemente de quem está no governo?

A resposta a esta pergunta só pode ser uma: pela simples razão de que o caminho seguido por Portugal – o caminho da malvada e muito vilipendiada austeridade – é o caminho que Angela Merkel (e a Europa, e os credores) requer e exige, independentemente de quem esteja sentado em São Bento. Foi o caminho de Sócrates em 2011. É o caminho de Passos Coelho em 2014. E tudo indica que irá ser o caminho de António José Seguro em 2015 ou 2016. É, tristemente, o caminho da inevitabilidade, que tanto o PS como o PSD seguiram, seguem e seguirão, porque, por muito que falem, não têm outro remédio, não há alternativa melhor – e Angela Merkel estará sempre disponível para o explicar em conferência de imprensa.

Daí que, quando questionada sobre os desentendimentos entre Pedro Passos Coelho e António José Seguro, a chanceler alemã tenha respondido apenas: “A oposição também apoia as medidas orçamentais.” Que é como quem diz: “O PS também subscreveu o Pacto Orçamental.” O tal pacto, para quem não se recorda, que obriga a descer a dívida de 129% para 60% do PIB a toque de caixa. Uma loucura, claro. Mas uma loucura que tem por baixo a assinatura de António José Seguro. O tal Seguro das “divergências insanáveis”. O tal Seguro que ainda veremos daqui a dois anos em Berlim, elogiado por Angela Merkel em conferência de imprensa, devido às suas políticas de austeridade e às medidas corajosas que foi obrigado a tomar. Tudo para que Portugal permaneça “no bom caminho”, claro.

Jornalista